A guerra será longa

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Por DMITRI TRENIN*

Esta será uma guerra longa, e os EUA, com ou sem Donald Trump, continuarão sendo adversários de Moscou. Para os russos, o que está em jogo nesta luta não é o estatuto da Ucrânia, mas a existência da Rússia

1.

O embaralhamento verbal do atual presidente americano é o estilo caraterístico de Donald Trump. Devem ser monitorados, mas não superestimados: nem numa direção mais favorável, nem numa direção menos favorável para nós. Também deve ser compreendido que Donald Trump não é o “rei” da América e que a “revolução Trump” de que se falava no início do ano parece ter sido substituída pela evolução do próprio Donald Trump no sentido de uma aproximação ao establishment americano.

A partir desta posição, faz sentido olhar para os resultados intermediários de nossa “operação diplomática especial” – seis conversas telefônicas entre os presidentes, conversações entre ministros das relações exteriores e assessores de política externa dos chefes de Estado, bem como comunicação em outros níveis elevados.

A parte positiva inclui, em primeiro lugar, o restabelecimento do diálogo entre Rússia e Estados Unidos, interrompido pela administração Joe Biden.

Também é importante que este diálogo não se limite à discussão sobre a guerra na Ucrânia. Oportunidades potenciais de cooperação numa série de áreas são delineadas, da geopolítica aos transportes e esportes. Até aqui, isto não é muito relevante, mas poderá ser útil no futuro. Afinal, a retomada do diálogo, muito provavelmente, não será interrompida sob Donald Trump, embora sua intensidade e tom mudarão.

O diálogo com os Estados Unidos levou à retoma das negociações com a parte ucraniana em Istambul. As negociações em si não têm agora qualquer sentido político, e as trocas de prisioneiros de guerra aconteceram sem elas. É importante, no entanto, que o contato direto com Kiev tenha reforçado a tese fundamental de nossa diplomacia sobre a disposição da Rússia para uma solução política para o conflito.

Estes êxitos são, evidentemente, de natureza técnica e tática.

2.

Desde o início, era óbvio que não seria possível chegar a um acordo com Donald Trump sobre a Ucrânia em termos que satisfizessem as exigências de segurança da Rússia.

E, claro, ninguém negociaria com Donald Trump às custas da segurança da Rússia. Também seria ingênuo assumir que Donald Trump levará a Ucrânia à “rendição” completa, se unirá ao Kremlin contra a União Europeia e irá para uma “nova Yalta” na forma de um renovado “Três Grandes”, já constituído pelos Estados Unidos, Rússia e China.

Portanto, a página foi virada. O que vem a seguir? É provável que Donald Trump assine os novos atos de sanções, mas, ao mesmo tempo, terá a oportunidade de aplicá-los segundo seu próprio critério. As novas medidas aumentarão a instabilidade no comércio mundial, mas não terão impacto nas políticas russas.

Donald Trump transferirá os restos de armas dos “pacotes Biden” para a Ucrânia e, possivelmente, será forçado a acrescentar algo “por conta própria”, mas, no futuro, a maior parte da assistência militar a Kiev virá da Europa ou através da Europa (Berlim e outros comprarão sistemas americanos e os transferirão aos ucranianos).

Os Estados Unidos continuarão transferindo informações de inteligência para a Ucrânia que são fundamentais para ataques, especialmente nas profundezas do território russo.

A guerra não terminará em 2025. Ela não terminará após o fim das hostilidades na Ucrânia.

Devemos compreender que o atual conflito não tem a ver com a Ucrânia enquanto tal.

Esta é (por enquanto) uma guerra por procuração do Ocidente contra a Rússia. E esta confrontação em si é parte de uma guerra mundial em curso, na qual o Ocidente está lutando para manter a hegemonia mundial.

Esta será uma guerra longa, e os Estados Unidos, com ou sem Donald Trump, continuarão sendo nosso adversário. Para nós, o que está em jogo nesta luta não é o estatuto da Ucrânia, mas a existência da Rússia.

*Dmitri Trenin é membro do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia. Foi diretor do think tank Carnegie Moscow Center.

Tradução: Fernando Lima das Neves.


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