Por GABRIELA MALESUIK ARAGÃO BARROS*
Considerações sobre o livro de Antoine Lilti
1.
Em 1944, Max Horkheimer e Theodor Adorno lançaram a Dialética do esclarecimento. O livro era inicialmente composto por três ensaios, com os quais os autores buscavam um entendimento totalizante do esclarecimento (Aufklärung) e de sua herança viva durante os anos 1940. Em 1947, foi acrescido um quarto ensaio tão importante quanto os demais para o estabelecimento pleno do sentido da obra.
Os temas distribuídos nos ensaios são, respectivamente, os problemas da constituição da razão moderna; a pré-história da subjetividade iluminista exposta na Odisseia de Homero; as ambiguidades morais capturadas na literatura dos escritores malditos do XVIII, como Sade; e, por fim, a política e os limites do esclarecimento, explicitados nos fenômenos do antissemitismo moderno e contemporâneo.
A tese que perpassa todos os ensaios é exposta no primeiro prefácio do livro: os autores se propunham a “descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova barbárie” (ADORNO; HORKHEIMER, p. 17). Trata-se de tentar explicar por que o avanço técnico e a racionalização da sociedade, característicos da experiência temporal moderna, não implicaram a efetivação da liberdade humana e dos potenciais emancipatórios das ideias iluministas.
Nesse sentido, modernidade e iluminismo, para os autores, são categorias semanticamente indissociáveis, com as quais se pode compreender a historicidade do mundo globalizado contemporâneo e sua razão de ser. No entanto, para Max Horkheimer e Theodor Adorno, o estado da razão iluminista nos anos 1940 é o da conversão da razão em mitologia. A autoconsciência da racionalidade humana e seu uso instrumental é posto em xeque por projetos de genocídio possibilitados pelo aprimoramento das tecnologias humanas, como no caso do uso industrial de câmaras de gás durante o Terceiro Reich.
A mesma indissociabilidade entre modernidade e iluminismo também está presente no livro A herança das luzes, do historiador francês Antoine Lilti. Entretanto, as diferenças entre a tese desse último e dos filósofos alemães do século passado são notórias. Não interessa a Antoine Lilti uma autocrítica da razão esclarecida aos seus próprios pressupostos, mas sim procurar “escapar da alternativa entre o universalismo das Luzes e um relativismo culturalista que seria a sua negação” (LILTI, p. 37).
Escapar do “universalismo” bloqueia de antemão a possibilidade de criticar internamente os conceitos que perfazem a racionalidade iluminista enquanto tal, como “subjetividade”, “política” e “moral”, pois é preciso assumir essa racionalidade como um postulado universal da experiência humana de modo geral.
2.
A seguir, proponho expor brevemente aproximações e, sobretudo, tensões entre os projetos de Antoine Lilti e de Max Horkheimer e Theodor Adorno. O intuito é mostrar como a tese dos autores alemães ainda suscita discussões sobre o presente e a nossa relação com o ideal iluminista de uma humanidade esclarecida, capaz de regular os processos sociais racionalmente, por meio do reconhecimento recíproco dos indivíduos como sujeitos autônomos.
Inicialmente, cabe destacar que, se no alemão Aufklärung remete tanto ao Iluminismo como um movimento histórico quanto ao processo subjetivo e potencialmente universal de tornar-se “esclarecido”, a palavra lumière(s) em francês abarca outra ambiguidade: refere-se à razão iluminista como experiência racional universalizável, mas, também, indica a ideia de “luzes” como um processo político e cultural com focos diversos.
A última concepção foi conscientemente selecionada para a tradução do título do livro de Antoine Lilti em português. A escolha perspicaz dos tradutores, Andrea Daher e Luiz Cesar de Sá, enfatiza a tentativa de Antoine Lilti de não cair no “universalismo filosófico” da razão moderna, de modo que as luzes sejam consideradas um conjunto de ideias políticas e filosóficas que, em diferentes tempos e espaços, adquiriram especificidades próprias.
Essa é uma concepção compatível com a historiografia mais recente do Iluminismo, que tenta encaixá-lo em perspectiva global preservando as especificidades das experiências sociais.
Na generosa dedicatória ao meu exemplar do livro, Antoine Lilti ressaltou que seu projeto envolve considerar as luzes, mas sem dialética. Chamou-me a atenção essa dedicatória porque, embora não seja mais do que uma consideração descontraída que dialoga com meus interesses de pesquisa, se torna uma pista acerca do empreendimento do autor.
Afinal, é possível conhecer um modelo de racionalidade indissociável da experiência de ser moderno, da forma historicamente determinada do capitalismo, sem levar às últimas consequências uma crítica a si mesmo e a seus próprios princípios? Em outras palavras: é possível falar de uma racionalidade ainda vigente e de sua história, colocando-se em alguma medida “de fora” dela?
