Por EMILIANO JOSÉ*
A história se repete: a mesma engrenagem que financiou a direita antes de 1964 atua hoje, transformando ajuda em arma política e diplomacia em terrorismo de Estado
1.
“Certas épocas são feitas para dizimar os rebanhos, confundir as línguas e dispersar as tribos”. O comentário de Esteban, personagem de O século das Luzes, notável romance de Alejo Carpentier, saltou à minha frente, como conseguisse traduzir esse tempo. Não cultivo nenhuma nostalgia de tempos perdidos, nem reminiscências paradisíacas. O mundo sempre foi turbulento.
Mas, é inegável: vivemos época especialmente conturbada, marcada pelos perigos de um império em óbvia decadência, e por isso perigoso, porque disposto a tudo para tentar manter o domínio das fatias sob o poder dele, aquelas sobre as quais ele acredita ter direito, e um direito advindo de doutrinas antigas, antes mesmo de se tornar nação nitidamente imperialista.
Não importa, para tal império, nesse esforço para preservar territórios, tenha de desrespeitar todas as regras civilizatórias, todo o direito internacional, a autodeterminação dos povos, a soberania das nações. Nada disso constitui obstáculo na caminhada do imperialismo.
Vale-se do terrorismo sem qualquer pudor. Não há limites: é com essa máxima o jogo dos EUA. Agiu assim na ação contra a Venezuela, no sequestro do presidente da República daquele país, Nicolás Maduro, e da mulher dele, Cilia Flores.
Quase uma repetição da prisão de Manuel Noriega, no Panamá, quando aquele país foi invadido por tropas norte-americanas, e prenderam o então presidente, julgado e condenado nos EUA. Na Venezuela, foi ação mais rápida, talvez pelo temor de uma resistência maior. A sondar, a partir daqui, os movimentos do império, em meio à confusão de línguas.
Nós, nessa série, a partir dos documentários dirigidos por Bob Fernandes, falávamos de ações do imperialismo voltadas ao trabalho da conquista de corações e mentes. E de repente, somos assaltados por um atentado dessa natureza, a subverter toda a estrutura legal internacional, evidenciar a incapacidade do mundo de punir atos como o ordenado por Donald Trump.
Evidente: todo o trabalho dos defensores do neoliberalismo, mais recentemente, ou o anterior, como o do IBAD ou Ipês, no Brasil, cuja ação estava voltada à defesa do capital nos moldes do velho imperialismo, estava também voltado a subsidiar golpes. Agora, no entanto, Donald Trump resolveu voltar à política do Big Stick, sem mediações, ao menos em relação à América Latina, colocando em prática uma nova e ampliada e violenta versão da doutrina Monroe, de 1823.
2.
Donald Trump sequer procura falar manso, como faria Theodore Roosevelt, levando nas mãos um grande porrete – Roosevelt foi o protagonista daquela política. O atual presidente norte-americano leva logo o porrete à frente, como fez no caso da Venezuela.
Encostou uma força militar impressionante nas costas venezuelanas, matou centenas de pescadores, e depois executou o ato terrorista, até agora pouco elucidado quanto ao planejamento e quando ao número de vítimas, estimados em pelo menos 80 até por jornais estadunidenses, com mais de 30 cubanos mortos, a verdadeira segurança do presidente venezuelano. Um ato de pirataria, como define o jornalista Jânio de Freitas.
Evidente: chegar a isso, à possibilidade do ato terrorista implicou em muita movimentação das agências norte-americanas, envolvendo a CIA e tantos institutos liberais, nas campanhas milionárias de desqualificação do projeto bolivariano, desde que Hugo Chávez chegou ao poder, em 1999.
O terreno foi devidamente adubado até o império ter a chance, pelas mais variadas razões, inclusive as originárias do quadro geopolítico mundial e particularmente em decorrência do avanço da extrema-direita na própria América Latina. Donald Trump resolveu dar o passo – recado curto e grosso, a deixar toda a América Latina em sobressalto. Os institutos liberais, nesse momento, seguem o trabalho deles, enquanto as bombas caem.
Peço desculpas por essa introdução, provocada pelo acontecimento trágico e singular, e ingresso agora no eixo desse quarto capítulo dessa série – toda ela voltada a repercutir a importância do documentário de Bob Fernandes, ao qual o leitor, leitora pode recorrer no YouTube.
