Capitalismo, que capitalismo?

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Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO*

Superindústria: a forma histórica em que o capital subordina não apenas o trabalho, mas o próprio intelecto social

A questão da qualificação

Não faltam qualificativos para o capitalismo contemporâneo: pós-industrial (Alain Touraine), parasitário (Zygmunt Bauman), financeirizado (José Carlos de Souza Braga), pós-grande industrial (Ruy Fausto), cognitivo (Carlo Vercellone), 4.0 (Paulo Ghiraldelli), ecocida (Alain Bihr), superindustrial (Pierre Veltz) etc. etc. Aqui se examina o último citado e que veio à luz recentemente por meio do livro recém-publicado[i] de Fernando Haddad, professor no departamento de ciência política da USP.

Eis que causou algum espanto, talvez um choque: “Fernando Haddad” – protestou, por exemplo, Paulo Ghiraldelli –, para explicar o capitalismo atual, o chama estranhamente de “superindustrial”: “É difícil ver o mundo corporativo de hoje, campo das empresas atuais, ser coberto pelo nome de “indústria”, menos ainda de “super indústria”. (…) Ao fazê-lo, ele “não conferiu importância para algo que as narrativas atuais sobre nossos últimos anos têm insistido, que é a hegemonia da lógica do capital financeiro.[ii] Vivemos hoje sob a simbiose entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro (…).”.[iii]

Como essa opinião pode eventualmente ser bastante generalizada, esclareço de início o uso que Marx faz desse termo que está agora sendo objeto de polêmica. O objetivo central de sua obra maior, como bem se sabe, consiste em apresentar as formas reificadas da relação de capital e que, por isso, recebem normalmente o nome de “capital”. Assim, expõe basicamente quatro formas da relação de capital: capital industrial, capital comercial, capital portador de juros e capital fictício.

Quem leu O capital sabe, portanto, que ele usou o termo “indústria” em sentido amplo, incluindo aí todas as atividades econômicas que produzem mais-valor e que, assim, alimentam efetivamente a acumulação de capital. O processo de produção do capital industrial é exposto no Livro I e o processo de circulação do capital industrial é mostrado no Livro II. O Livro III trata do processo global da produção capitalista, da repartição do lucro obtido na esfera da produção de mercadorias em particular, de tal modo que só aí são apresentadas as outras três formas antes aludidas de capital.

Cito agora, de modo ainda preliminar, a justificativa dada pelo próprio Fernando Haddad para o uso que fez do termo “superindustrial”. Eis porque qualificou assim o capitalismo contemporâneo: “A rigor, toda empresa que contrata um contingente de profissionais para criar e inovar está promovendo o processo de aceleração que colocou o capitalismo em outro patamar, ao qual chamei de “capitalismo superindustrial” por várias razões: reafirma o caráter capitalista do atual modo de produção, enfatiza sua cultura industrial, expandida para todas as esferas da vida; agrega o prefixo “super” a “industrial” para, de um lado, distanciá-lo dos vertentes que, diante de dificuldades teóricas, valem-se do prefixo “pós” e, de outro, salientar a natureza da renda auferida a partir do desenvolvimento da propriedade intelectual [provinda que é] de um fluxo de superlucros”.[iv]

Para poder discutir melhor em sequência o uso aparentemente inusitado desse termo da perspectiva da tradição iniciada por Karl Marx creio que é preciso examinar como esse autor qualificou o capitalismo. Eis que ele o fez não tanto por suas diferentes fases históricas, mas pela forma assumida pela relação de capital, ou seja, pela forma da relação de produção mantida entre o capital e o trabalho assalariado em sentido amplo (incluindo-se, portanto, o trabalho aparentemente autônomo).

Manufatura e grande indústria

O capitalismo nasce, como se sabe, da decomposição do feudalismo. Para que pudesse existir o trabalhador livre, o livre vendedor de força de trabalho que não dispunha mais dos meios de produção, era preciso que o produtor direto não estivesse mais sendo aprisionado seja pelo julgo da servidão feudal seja pelo vínculo orgânico com as corporações de ofício. Na origem da relação de capital se encontra, pois, o processo de desapropriação por meio do qual o trabalhador é “libertado” das condições de seu trabalho. “A assim chamada acumulação primitiva é, portanto, nada mais do que o processo de separação entre produtor e meios de produção”.[v]

Ora, nessas duas formas pretéritas de relação de produção há ainda processo de trabalho, cujos elementos são o próprio trabalho, os meios de intervenção no objeto e o próprio objeto. Este último vem a ser a natureza bruta ou já transformada por trabalho anterior. Os meios são todas as coisas que os trabalhadores usam para trabalhar e que potenciam a força produtiva do trabalho.