Não é minha pretensão responder a essas perguntas, mas apontar, a partir delas, como Antoine Lilti parece procurar um meio termo, uma mediação, entre o universalismo à moda filosófica “europeia” e a suspeita do pensamento pós-colonial quanto às propostas que pretendem abstrair a multiplicidade em um princípio racional comum e unitário. Em alusão ao projeto do pensador pós-colonial indiano Dipesh Chakrabarty, Antoine Lilti sugere a possibilidade de provincializar a Europa e universalizar as Luzes.
Se, por um lado, Antoine Lilti está alinhado com Max Horkheimer e Theodor Adorno quanto à impossibilidade de falar sobre a modernidade sem pensar o iluminismo, e vice-versa, ele se distancia ao acreditar ser possível falar sobre a herança das luzes na sociedade global contemporânea, sem levar às últimas consequências uma crítica que considera o modelo de racionalidade moderna um pressuposto universal da experiência e, especificamente, das relações de poder.
3.
Ao assumir a necessidade de “universalizar” as Luzes, Antoine Lilti perde de vista que o modelo de racionalidade vigente já é um produto direto do legado iluminista, dada a centralidade do direito, do mercado e da dissociação entre esferas pública e privada para a vida humana. A ascensão dos discursos da extrema direita e de uma agenda fascista em escala global nas últimas décadas, alertam para a atualidade da tese da Dialética do esclarecimento de Max Horkheimer e Theodor Adorno.
Não se pode crer que a “herança iluminista” verdadeira é apenas o potencial crítico de exercício da razão. Mas é possível buscar compreender como a experiência formativa intelectual que chancela a ciência e a experiência modernas continua a se degenerar em racionalidade técnica alienada a fins. Trata-se de perguntar não apenas sobre a genealogia e especificidades locais das “ideias críticas”, mas de como as ideias iluministas, paradoxalmente, contribuíram para o projeto de colonização, para a perpetuação de uma experiência universal de dominação, e não de liberdade.
Cabe ressaltar os elementos já mencionados que constituem a herança das luzes, segundo Antoine Lilti, na contemporaneidade. Falar nessa herança significa considerar os modos como as pessoas encaram suas existências a partir de certos princípios, formalizados pelas reflexões dos philosophes e pelas ações de outros agentes que incorporaram esses ideais, como os direitos humanos ou a ideia de cidadania, às lutas políticas.
O autor insiste na centralidade do reconhecimento jurídico dos direitos dos indivíduos, das dinâmicas conflitivas e resolutivas dos Estados nacionais e seus mecanismos institucionais, como a ONU, e da esfera pública. Esses são os aspectos que justificam o fenômeno da “atualidade do Iluminismo”. A atualidade das Luzes é resultado da transmissão de uma forma de ser e estar no mundo, portanto, de uma tradição, e do processo reflexivo de tomada de consciência crítica.
Sugere-se diversas vezes uma atualidade que opera sobre essa ambivalência, impossibilitada de se propor a unificar o processo de “transmissão” com o processo subjetivo reflexivo. Para tanto, seria preciso assumir-se dentro do legado moderno e suspender criticamente a tradição e suas contradições no questionamento de novas ideias e perspectivas de emancipação.
4.
Em A herança das luzes,o objetivo de Antoine Lilti é refletir sobre as ambivalências da experiência contemporânea: é preciso analisar e regular tanto o potencial emancipatório do exercício reflexivo quanto a herança das Luzes nas instituições e práticas sociais, garantindo o reconhecimento do indivíduo e de sua liberdade.
Antoine Lilti quer mostrar como o historiador, nesse contexto, tem um papel. Não se trata de “monumentalizar o Iluminismo, mas sim de lhe devolver sua atualidade crítica” (LILTI, p. 352). O historiador se torna uma espécie de mediador republicano, disposto a enfatizar a pluralidade das experiências e colaborar com a manutenção do espaço público, pois reduzir o Iluminismo “a uma fórmula intelectual simples” (LILTI, p. 352) seria fazer do Iluminismo um totem esvaído do seu sentido crítico original.
O sentido crítico do Iluminismo de Antoine Lilti não se pretende radical, mas reformista. Ele diz, na conclusão, que Iluminismo crítico e reformista não são coisas diferentes, e sim polos que assumem maior ou menor protagonismo, a depender do contexto em que as ideias estão circulando. Pode ser que o autor tenha razão, se a ideia de “ser crítico”, aqui, não representa a demanda por transformação completa das formas de ser e estar no mundo.
Escapa ao autor que, uma visão crítica e radical do legado Iluminista, ao tornar-se consciente de suas contradições internas, buscará refletir sobre as condições de possibilidade e limites do esclarecimento a partir de seus próprios princípios, com o intuito de compreender como pode vir a surgir, ou não, algo novo. É o que se propuseram a fazer Max Horkheimer e Theodor Adorno em sua Dialética do esclarecimento.