Bob Fernandes dedicou-se a entrevistar doutorandos, voltados ao estudo de relações internacionais, de modo especial, ao trabalho sistemático de agências norte-americanas e afiliadas, institutos autodenominados liberais mundo afora, empenhados em influenciar corações e mentes e dar sustentação ideológico-cultural à implantação de regimes políticos fundados na perspectiva neoliberal.
Acompanhar tal trabalho, sobretudo, a partir dos anos 2010, preocupado em dar um basta ao avanço da esquerda e dos progressistas na América Latina, naquela fase protagonistas da assim chamada primeira “Onda Rosa”, caracterizada pela ascensão de governos como os de Hugo Chávez, Lula, Nestor Kirchner, Evo Morales, Michele Bachelet e Tabaré Vásquez, todos avessos ao neoliberalismo.
3.
Nesta quarta parte, vamos acompanhar Bob Fernandes ao entrevistar a professora Camila Fakes Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Camila Vidal, na entrevista, procura entender, não a ação direta do imperialismo, evidente no sequestro de Nicolás Maduro e de Cilia Flores, mas especialmente o trabalho sutil, às vezes invisível, das forças do capital monopolista, das agências dedicadas a tal tarefa.
Esse é o dia a dia do imperialismo, trabalho que jamais cessa, de importância decisiva para o projeto de dominação. O esforço dela e dos alunos orientados por ela é jogar luzes sobre a atividade dos chamados institutos liberais, devotados à afirmação do neoliberalismo.
Desmascará-los, evidenciar a natureza político-ideológica deles, desmistificá-los, mostrar a serviço de quem estão, eliminar qualquer inocência no trabalho deles, revelar uma espécie de antessala de golpes, mostrar a responsabilidade de tais institutos nas tantas e violentas mudanças de regime na América Latina, mostrar as mãos manchadas de sangue de tais organizações.
Camila Vidal começa a entrevista citando a professora Utsa Patnaik, uma economista marxista indiana. Utsa Patnaik deu aulas no Centro de Estudos Econômicos e Planejamento da Escola de Ciências Sociais da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi, de 1973 até 2010, quando se aposentou. Para ela, a chamada invisibilidade do imperialismo não revela fraqueza dele, mas força. É na invisibilidade a conquista de hegemonia e a preparação do domínio através de golpes.
Daqui, dessa visão, ela parte, então para discutir a USAID. Volto: tal invisibilidade está sob questionamento, nesse momento, com a política de Donald Trump. Não resisto e me recordo de minha militância estudantil em 1968, onde a agência, USAID, era por nós citada o tempo todo, como veículo essencial para a privatização do ensino brasileiro – todos nós, da época, lembramos das passeatas com palavras de ordem contra o Acordo MEC-USAID. Se olhamos o quadro do ensino superior no Brasil de hoje, 80% controlado pela iniciativa privada, se verá o quanto estávamos certos ao reagir à intromissão da agência na vida brasileira.
Se vamos às fontes oficiais, aos releases, veremos tratar-se de agência fundada em 1961 por John Kennedy, e tem a tarefa de administrar a maior parte do dinheiro reservado às ONGs e institutos de variada natureza voltados à afirmação dos interesses do capital norte-americano, e cuja atuação chegaria a mais de 100 países. Criada, a USAID, como lembra Camila Vidal, tendo a América Latina como foco central.
Richard Nixon havia passado pelo continente, não havia sido bem recebido, carro depredado, saiu quase fugido de Caracas, exatamente de Caracas, e ele, ao voltar para os EUA, evidenciou preocupação. Constatou o óbvio: a existência de um sentimento norte-americano na região. Defendeu a necessidade de alguma reação.
Veio, então, a Aliança para o Progresso, a ser organizada, levada à frente pela USAID. Tinha o nítido objetivo, nas palavras de então, nunca abandonadas, de combater o comunismo, um espectro a perseguir o mundo sob o capital desde 1848, ao menos segundo a inesquecível abertura do “Manifesto Comunista”: “Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo”, diziam aqueles dois perigosos comunistas, Marx e Engels.
A USAID teria, assim, o sagrado papel de exorcizar aquele demônio, tarefa a que se dedica até os dias atuais, trabalho arrefecido com o ataque desferido contra a agência pelo atual presidente norte-americano, talvez considerando não estivesse atuando como deveria, ou não fosse tão apropriada para a política a ser seguida por ele, muito mais força bruta.
4.
A Aliança para o Progresso não surge em 1961 por obra do acaso. Pouco antes, janeiro de 1959, havia acontecido um terremoto político nas barbas do império norte-americano, a Revolução Cubana. Não foi apenas porque Nixon foi mal recebido em Caracas. Era uma decisão muito mais extensa, uma nova política.
