Ataque ao Irã

Imagem: Stepan Severinoff
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Por GILBERTO MARINGONI*

O ataque ao Irã não busca conquistar, mas decapitar: mostrar força para esconder a fragilidade da hegemonia que se perde

1.

O ataque estadunidense-israelense ao Irã, com o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, seus familiares e dezenas de inocentes deve ser chamado pelo nome: ato terrorista. Nem o jornal New York Times, em editorial, vê justificativa crível para o ataque. Mas é preciso tentar entender o roteiro do imperial, sem declaração formal de guerra, autorização do Congresso ou da ONU. Há lógica no caos.

É pouco provável que a Casa Branca planeje uma guerra de verdade contra o Irã, com desembarque de tropas, ocupação territorial e derrubada do regime. Uma iniciativa dessas pode resultar num atoleiro prolongado, que resultará em inevitáveis baixas em suas próprias tropas e previsível desgaste interno. Possivelmente a blitzkrieg deste sábado (28) tenha proximidade com a incursão na Venezuela, em 3 de janeiro, apesar das diferenças entre os países.

Decepa-se o governo, elimina-se sua liderança e coloca-se a faca no pescoço dos sobreviventes, até lhes dobrar a espinha. Se a hipótese for correta, não será preciso mudar o regime, mas torna-lo vassalo. O problema é que o Irã não é o país caribenho e o governo, apesar da recente onda de protestos, goza de real legitimidade popular.

Donald Trump busca frear a queda de hegemonia de seu país, através do uso desmesurado da força bruta, diante da perda de sua liderança moral no mundo. O republicano jamais poderia repetir as palavras de Harry Truman, quando inaugurou no a Guerra Fria, no discurso perante o Congresso, em 12 de março de 1947: “Acredito que deve ser política dos Estados (…) ajudar os povos livres a trilharem seus próprios destinos à sua própria maneira”.

Hoje a frase seria motivo de chacota, a não ser para a extrema direita. Ninguém sério no planeta acredita que os EUA queiram “ajudar povos livres” a trilharem o que quer que seja. A agressiva política tarifária, o sequestro de Nicolás Maduro, o estrangulamento de Cuba e a barbárie desatada sobre o Irã não visam apoiar ninguém, a não ser exibir ao mundo a musculatura bélica da potência dominante, que defende unicamente seus interesses.

Há um efeito-demonstração na conduta externa de Washington e sua tática de abrir variadas frentes de conflito para propagar invencibilidade no ringue global. Nos casos de Venezuela e Irã, há um objetivo maior: bloquear os dois dos maiores fornecedores de petróleo à China, a inimiga central de Washington.

2.

Apesar de tudo, Donald Trump busca aliados ou pelo menos neutralidade em sua área de influência. Seu caminho é tortuoso e tem na chantagem ou pressão explícita sua pedra de toque. É o que se viu no desempenho do vice-presidente J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2025, três semanas após a posse. Sem rodeios e de forma crua, J. D.Vance colocou em dúvida o compromisso democrático dos tradicionais aliados.

Em acintoso discurso, foi direto: “O que me preocupa é a ameaça interna, o afastamento da Europa de alguns de seus valores mais fundamentais – valores compartilhados com os Estados Unidos da América. (…) A Europa enfrenta muitos desafios, mas a crise que este continente enfrenta neste momento, a crise que acredito que todos enfrentamos juntos, foi criada por nós mesmos”.

O representante de Washington reclamou explicitamente de tentativas de se isolar a extrema direita em vários países. Em seguida, alertou que seu governo não garantiria mais recursos militares aos aliados: “É importante que, nos próximos anos, a Europa intensifique seus esforços para garantir sua própria defesa”. A intervenção foi vista como prenúncio do rompimento de pactos firmados no pós-Guerra. A receptividade da plateia, composta por membros de todos os governos do continente, foi de estupefação.

A tensão aumentou ao longo do ano, quando Donald Trump deu curso à sua política tarifária. Em agosto, os Estados Unidos e a União Europeia assinaram um acordo comercial, definindo taxas de 15% sobre a maioria dos produtos europeus. Em troca, o continente comprometeu-se a eliminar as tarifas sobre produtos industriais do parceiro, a comprar US$ 750 bilhões em gás, petróleo e energia nuclear, além de investir US$ 600 bilhões nos EUA pelos três anos seguintes. As arestas só aumentaram quando o presidente americano avançou nos argumentos para se apossar da Groenlândia.

