A gentrificação nas cidades neoliberais

Imagem: Peter Herrmann
image_pdf

Por ERICK KAYSER*

As dinâmicas de expropriação e mercantilização do espaço urbano, que reconfiguram o espaço urbano e impactam as classes populares

1.

A gentrificação que transforma radicalmente grandes cidades contemporâneas, impulsionada por políticas neoliberais de financeirização do espaço urbano, pode ser mais plenamente compreendida quando inserida num quadro histórico mais amplo de desenvolvimento do capitalismo. Para essa empreitada, voltar a autores clássicos da crítica anticapitalista, como o alemão Friedrich Engels (1820-1895), oferece uma ferramenta analítica poderosa para desvendar a natureza cíclica e estrutural desses processos de expropriação espacial.

Frequentemente lembrado como um dos fundadores, ao lado de Karl Marx, do materialismo histórico, em sua obra seminal A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, publicada em 1845, longe de representar apenas um registro histórico das condições do proletariado no século XIX, é, acima de tudo, um relatório sensível e analítico sobre como a industrialização reorganiza o espaço urbano e a vida cotidiana das classes populares.

Ainda que escrito num contexto histórico muito distinto do atual, o livro oferece categorias e intuições que permanecem surpreendentemente úteis para compreender um fenômeno atual: a gentrificação nas cidades submetidas às lógicas do neoliberalismo. Longe de sugerir uma equivalência histórica total, o exercício que proponho aqui é o de extrair dos procedimentos analíticos de Friedrich Engels, como a atenção às relações entre capital e habitação, trabalho, saúde, moralidade urbana, etc., pistas para decifrar como a circulação do capital reconfigura territórios, faz deslocar populações e transforma usos do solo em mercadoria.

Friedrich Engels descreve com uma inédita precisão a morfologia social das cidades industriais: confinamento de trabalhadores em habitações insalubres, sobreposição de função residencial e produtiva, ausência de infraestrutura adequada, e uma visível violência simbólica e material contra a vida dos pobres.

Importante para o diagnóstico contemporâneo é a visão de Friedrich Engels sobre o capital como agente transformador do espaço. A cidade não é uma mera cena onde ocorrem conflitos sociais, mas o próprio produto das relações de produção. A sua denúncia da especulação imobiliária ainda incipiente, da “lógica do lucro” que determina onde e como vive a população, encontra nos processos de gentrificação do século XXI uma continuidade.

Pelo menos três elementos do diagnóstico engelsiano permitem alguns paralelos conceituais que ajudam a iluminar a gentrificação. Primeiro, a commodificação do abrigo e a produção de moradia como mercadoria. Friedrich Engels já assinalava como o preço e a qualidade das habitações eram determinados por interesses capitalistas. Hoje, a moradia foi ainda mais profundamente mercantilizada, o alojamento torna-se ativo financeiro, alvo de investimento e especulação, o que eleva preços e transforma bairros populares em oportunidades de lucro.

Outro elemento é segregação socioespacial. A descrição de bairros operários, suas margens e canalizações de pobreza lembra as transformações contemporâneas onde áreas centrais e históricas, antes marginalizadas, tornam-se alvo de intervenções que privilegiam classes de maior poder aquisitivo, expulsando os antigos moradores.

E o terceiro aspecto Riscos à vida e à saúde como externalidades. Friedrich Engels relacionava condições de habitação com mortalidade, morbidade e desestruturação social. A gentrificação contemporânea produz externalidades sociais semelhantes: aumento do custo de vida, perda de redes de sociabilidade, precarização residencial e efeitos negativos sobre a saúde mental e física de populações deslocadas.

2.

A gentrificação constitui um processo essencialmente violento de transformação urbana movido pela ambição econômica e sustentado por forças políticas paralelas enraizadas em justificativas ideológicas de renovação, ressurreição e limpeza social da cidade. Este tem sido um dos principais mecanismos neoliberais de políticas urbanas e arquitetura do mercado.

Embora Friedrich Engels não tivesse previsto instrumentos atuais – títulos lastreados em hipotecas, fundos de investimento imobiliário, turismo de curto prazo, parcerias público-privadas, incentivos fiscais à requalificação imobiliária – sua ênfase nas regras do capital explica o surgimento desses mecanismos.

As administrações neoliberais, ao priorizar atração de investimentos privados e “revitalização” via mercado, promovem políticas que convergem com os interesses da propriedade: requalificação de áreas centrais com isenções fiscais, transformação de uso do solo para consumo e moradia de luxo, privatização de espaços públicos e estímulo à economia criativa como justificativa cultural para intervenções que têm, no fundo, função de valorização imobiliária. O resultado é um ciclo: investimento → valorização → expulsão → nova oferta voltada a público com maior renda.

Friedrich Engels olhava também para dimensões morais e culturais, tais como formas de vida, hábitos, higiene, etc. como campos de disputa. No presente, a estética urbana (cafés “artesanais”, boutiques, galerias e etc.) funciona como uma linguagem de legitimação para a transformação de bairros. Assim, a requalificação estética mascara a função social real (aumento de renda do solo) e produz narrativas de “revitalização” em que a presença popular é descrita como “obstáculo” ao progresso. A gentrificação articula, assim, estética e economia em uma estratégia que naturaliza a expulsão.

Friedrich Engels não só diagnosticava, mas indicava a necessidade de organização coletiva e ações políticas para enfrentar a miséria. Transposto ao tema da gentrificação, esse legado aponta para a centralidade de políticas públicas orientadas pela garantia do direito à moradia, regulação da ocupação do solo, controles de aluguel, e iniciativas comunitárias que preservem o tecido social, além de formas de mobilização popular que denunciem a privatização do espaço comum.

Ler Friedrich Engels hoje, portanto, não é projetar mecanicamente sua época sobre a nossa, mas aproveitar sua sensibilidade analítica: observar como o capital se inscreve no espaço urbano, transforma moradias em mercadorias e cria condições de vida adversas para as classes populares.

Friedrich Engels oferece categorias – exploração, acumulação, produção social do espaço – que permanecem heurísticas poderosas para interpretar a gentrificação contemporânea quando articuladas às especificidades do neoliberalismo financeiro.

*Erick Kayser é doutorando em história na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
9
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
12
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
13
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
14
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
15
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES