A guerra de Donald Trump contra a Venezuela

Imagem: Arturo A
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Por FRANCISCO DOMINGUEZ*

A agressão estadunidense, que incluiu o rapto de Maduro e a imposição de um bloqueio naval, revela a disposição de Washington em usar a força bruta para recolonizar a América Latina, enfrentando uma resistência popular e institucional organizada

1.

Aconteceu finalmente de uma forma inesperada. Em 3 de janeiro de 2026, Donald Trump ordenou que as forças militares dos EUA lançassem um ataque mortal contra a Venezuela, envolvendo 150 aeronaves militares e helicópteros (decolando de 20 bases diferentes em todo o hemisfério) e forças militares especiais que bombardearam Caracas, Miranda, Aragua e La Guaira. Os ataques causaram perdas substanciais de vidas e destruição de edifícios e infraestruturas, com pelo menos 40 civis mortos, muitos deles enquanto dormiam.

As forças americanas cercaram as instalações onde o presidente Nicolás Maduro se encontrava e enfrentaram uma resistência feroz da guarda presidencial. As forças americanas mataram todos os 40 homens a sangue frio (32 deles cubanos, que morreram cumprindo uma missão internacionalista – glória eterna a eles!). As forças dos EUA então sequestraram violentamente o presidente e sua esposa, Cilia Flores – ambos com ferimentos graves –, levando-os para o USS Iwo Jima e depois para Nova Iorque.

Em Nova Iorque, o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) processou-os com acusações totalmente forjadas [trumped-up] (trocadilho intencional) de tráfico de drogas e narcoterrorismo, falácia confirmada pelo próprio Departamento de Justiça, que retirou a alegação de que o Cartel de los soles, que o presidente Nicolás Maduro teria falsamente dirigido, é uma organização criminosa que realmente existe. Essa tem sido a narrativa tóxica, repetida ad nauseam pela mídia corporativa mundial.

Em sua primeira aparição no tribunal de Nova Iorque, o presidente Nicolás Maduro disse: “Sou o presidente da Venezuela e considero-me um prisioneiro de guerra. Fui sequestrado em minha casa em Caracas”. “Sou inocente, não sou culpado. Sou um homem decente e continuo sendo o presidente do meu país”.

Com isso, a administração de Donald Trump perpetrou a mais descarada violação do direito internacional, pisoteando todos os seus princípios com o envio ilegal de uma frota de guerra bem intimidante para o Mar do Caribe e, em seguida, ordenando um ataque militar violento contra uma nação soberana, bombardeando suas cidades, matando indiscriminadamente e sequestrando violentamente o presidente e sua esposa.

A Assembleia Nacional, seguindo uma decisão do Supremo Tribunal da Venezuela de 6 de janeiro de 2026, empossou a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina, cerimônia na qual ela afirmou que ficaria no cargo até que o presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, fosse devolvido em segurança, juntamente com sua esposa, Cilia Flores. Sua assunção à presidência foi apoiada forte e inequivocamente pelas forças armadas da Venezuela e por todas as instituições estatais importantes.

2.

Delcy Rodríguez descreveu o que estava sendo feito à Venezuela e o brutal sequestro do presidente da nação como “bárbaro” e acrescentou que as ações de Washington mostravam que “as máscaras caíram”, “que o verdadeiro objetivo do ataque era desmantelar a independência política da Venezuela e reimpor um regime de estilo colonial”. Ao assumir a presidência, Delcy Rodríguez afirmou de modo firme: “Nenhum agente externo governa a Venezuela”.

Donald Trump afirma que está governando a Venezuela e ameaçou a presidente interina, Delcy Rodríguez, dizendo que, de sua parte, o não cumprimento das ordens dos EUA terá consequências graves. Ele ameaçou com um segundo ataque militar se [o governo interino] não se comportar. Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, falou a respeito do controle dos EUA sobre a Venezuela como um senhor colonial.

A comunidade internacional está chocada com a ousadia do ataque de Donald Trump contra a Venezuela, após o bloqueio naval de três meses imposto ao país. Isso claramente levanta um espectro sinistro: com a frota de guerra dos EUA ainda posicionada no Mar do Caribe, os EUA podem infligir um tratamento semelhante a praticamente qualquer país do hemisfério ocidental.