Enquanto ainda prevalecem essas condições, os próprios trabalhadores são aqueles que ruminam o projeto e que realizam as operações que transformam os materiais à disposição deles em novos valores de uso. Antes de se tornarem coisas úteis, existiram de modo ideal na cabeça dos trabalhadores como construção subjetiva própria deles, ainda que provenientes também de uma tradição milenar.

A forma geral da relação de produção capitalista caracteriza-se sobretudo por suprimir o processo de trabalho como tal, por subordinar essa atividade muito própria do ser humano por meio de um processo de produção supercoordenador. Marx, como se sabe, caracterizou essa forma de subordinação historicamente específica, nascida no século XVI, como subsunção do trabalho ao capital. Trata-se, pois, de um aprisionamento que ocorre e só pode ocorrer por meio de um processo coletivo de trabalho em que a independência, a individualidade e a privacidade do trabalhador lhe são subtraídas. Dito de outro modo, a subsunção do trabalho ao capital veio negar o próprio processo de trabalho.[vi]

Como é bem sabido, Marx distingue três modos de produzir que apareceram no desenvolvimento do capitalismo industrial: a cooperação simples, a manufatura e a grande indústria. E ele os distinguiu pela forma como neles se dá a subsunção do trabalho ao capital. A primeira, diz ele no capítulo 11 do Livro I, “se apresenta (…) como necessidade histórica para transformação do processo de trabalho em um processo social”, que continua “predominante nos ramos de produção em que o capital opera em grande escala, sem que a divisão do trabalho ou maquinaria desempenhem papel significativo”.

Nesse caso, portanto, a subsunção do trabalho ao capital é estritamente formal”, ou seja, se faz apenas pelo contrato de trabalho. Mas se deve notar que já nessa forma primeira o projeto de produção não está mais no domínio do trabalhador, mas do capitalista.

“A cooperação baseada na divisão do trabalho” – diz Marx no capítulo 12 do Livro I – “adquire sua forma clássica na manufatura”. Aí, “trabalhadores de diversos ofícios autônomos (…) são reunidos em uma oficina sob o comando de um mesmo capitalista”. A sua característica central é, pois, a divisão do trabalho; nessa forma de produzir, cada trabalhador executa uma tarefa específica no processo produtivo que se inicia na matéria prima e acaba no produto finalizado. Se começa a existir historicamente como cooperação simples, torna-se logo cooperação segmentadora orgânica em seu próprio desenvolvimento, constituindo assim sistemas de produção “cujos órgãos são seres humanos”. A subsunção é ainda formal, mas não deixa de ser empobrecedora para os “seres humanos”: “composta ou simples, a execução continua artesanal e, portanto, dependente da força, habilidade, rapidez e segurança do trabalhador individual no manejo de seu instrumento”.

A subsunção do trabalho ao capital, como consequência da primeira revolução industrial ocorrida no ultimo terço do século XVIII, torna-se formal e real na grande indústria; a passagem da manufatura para a maquinofatura faz com que o trabalhador perca o domínio parcial que ainda tinha do processo de trabalho, pois agora a cooperação é organizada para fazer funcionar o sistema de máquinas. O “princípio subjetivo da divisão é suprimido na produção mecanizada; o processo global da produção é aqui considerado objetivamente (…) por meio da aplicação técnica da mecânica”.

Passa a vigorar, então, um princípio objetivo na produção capitalista. O controle do processo de trabalho é tirado do trabalhador porque ele próprio se torna parte do sistema de máquinas. Tem-se, pois, uma negação do processo de trabalho como tal. A ciência penetra no processo de produção para realizar a separação entre o trabalho e o seu fim imediato, assim como em relação ao modo de trabalhar.