Conter o avanço do comunismo, e por comunismo devia ser entendida qualquer iniciativa reformista na América Latina. A Aliança para o Progresso foi alavanca essencial de políticos e governos de direita em toda a América Latina, sendo instrumento fundamental da Guerra Fria.
Naquele período, início dos anos 1960, cumprirá papel essencial no financiamento e apoio de políticos de direita no Brasil, como Carlos Lacerda, Adhemar de Barros e Magalhães Pinto, e terá, junto com IBAD e Ipês, importância decisiva no golpe de 1964, na derrubada do presidente João Goulart. A ditadura nascida com o golpe se estenderá por mais de duas décadas – um período de terror e de sangue.
A professora lembra trabalho do professor Felipe Loureiro, colega dela, do Instituto Nacional de Estudos sobre EUA. Ao desenvolver pesquisas em Washington, ele localizou critérios da Aliança para o Progresso e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) voltados a beneficiar, no Brasil, os adversários do governo de João Goulart. Felipe Loureiro demonstra, a partir de dados de insuspeitos arquivos norte-americanos, como a ajuda não tinha nada a ver com carências dessa ou daquela região, mas com a opção político-ideológica dos beneficiários.
Na pesquisa sobre percentuais de ajuda entre 1961-1964 ao Brasil, listados os políticos beneficiados, no topo da lista está, e não por acaso, Carlos Lacerda, do então Estado da Guanabara, contemplado com 41% dos recursos, seguido por Magalhães Pinto, 11%, Adhemar de Barros e Cid Sampaio, com 9%. Na rabeira, com percentuais entre 4% e 2%, vamos encontrar Lomanto Júnior, Carvalho Pinto, Juracy Magalhães, Ney Braga, entre outros.
O estado da Guanabara, do qual Lacerda era o governador, para detalhar, recebeu 26,9% dos empréstimos do BID – US$ 35 milhões – e quase 60% dos recursos da USAID – quase US$ 20 milhões. E isso para um território, conforme lembrado por Loureiro, ocupado por 5% da população brasileira. Seria assim, fossem reais os critérios de ajuda a regiões mais pobres como alardeado pela Aliança para o Progresso, um dos estamos menos apropriados para receber ajuda.
As conclusões do pesquisador estão no livro A Aliança para o Progresso e o governo João Goulart: a ajuda econômica norte-americana a estados brasileiros e a desestabilização da democracia no Brasil pós-guerra”, publicado pela Editora Unesp, essencial para compreender a política norte-americana de intervenção na América Latina.
A USAID cumpre, assim, um papel histórico fundamental, o de defender os interesses da potência imperialista, de modo especial, das empresas monopolistas com atividades no Brasil, e também os interesses das classes dominantes locais, vinculadas ao império norte-americano.
Camila Vidal, na entrevista a Bob Fernandes, lembra atuação da USAID na Bolívia, sob governo de Evo Morales, entre 2012 e 2013, de onde a agência foi expulsa porque se intrometia na política local, ou seja, persistia nas articulações contra Evo Morales, na tentativa de desgastá-lo, de influenciar no sentido de colocar a população contra ele.
Na análise da política norte-americana, a professora lembra a construção ideológico-cultural do eixo do mal, constituído, desde algum tempo, por Venezuela, Nicarágua e evidentemente, a partir de 1959, Cuba.
A USAID trabalha no continente com esse olhar, e desenvolve a política do estabelecimento de “condições de comércio justas e recíprocas para as empresas dos EUA” – e isso na verdade quer dizer abrir caminho para a atividade dos monopólios norte-americanos, criar as condições favoráveis para mais e mais exploração. Garantir as veias abertas da América Latina, bem abertas, não importando quanto sangue venha a jorrar, como de fato jorrou e como jorra.
*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA) [https://amzn.to/46i5Oxb]
Para acessar a primeira parte dessa série, clique em https://aterraeredonda.com.br/agencias-norte-americanas-e-a-difusao-do-neoliberalismo/
Para acessar a segunda parte dessa série, clique em https://aterraeredonda.com.br/agencias-norte-americanas-e-a-difusao-do-neoliberalismo-parte-2/
Para acessar a terceira parte dessa série, clique em https://aterraeredonda.com.br/agencias-norte-americanas-e-a-ascensao-do-neoliberalismo-parte-3/






