Os parlamentares do Reino Unido, muito preocupados com esse comportamento aterrador da administração Donald Trump e, particularmente, com as acrobacias abjetas em apoio ao ataque totalmente ilegal e brutal contra a soberania da Venezuela realizadas pelo primeiro-ministro Keir Starmer e seus ministros, levantaram a questão no Parlamento britânico por meio de uma moção antecipada que vale a pena citar na íntegra, uma vez que captura de forma pungente o que significa o ataque dos EUA à Venezuela: “Que esta Câmara condena veementemente a agressão militar ordenada por Donald Trump contra a Venezuela no sábado, 3 de janeiro, que envolveu bombardeios aéreos generalizados, perda de vidas e o sequestro do presidente da Venezuela; observa que esta ação constitui uma violação flagrante do direito internacional e dos princípios da Carta das Nações Unidas, incluindo a proibição do uso da força e o princípio da não intervenção nos assuntos de Estados soberanos; considera que, independentemente da justificação apresentada, esta agressão militar visa principalmente garantir o controle sobre os recursos petrolíferos da Venezuela, as maiores reservas comprovadas do mundo; observa ainda que este ataque faz parte de uma tentativa mais ampla dos Estados Unidos de reafirmar o domínio de estilo colonial sobre a América Latina, conforme estabelecido na recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA e reforçado por declarações subsequentes do Departamento de Estado dos EUA; também observa com profunda preocupação as ameaças feitas pelo presidente Donald Trump de novos ataques militares contra a Venezuela se o presidente interino não cumprir as exigências dos EUA, e observa ainda com preocupação ameaças semelhantes contra Colômbia, México e Cuba; apela à cessação imediata de todas as ações militares ilegais dos EUA contra a Venezuela e ao retorno em segurança de Nicolás Maduro; opõe-se veementemente à posição adotada pelo primeiro-ministro em resposta a este ataque; e exorta o governo do Reino Unido a condenar inequivocamente este ato injustificado de agressão contra a Venezuela, a defender a Carta das Nações Unidas e o direito internacional e a não abandonar estes princípios fundamentais a fim de apaziguar o presidente Donald Trump”.

3.

Keir Starmer recusou-se a condenar a grave violação do direito internacional pelos EUA e foi amplamente criticado por todos os partidos, incluindo o seu próprio. Emily Thornberry, presidente trabalhista da comissão de relações exteriores, referindo-se ao ataque dos EUA à Venezuela, disse: “Devemos chamar isso pelo que é: uma violação do direito internacional”.

Richard Burgon, deputado trabalhista por Leeds East, disse: “Foi o primeiro-ministro que decidiu ignorar a Carta das Nações Unidas quando se tratou do bombardeio, assassinato e sequestro de um chefe de Estado por Donald Trump. Acho que diz muito que o primeiro-ministro tenha optado por não vir a esta casa para explicar sua decisão”.

Na verdade, o Reino Unido tem um longo histórico de cumplicidade ativa na desestabilização da Venezuela pelos EUA.

O próprio fato dos EUA terem decidido utilizar um ataque “cirúrgico”, mostrando relutância em “ir até o fim com uma guerra para mudar o regime” e preferindo, em vez disso, um caminho de menor resistência, é uma prova da existência de milhões de pessoas organizadas como milícias.

Uma invasão em grande escala provavelmente teria criado um contexto que transformaria uma invasão terrestre num atoleiro. Além disso, não houve nenhuma fratura na liderança política ou militar e nenhum sinal da extrema-direita venezuelana no país após o ataque dos EUA. O próprio Donald Trump disse que María Corina Machado não goza de apoio nem respeito no país. A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina ajuda a dissipar incertezas e estabelece um roteiro para preservar a ordem constitucional.

A presidente interina Delcy Rodríguez tem um trabalho difícil pela frente. O jornalista e intelectual venezuelano Miguel Perez Pirela resumiu com precisão o papel histórico, fundamental e estratégico de Delcy Rodríguez neste momento difícil: “Por um lado, ela deve garantir que o país permaneça pacífico, assegurar a estabilidade econômica e o funcionamento normal do Estado após o bombardeio e, por outro, deve realizar negociações complexas com o presidente Nicolás Maduro e os sequestradores de sua esposa para trazê-los de volta à pátria em meio a todo tipo de ameaças e chantagens”.