Ademais, na manufatura, inicialmente, o capital incrementa a sua parte no valor da mercadoria aumentando o mais-valor absoluto. Na grande indústria, ele pode se valer sobretudo do aumento do mais-valor relativo, sem desprezar necessariamente o antigo método. O processo de produção é coletivo, está unificado pelo sistema de máquinas. O sistema de máquinas é encarado por Marx como forma do capital característico da produção industrial avançada e, como tal, está controlado pelo capitalista.

Se “manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica como grande autômato, ele serve às máquinas”; na primeira, “os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo”, mas na segunda, “há um mecanismo morto, independente deles, ao qual são incorporados como apêndices vivos”. E esse mecanismo é “em si e por si um grande autômato”.

Neste momento, não posso deixar de fazer comentário sobre o sistema econômico soviético que nunca coube na categoria capitalismo, mas estava fundado na acumulação primitiva de capital.[vii] Se no capitalismo, existe sempre uma pluralidade de capitais particulares em concorrência, no sistema soviético só existiu o capital estatal. Ora, mesmo não sendo capitalismo, o sistema soviético, mesmo exaltando Marx, recriou a grande indústria e levou ao extremo a subsunção real do trabalho ao capital. Oprimiu-se assim os trabalhadores falando em nome dos trabalhadores.

Pós-grande indústria/superindustria

Se a grande indústria vicejou por meio da competição sem constrangimentos até o último quartel do século XIX, a partir daí, passou a se desenvolver por meio de grandes empresas monopolistas, grosso modo até o terceiro quartel do século XX. Como a terceira revolução industrial, da informática e da comunicação, quando se observa uma tendência para o enredamento e automação total dos processos produtivos, ocorre uma transformação no modo de produzir que continua sendo capitalista. Para caracterizar a mudança, Ruy Fausto, por falta de uma alternativa melhor, sugeriu que poderia denominar o novo modo de produzir de pós-grande industrial.[viii]

Esse novo modo foi caracterizado por esse autor tendo por base uma seção dos Grundrisse (denominada Capital fixo e desenvolvimento das força produtivas da sociedade) em que o seu autor ousou pensar o evolver do capitalismo para além do que podia ser observado em meados do século XIX.

Segundo Marx, “à medida que a grande indústria se desenvolve, a criação da riqueza efetiva se torna menos dependente do tempo de trabalho e do quantum de trabalho utilizado, do que da força dos agentes que são postos em movimento durante o tempo de trabalho”.[ix]

Ora, que agentes são esses? São os conhecimentos científicos que existem, agora, como um todo, no que denominou “intelecto geral” (substrato que mora internet, dir-se-ia hoje), mas também que se infiltra na organização das empresas e nas cabeças dos trabalhadores em geral. Se na grande indústria a subsunção do trabalho ao capital para além de formal deve ser dita “material”, na pós-grande indústria ela ganha uma dimensão adicional, pois se torna também “intelectual”.

Na pós-grande indústria, segundo Ruy Fausto, há “a segunda negação do trabalho como princípio do processo produtivo”. Na anterior, o trabalho perde a determinação subjetiva e a máquina incorpora a ciência como tecnologia (o capital se apropria da ciência e cria autômatos). Na sucessiva, o trabalho ganha uma determinação subjetiva, mas não aquela artesanal que perdera, pois vem a ser constituída pela ciência dominadora de mundo, e que pode ser inscrita em algoritmos, avança agora até o estágio da inteligência artificial e da robotização e passa a mediar o processo social como um todo, espalhando e deixando nele a sua marca digital.

Em continuação do trecho acima citado dos Grundrisse, Marx diz: “Eles próprios [ou seja, os agentes] – a sua poderosa efetividade – por sua vez não tem mais nenhuma relação com o tempo de trabalho imediato que custa a sua produção, mas depende antes da situação geral da ciência, do progresso da tecnologia, ou da utilização das ciência na produção”. “A riqueza efetiva se manifesta (…) numa desproporção monstruosa entre o tempo de trabalho empregado e seu produto, assim como na desproporção qualitativa entre o trabalho reduzido a uma pura abstração e o poder do processo de produção que ele vigia”.