Exatamente um ano depois da incendiária intervenção de Vance, o papel de bombeiro coube a Marco Rubio, na edição seguinte da mesma Conferência de Segurança, em Munique. Ao contrário do vicepresidente, o secretário de Estado foi cheio de mesuras para um continente prostrado e destratado pela Casa Branca.

Marco Rubio expôs uma visão enviesada de História, exaltou o colonialismo, a união do Velho Mundo com a nascente América branca (1776), ignorou negros e povos originários, atacou a luta anticolonial no século XX, vomitou um anticomunismo tosco e, num tom abertamente racista e investiu contra a imigração. “Os Estados Unidos e a Europa pertencem um ao outro”, afirmou, numa quase declaração de amor. Foi várias vezes interrompido por aplausos entusiasmados.

3.

Além dos ziguezagues diplomáticos, Donald Trump deu curso à constituição de seu Conselho de Paz para Gaza. Apesar das mesuras em Munique, a Europa Ocidental não embarcou na articulação, que conta com a participação de 27 países, a maior parte de reduzido peso global. Entre eles estão Albânia, Argentina, Egito, Hungria, El Salvador, Indonésia, Paquistão, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Vietnã.

Uma semana depois de reunir seu Conselho, Donald Trump pronunciou o tradicional Discurso do estado da União, em 25 de fevereiro. Ao longo de 1 hora e 48 minutos, o republicano exaltou feitos na economia interna e vangloriou-se das iniciativas militares e econômicas contra Venezuela e Cuba e prometeu atacar o Irã. Os argumentos passaram longe de nobres promessas como as de Harry Truman. Os pretextos de agora são o narcotráfico, ameaças à segurança dos EUA e outras meias-verdades.

Com dificuldades para convencer potenciais aliados, Donald Trump busca, acima de tudo, criar um violento efeito-demonstração. Não há nobres causas ou elevada moralidade a defender. Tudo é direto, escancarado e explícito, o que dispensa a necessidade de se dourar pílulas. A Casa Branca demonstra força, ao mesmo tempo que vê se reduzir sua capacidade de convencimento. Exemplos são as cautelosas e ambíguas notas da maioria dos países europeus sobre a incursão no Irã.

Se o conceito de hegemonia resulta da combinação de coerção e consenso, como sublinhava Gramsci, a equação dos partidários do Make America Great Again (MAGA) se mostra falha. Pode parecer paradoxal falar em perda de hegemonia diante do formidável poder destrutivo do Império. Um sinal adicional dessas turbulências com possíveis aliados é o paulatino abandono do dólar em transações internacionais e na composição de reservas cambiais de vários Estados. Embora ainda não significativa, vislumbra-se uma perda de credibilidade da moeda global, pilar central do poder americano, algo já acusado por Donald Trump e propagado por cambiantes aliados europeus.

Não há país do mundo capaz de se equiparar ao poder de fogo dos Estados Unidos, até aqui. Nem China e nem Rússia tomam posições práticas diante da escalada bélica. Limitam-se a lançar notas de protesto de quando em quando.

Há descontentamentos domésticos, contudo. Em pesquisa da CNN/ SRRS, divulgada em 22 de fevereiro, Donald Trump aparece com aprovação de 36%, numa queda de 12 pontos em um ano. Apesar da inflação se mostrar baixa – 2,7% em dezembro de 2025, segundo o U.S. Bureau of Labor Statistics – altas expressivas ao longo do ano passado em produtos como carne, suco de laranja e café, pautadas pela alta das tarifas, atingiram o humor dos consumidores. O país vive um processo de concentração de renda e crescentes conflitos sociais.

O que ameaça colocar algum freio na ofensiva da extrema-direita estadunidense são as eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 4 de novembro. Se a insatisfação interna continuar, Donald Trump pode perder a estreita maioria republicana de 53 X 47 assentos no Senado e de 220 a 213 na câmara. Como nos tempos da guerra do Vietnã, a política externa poderá ter no front doméstico um obstáculo sério.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

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