No entanto, ainda é preciso esclarecer diferenças de intuito entre Antoine Lilti e o projeto de Max Horkheimer e Theodor Adorno. Como já mencionado, Antoine Lilti almeja refletir sobre o papel do historiador diante das ambivalências das Luzes. Não é o intuito dos pensadores alemães falar sobre o papel do historiador.
Esses filósofos encaram o Iluminismo como um processo histórico e ideológico que, embora tenha representado a autoconsciência da humanidade, foi exitoso em tornar um modelo de racionalidade técnica alienada de seus princípios o padrão das instituições modernas, das relações de poder e da produção de conhecimento na sociedade global.
O ponto consiste em observar que esse êxito escapa ao controle racional individual, na medida em que é condição da individuação. As estruturas da racionalização seriam produto da forma historicamente determinada do capitalismo, tendo se tornado um aspecto transubjetivo da experiência humana à medida que essa forma social expandiu seu poder ao redor do mundo.
5.
Iluminismo, modernidade e sociedade civil-burguesa, para Max Horkheimer e Theodor Adorno, são conceitos indissociáveis, mas o último não aparece nas reflexões de Antoine Lilti. A ele, importa menos o fenômeno do capital como condição da unidade social global, e mais a esfera pública. Pode-se fazer um paralelo como ideia de “razão comunicativa” desenvolvida por Jürgen Habermas nos anos 1980, rompendo com a Teoria Crítica precedente e o marxismo.
Para Antoine Lilti, não se deve tratar o Iluminismo como um personagem que propôs e impôs uma “universalidade dominante” (LILTI, p. 37). É esse tipo de descrição que ele faz de projetos filosóficos que questionaram o significado e o sentido da ideia de Iluminismo no século passado. Creio que a visão de Antoine Lilti é equivocada para aplicar ao modo como Max Horkheimer e Theodor Adorno se indagaram sobre o esclarecimento.
Para Max Horkheimer e Theodor Adorno, deve-se considerar o aspecto emancipatório do Iluminismo do século XVIII, reconhecendo a centralidade do esclarecimento nos processos de desenvolvimento técnico e do pensamento crítico. Eles não negam abstratamente a técnica, mas expõem a relação intrínseca entre uso da técnica e ideologia. Deve-se considerar que a ciência e a técnica são incorporadas como aparelhos ideológicos que adquirem maior centralidade na sociedade após a crise de 1929 e a ascensão do modelo de capitalismo de Estado como nova forma de administração social.
No caso dos autores, fala-se não do papel do historiador, mas do papel da crítica da sociedade e das estruturas de reprodução das relações de poder e dominação. “É essa unidade de coletividade e dominação e não a universalidade social imediata, a solidariedade, que se sedimenta nas formas de pensamento” (ADORNO; HORKHEIMER, p. 31), relatam Max Horkheimer e Theodor Adorno em crítica à sociologia durkheiminiana.
Se ambos discutem o problema por prismas diferentes, o que possibilita uma reflexão que os unifique? Talvez, o prognóstico que os leitores podem e devem elaborar. Max Horkheimer e Theodor Adorno, diante da aporia entre subjetividade crítica e os processos de individuação reificados, deslocam a reflexão da teoria do conhecimento para a filosofia da história. Eles perguntam pelo sentido do presente, bem como pelos horizontes possíveis para o futuro.
Um pensador que, influenciado por esses autores, parece ter seguido pelo terreno da filosofia da história no século XXI, foi Paulo Arantes. Para o filósofo brasileiro, o “novo tempo do mundo”, ou a “era da emergência”, é caracterizada como momento de expectativas decrescentes, em oposição à concepção da Neue Zeit estudada por Reinhart Koselleck, na qual o futuro resguardava um superávit de expectativas.
Antoine Lilti, ao não assumir explicitamente o problema da constituição da subjetividade contemporânea e das condições transubjetivas de racionalização como aquilo que nos permite falar em “herança das Luzes”, desconsidera que, se há um “verdadeiro” legado do Iluminismo, um que não pode ser reduzido a uma bandeira; esse legado não é apenas crítico, mas, em última medida, também pode se tornar apologia da sociedade burguesa.
Cabe ao historiador remediar as tensões que se instauram no espaço público em torno da herança do Iluminismo, ou é possível à historiografia ir além? Penso que se pode ir além, na medida em que a prática historiográfica é impelida ao terreno da filosofia da história e à consideração do presente e das possibilidades de emancipação.
*Gabriela Malesuik Aragão Barros é doutoranda em história na Universidade de Brasília (UnB).
Referência

Antoine Lilti. A herança das luzes: ambivalências da modernidade. Tradução: Andrea Daher e Luiz Cesar de Sá. Niterói: Eduff, 2024, 408 págs.
Bibliografia
ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
ARANTES, P. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
HABERMAS, J. Teoria do agir comunicativo: racionalidade da ação e racionalidade social. Vol I. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.





















