As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Acabou, Bolsonaro

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

O ex-capitão servia bem aos propósitos de destruição do “sistema”, isto é, do regime inaugurado com a Constituição de 1988, que buscou  juntar democracia política com diminuição da desigualdade social.

Por Bernardo Ricupero*

No dia 16 de março, um dia depois de Jair Bolsonaro confraternizar com seus apoiadores numa manifestação contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente foi surpreendido pela observação: “acabou, Bolsonaro”.

O espanto deve ter sido maior em razão dela ter sido proferida no “cercadinho” do Palácio do Alvorada, espaço onde os admiradores do capitão reformado costumam se concentrar para encontrá-lo no fim do dia, ocasião em que também aproveita para hostilizar os jornalistas ali presentes. Talvez o assombro do primeiro mandatário tenha sido maior já que a advertência foi feita por um negro, ao passo que os frequentadores do local normalmente são brancos e de classe média. Além de tudo, falava com sotaque, aparentemente haitiano, o que permitiu a Bolsonaro esquivar-se, alegando não entender suas palavras.

Chama a atenção a data da observação do haitiano anônimo. No dia 16 de março, o novo coronavírus começava a aparecer no Brasil; ainda não se tinha anunciado nenhuma morte, 236 pessoas estando então infectadas. Uma das manchetes da Folha de São Paulo do dia até observava: “Prevendo quarentena, paulistanos lotam cafés, bares e restaurantes”.

Duas semanas depois – quando já eram 165 os mortos e 4661 os infectados pelo coronavírus no país – a esquerda, finalmente, decidiu ecoar o haitiano anônimo. O manifesto, assinado pelos presidenciáveis Fernando Haddad, Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Flávio Dino, pelos presidentes do PT, PDT, PSB, PC do B, PSOL e PCB e outros dirigentes do campo progressista, basicamente repete a afirmação feita no “cercadinho” do Palácio do Planalto: “acabou, Bolsonaro”.

Ou seja, aponta que o presidente é hoje o principal obstáculo no Brasil para o combate da maior pandemia dos últimos cem anos. Pena que uma iniciativa como esta não tenha vindo antes, mais especificamente, entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2018. Muitos sabiam então que Bolsonaro tinha um enorme potencial de destruição, mas ninguém imaginava que poderia ser o responsável pela morte de tantas pessoas.

É verdade que sempre se pode dizer: melhor tarde do que nunca. Também é possível argumentar que a necessidade de se contrapor a Bolsonaro não era tão evidente há um ano e meio. Até porque muitos dos motivos responsáveis agora pelo fim de fato de seu governo foram os mesmos que contribuíram para a sua eleição. Entre essas razões, encontra-se o “estilo”, ou melhor, “falta de estilo” do capitão reformado, o que não é um fator menor em se tratando de um admirador confesso do cel. Brilhante Ustra.

Sinal disso é que para caracterizar os vinte e oito anos de Bolsonaro como deputado é preciso recorrer a termos como violência, grosseria, desrespeito, misoginia, etc. Por outro lado, essas “qualidades” fizeram com que aos olhos de um setor considerável do eleitorado o obscuro parlamentar pelo Rio de Janeiro se diferenciasse de outros políticos. Como todos eles seriam “comunistas”, “corruptos” ou simplesmente parte do “sistema”, abriu-se caminho para que se convertesse em “mito”.

Bolsonaro servia especialmente bem aos propósitos de destruição do “sistema”, isto é, do regime inaugurado com a Constituição de 1988, que buscou, capengamente, juntar democracia política com diminuição da desigualdade social. Liberais estavam prontos a apoiar, de maneira envergonhada ou não, a obra de demolição, já que consideravam esgotado o contrato social da redemocratização. A mídia logo embarcou numa espécie de mantra, repetido à exaustão, de acordo com o qual, o gasto fiscal seria excessivo e tornariam imprescindíveis as “reformas”.

Em compensação, o que se chama de calamidade natural evidenciou o preço dessa obra de aniquilamento político. Prova disso é a inoperância do ministro da Economia, Paulo Guedes, em adotar medidas que aliviem a situação dos mais vulneráveis à pandemia, supostamente aterrorizado pela possibilidade de ser acusado de não cumprir a “regra de ouro” do Orçamento. O contraste é gritante com os EUA, onde um pacote de mais 2 trilhões de dólares foi rapidamente aprovado devido a um acordo bipartidário.

Em compensação, o mais importante instrumento que o Brasil conta para enfrentar o coronavírus é talvez a principal criação da Constituição de 1988: o Sistema Único de Saúde (SUS). Não por acaso, nossos doentes serão tratados na sua ampla maioria no maior sistema de saúde pública do planeta.