Fernando Haddad transcreve esse trecho em seu livro e, após tê-lo feito, justifica o uso do termo superindústria numa tentativa – bem-sucedida, penso – de substituir o termo que Ruy Fausto empregara em seu livro clássico em três tomos: Marx: lógica e política. Eis que a solução do filósofo uspiano lhe pareceu fraca porque se valia do prefixo “pós” que, como se sabe, indica apenas algo que vem depois. Para finalizar essa nota que não tem outra pretensão senão esclarecer, apresento em sequência a justifica que ele próprio dá pelo uso do termo superindústria.

“Ora, se assim é, o desenvolvimento da superindústria capitalista, definida aqui como aquela que incorpora a ciência como fator de produção, representa a negação do trabalho no interior do próprio sistema. É da ciência posta em movimento durante o tempo de produção, e não mais do tempo de trabalho socialmente necessário na produção, que a criação da riqueza efetiva depende cada vez mais. Entre outras consequências, na superindústria o “trabalho” portador do conhecimento científico não é mais trabalho simples potenciado. Se na grande indústria a redução do trabalho qualificado a trabalho simples já era complexa, ainda que se estabelecesse que a lei do valor antes exigia essa redução do que a pressupunha, na superindústria essa redução, dada a negação progressiva do trabalho como fundamento da riqueza, está excluída”.

Como se vê, Fernando Haddad expõe, na mesma linha desenvolvida antes por Ruy Fausto, uma reinterpretação do conteúdo do famoso trecho dos Grundrisse em que Marx tenta prever o futuro do modo de produção capitalista a partir de suas leis tendenciais de movimento. E essa reinterpretação não é mecânica, mas está nutrida pela discussão como toda uma tradição de estudiosos, assim como pelo saber histórico sobre o desenvolvimento real e complexo desse modo de produção ao longo dos séculos XIX, XX e XXI.

Junto com Leda Paulani e eu mesmo, ele é herdeiro de uma tradição uspiana iniciada por um dos melhores interpretes em termos mundiais do legado do filósofo da práxis e que melhor compreendeu cientificamente o capitalismo. Mas isso não significa que cada um concorda necessariamente com os outros em geral. De qualquer modo a superindústria encontra-se caracterizada nessa tradição pela subsunção intelectual do trabalho ao capital.

Talvez valha completar dando uma opinião: se o socialismo ainda tiver uma chance, ele terá de ser verdadeiramente democrático porque, entre outras razões, a democracia que dá voz e poder decisão à base da sociedade parece ser a única forma de governo capaz de contrariar a potência subordinadora – e alienante – da ciência e da tecnologia quando ela está a serviço da acumulação de capital.

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Complexidade e práxis (Plêiade).

Notas


[i] Haddad, Fernando. Capitalismo superindustrial – caminhos diversos, destino comum. Zahar, 2026.

[ii] O termo capital financeiro aqui está sendo no seu sentido comum e não sentido que lhe deu Hilferding em seu livro clássico: “fusão do capital industrial com o capital monetário”. Hilferding, Rudolf – O capital financeiro. Nova cultural, 1985.

[iii] Ghiraldelli, Paulo – O livro de Fernando Haddad. A terra é redonda: https://aterraeredonda.com.br/o-livro-de-fernando-haddad/.

[iv] Como se sabe, a “renda da terra”, exposta no Livro III de O capital, também provém de lucros extras; por isso, vem a ser uma categoria do capitalismo e não do feudalismo. A economia política francesa denominou originalmente de “rentista” o proprietário que se ausentava da produção e que vivia da renda da terra. Atualmente, esse termo é usado para se referir aos recebedores de juros, de rendas de propriedade intelectual, de alugueis em geral, assim como de renda da terra.

[v] Marx, Karl – O capital – Crítica da economia política. Livro I. Abril Cultural, 1983, capítulo 24, seção primeira, O segredo da acumulação primitiva.

[vi] Ver Prado, Eleutério F. S. – Desmedida do valor – Crítica da pós-grande indústria. Xamã, 2005, especialmente o capítulo Pós-grande indústria e neoliberalismo.

[vii] Haddad, Fernando – O sistema soviético – Relato de uma polêmica. Scritta Editorial, 1992.

[viii] Fausto, Ruy – Marx: lógica e política – Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética. Tomo III. Editora 34. 2002.

[ix] Marx, Karl – Grundrisse – Manuscritos econômicos de 1857-1858, Esboços da crítica da economia política. Boitempo, 2011.

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