4.

Em 8 de janeiro de 2026, Delcy Rodríguez realizou uma reunião com a Grande Frente Patriótica (coalizão governista da Venezuela), na qual exigiu unidade monolítica para garantir a continuidade da revolução e o compromisso inabalável de trazer de volta “o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, a preservação da paz nacional e a defesa absoluta da governabilidade e soberania da República”.

A narrativa padrão da grande mídia sobre a Venezuela, que está sendo aceita acriticamente por setores da esquerda, é que a nação está em estado de decadência, submersa no caos e no colapso econômico, uma descrição que está longe da verdade. Descrição que ignora como as sanções dos EUA destruíram o enorme progresso alcançado pela Revolução Bolivariana.

Antes da mobilização da frota de guerra dos EUA e do ataque militar de 3 de janeiro, a Venezuela, sob a liderança do presidente Nicolás Maduro, estava passando por uma forte recuperação econômica. Em 2025, a economia cresceu entre 7% e 9% (a mais alta da região). A indústria petrolífera da Venezuela estava em recuperação constante, produzindo mais de 1 milhão de barris de petróleo por dia, recursos que contribuíram – desde cerca de 2020 – para tornar a Venezuela mais de 90% autossuficiente em alimentos.

Quase 5 milhões de casas foram construídas, a inflação caiu para um dígito, de 1,5 milhão por cento em 2018 (em março de 2022 era de 1,4%); através do programa CLAP, milhões de pessoas tiveram acesso garantido a cestas básicas subsidiadas. Em 2024, o orçamento nacional para 2025 destinou 78% às despesas sociais. Tudo isto sob as terríveis condições criadas por mais de 1000 medidas coercivas unilaterais.

Esses ganhos foram possíveis graças à transformação realizada pelo presidente Hugo Chávez desde 1999, que, entre muitas outras coisas, envolveu uma redução drástica da pobreza e da pobreza extrema, expansão massiva da educação gratuita em todos os níveis, assistência médica gratuita para mais de 20 milhões de venezuelanos, criação da PetroCaribe para fornecer petróleo barato em condições de crédito generosas a mais de 13 países caribenhos e a Operação Milagre, um programa que restaurou cirurgicamente a visão de mais de 4 milhões de pessoas em toda a América Latina, também gratuitamente. Além disso, restaurou a dignidade dos pobres, da classe trabalhadora, dos negros, das mulheres, das comunidades indígenas, dos camponeses e de todos os outros. E muito mais.

Não é de admirar que milhares e milhares de pessoas tenham enchido as ruas da Venezuela nos últimos dias para protestar contra o ataque sinistro e brutal que sua nação sofreu após o ataque dos EUA, no qual soldados imperiais sórdidos raptaram seu presidente e sua esposa. Cilia Flores também é reverenciada porque foi a advogada de defesa de Hugo Chávez após a insurreição fracassada de 4 de fevereiro de 1992, que o levou à prisão e julgamento.

O povo está expressando sua indignação pelo assassinato a sangue frio de seus compatriotas, está exigindo o regresso de seu presidente e de sua esposa e está organizando a resistência, preparando-se para um segundo ataque. A extrema direita que apoiou a agressão dos EUA não está em lugar algum na Venezuela. Eles sabem que, se os EUA os transformarem numa colônia, perderão todos os ganhos sociais e políticos substanciais que conquistaram em 26 anos do processo bolivariano.

As mobilizações na Venezuela tiveram enormes equivalentes em todo o mundo, com piquetes, marchas e manifestações em massa em todas as grandes cidades do mundo, condenando veementemente a grave agressão dos EUA contra a Venezuela. Cansados da intimidação e agressão dos EUA, consciente ou inconscientemente, eles identificam-se com a dinâmica geral da Revolução Bolivariana por um mundo melhor, que começou em 1999.

Além disso, a postura internacionalista sólida e consistente da Venezuela Bolivariana em solidariedade e apoio às lutas do Sul Global torna-a um farol de soberania, dignidade e anti-imperialismo. A Revolução Bolivariana mostrou que um mundo melhor pode ser construído e, por isso, continua sendo um farol de inspiração para milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, especialmente no Sul Global.

*Francisco Dominguez é professor de ciência política na University of Middlesex (Inglaterra).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

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