Em termos mais profundos, o avanço mundial, nos últimos quarenta anos, do neoliberalismo ajudou a solapar as bases de solidariedade social, tornando-nos mais vulneráveis a uma pandemia como o coronavírus. Esse processo se deu paralelamente à criação do arremedo de Estado de bem estar social brasileiro, os dois desenvolvimentos entrando em conflito e, por vezes, até se confundindo. Mais recentemente, vivemos a uberização do trabalho, em que supostos empreendedores ficam praticamente sem qualquer proteção social.

O mundo e o Brasil depois da coronavírus não podem mais ser os mesmos. Em sintonia com a urgência da situação, no Congresso se ensaiam movimentos de aproximação da esquerda e do centro para o enfrentamento da pandemia. Deve-se ir além e mirar diretamente o principal obstáculo para a ação da saúde pública: o presidente da República. No entanto, o capitão reformado é apenas a expressão de uma orientação mais ampla. E como percebeu o haitiano anônimo: “acabou, Bolsonaro”.

*Bernardo Ricúpero é professor do Departamento de Ciência Política da USP.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Francisco de Oliveira Barros Júnior Leonardo Avritzer João Sette Whitaker Ferreira Samuel Kilsztajn Paulo Sérgio Pinheiro Ricardo Abramovay Atilio A. Boron Rafael R. Ioris João Lanari Bo Francisco Pereira de Farias Jorge Branco Maria Rita Kehl Denilson Cordeiro Vladimir Safatle Flávio R. Kothe Dennis Oliveira Marilia Pacheco Fiorillo Heraldo Campos Michael Roberts Luiz Eduardo Soares Luis Felipe Miguel Vinício Carrilho Martinez Luiz Costa Lima Tales Ab'Sáber Marcelo Módolo Henri Acselrad Airton Paschoa Walnice Nogueira Galvão Luiz Werneck Vianna Annateresa Fabris João Carlos Salles Luiz Carlos Bresser-Pereira José Raimundo Trindade Bruno Machado Priscila Figueiredo Berenice Bento Alexandre de Lima Castro Tranjan Salem Nasser Luiz Roberto Alves Sandra Bitencourt Eliziário Andrade José Costa Júnior Bruno Fabricio Alcebino da Silva André Márcio Neves Soares Gilberto Maringoni Chico Alencar Elias Jabbour Eugênio Trivinho Leda Maria Paulani Daniel Costa Tarso Genro Ronald León Núñez Érico Andrade João Feres Júnior Carlos Tautz Anselm Jappe Mário Maestri Anderson Alves Esteves Gilberto Lopes Antonio Martins Eleutério F. S. Prado Ronaldo Tadeu de Souza Armando Boito Paulo Capel Narvai Afrânio Catani Manuel Domingos Neto Antônio Sales Rios Neto André Singer Marcelo Guimarães Lima Alysson Leandro Mascaro Lincoln Secco Luís Fernando Vitagliano Slavoj Žižek Bento Prado Jr. Manchetômetro Fernando Nogueira da Costa Igor Felippe Santos Everaldo de Oliveira Andrade Tadeu Valadares Ladislau Dowbor Yuri Martins-Fontes Marjorie C. Marona Milton Pinheiro Rubens Pinto Lyra Mariarosaria Fabris Paulo Nogueira Batista Jr Bernardo Ricupero Michael Löwy Thomas Piketty Paulo Martins Daniel Brazil Boaventura de Sousa Santos Flávio Aguiar Fábio Konder Comparato Remy José Fontana Plínio de Arruda Sampaio Jr. Ari Marcelo Solon Jorge Luiz Souto Maior Valerio Arcary Luciano Nascimento Luiz Bernardo Pericás Andrew Korybko Rodrigo de Faria Gabriel Cohn Gerson Almeida Roberto Bueno Lucas Fiaschetti Estevez Alexandre de Freitas Barbosa Osvaldo Coggiola Antonino Infranca Liszt Vieira Celso Frederico Kátia Gerab Baggio Sergio Amadeu da Silveira Marcos Silva Henry Burnett Luiz Renato Martins Renato Dagnino Vanderlei Tenório José Micaelson Lacerda Morais José Geraldo Couto Ricardo Musse Leonardo Boff Carla Teixeira José Dirceu Otaviano Helene Ronald Rocha Marcus Ianoni João Paulo Ayub Fonseca Alexandre Aragão de Albuquerque José Luís Fiori Julian Rodrigues Leonardo Sacramento Lorenzo Vitral José Machado Moita Neto Eugênio Bucci Marilena Chauí Daniel Afonso da Silva Eleonora Albano Luiz Marques João Carlos Loebens Celso Favaretto Paulo Fernandes Silveira Benicio Viero Schmidt Eduardo Borges Claudio Katz João Adolfo Hansen Fernão Pessoa Ramos Ricardo Fabbrini Ricardo Antunes Jean Pierre Chauvin Juarez Guimarães Valério Arcary Chico Whitaker Francisco Fernandes Ladeira Jean Marc Von Der Weid Marcos Aurélio da Silva Dênis de Moraes Caio Bugiato Roberto Noritomi

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada