Comentando a conjuntura

Imagem: ColeraAlegria

Por TADEU VALADARES*

Notas a partir do noticiário veiculado de 19 a 24 de maio.

A CPI do Senado

Nesse período, o tema mais explorado, tanto pela grande imprensa quanto pela mídia alternativa, foi o trabalho da CPI do Senado, criada para apurar as responsabilidades do governo pelo completo fracasso da absurda estratégia adotada para ‘combater’ a pandemia. Ao longo da semana que passou, o presidente, o ex-chanceler Araújo e o ex-ministro da Saúde, general Pazuello, viram suas imagens irreversivelmente desgastadas perante a opinião pública. Os dois ex-ministros, politicamente destruídos. Bolsonaro, politicamente enfraquecido.

As análises da mídia se revelaram convergentes, seu tom em geral crítico ou muito crítico da estratégia bolsonaresca da qual  já resultaram mais de 450 mil mortes, número que deverá alcançar algo em torno de 800 mil, até o fim do ano.

Para uma parte da mídia, o desgaste sofrido pelo capitão é de tal ordem que no limite chega a colocar em risco a continuidade de seu mandato. Nessa leitura, o beco sem saída no qual obtusamente se meteu o governo tornaria afinal viável a concretização, antes de que se inicie oficialmente a campanha eleitoral de 2022, da palavra de ordem “Fora Bolsonaro”.  Ou seja, a hipótese de sua  ejeção antecipada da chefia do poder executivo poderia se tornar realidade efetiva em prazo relativamente curto.

Para outros analistas, entretanto, apesar de todo o descalabro construído em mais de dois anos de governo, desastre agravado pelo tratamento dado à pandemia, o admirador de Ustra ainda disporia de suficiente apoio de massa, algo que giraria, momento, em torno de 20% a 25% do eleitorado, o tamanho do gado fiel. Esse percentual, se mais ou menos mantido ao longo de todo este ano, somado à falta de mobilizações populares gigantescas e ao caráter entre conservador e reacionário da maioria dos integrantes do congresso, seria suficiente para que o capitão continuasse à frente do governo. Isso confirmado, Bolsonaro estaria em condições de se lançar candidato ao segundo mandato, o projeto ainda dotado de certo grau de viabilidade. Tendo esse quadro em mente, e mantidas as tendências atuais, o cenário prospectivo mais forte continuaria a apontar para eventual segundo turno a ser disputado por Lula e Bolsonaro.

Perspectivas eleitorais

Ainda no que respeita à eleição presidencial, todas as pesquisas mais recentes indicam a continuação de ao menos três tendências:

1) a do crescimento, de início bem mais rápido do que inicialmente esperado, da pré-candidatura de Lula. Se essa dinâmica continuar, Lula teria condições de até mesmo ganhar a eleição no primeiro turno.

2) em contrapartida à ascensão de Lula, o lento enfraquecimento do extremista de direita é dado como altamente provável. O piso de sua força eleitoral pode vir a se estabilizar, antes do início da campanha eleitoral, abaixo do que é hoje, vale dizer, no máximo em algo beirando os 20% das intenções de voto. Ainda que fortemente especulativas, avaliações desse tipo iluminam as dificuldades crescentes com que o extremista passou a se defrontar desde março passado, mas também sustentam que Bolsonaro terá condições, por corroído que venha a se revelar seu apelo eleitoral em março vindouro, de chegar ao segundo turno. Nesse cenário, disputaria  a presidência com o candidato petista, mas em situação de marcada desvantagem.

3) a terceira tendência que se observa, simples consequência das anteriores. Se a polarização Lula versus Bolsonaro se cristalizar, e tudo hoje indica que assim será, a ‘terceira via’, a opção preferencial da alta burguesia brasileira e de seus aliados internos e externos, tende a morrer pelo caminho.

O quadro acima esboçado ganhou força com a notícia, circulada em 21 do corrente, de que Lula se encontrara  dias antes com FHC na residência de Nelson Jobim para almoço a três, O prato forte haveria sido troca de ideias sobre como superar a crise da democracia brasileira. As reações de Bolsonaro, Aécio e Ciro dizem quão significativo foi o evento que jornalistas apressados logo classificaram como histórico.

Se o diálogo entre os dois ex-presidentes prosseguir, por mais que o tucano tente matizar seus termos após cada encontro, no plano eleitoral o resultado líquido deverá levar a novos ganhos de Lula diante de Bolsonaro, e a mais óbices para a decolagem da “terceria via”. Nisso, os grandes perdedores seriam os embolados da ‘terceira via’ e o aloprado ocupante do Palácio do Planalto.

As reações da direita e da extrema direita ao encontro entre os dois ex-presidentes não surpreenderam. Como também não surpreenderam as preocupações manifestadas por uma parte da esquerda crítica, preocupada com o que veem como a adoção, pelo Partido dos Trabalhadores, de uma estratégia no mínimo insuficiente,  mas ainda assim arriscada, posto que se limitaria à atuar em termos de  calendário eleitoral, sobretudo ao buscar maximizar – com a celebração dos acordos possíveis com o centro combalido, e mesmo com as forças de centro-direita, bem mais atuantes –  as chances de vitória na eleição presidencial vindoura. O objetivo é crucial, todos proclamam, mas não poderia ser o único, pensam os dissidentes. Advertem os críticos: alijar do executivo o neofascismo ou o autoritarismo atualizado, como se queira classificar o fenômeno encarnado por Bolsonaro e seus seguidores, não pode ser dissociado da luta contra o neoliberalismo, seja ele extremista, com Guedes, ou menos virulento, como na essência propõe os economistas do “establishment”  que se apresentam, de uns tempos para cá, como reformadores iluministas.

A esquerda que chamo dissidente percebeu, no informado sobre o almoço, um  silêncio que falou alto: nenhuma referência, no cardápio democrático e nem mesmo dias depois de finda a reunião de Lula com FHC, ao outro desafio, este certamente de caráter estrutural, que ronda a esquerda, não como fantasma mas com o peso da realidade cotidiana.

Caso se possa considerar Bolsonaro e o bolsonarismo um mal temporário, monstruosidade que dá para exorcizar pelo voto e pela luta ideológica, ainda assim haverá que, vitorioso Lula em 2022, recuperar a economia e a sociedade dos efeitos destrutivos do neoliberalismo que se assenhoreou ostensivamente do poder do estado desde o governo Temer. Bater eleitoralmente o neofascismo e continuar na batalha civilizatória para reduzi-lo a suas proporções reais (não esqueçamos que Plinio Salgado, em sua última peleja eleitoral conseguiu 8% dos votos, o que  já é muito), sem criar desde já as alianças que permitam fazer retroceder o neoliberalismo não é um caminho para gerar, mais além de 2022, uma espécie de volta não aos bons tempos idealizados, mas sim à crise que, iniciada em 2013, levou ao que levou em 2016?

Eduardo Pazuello

Para completar o quadro conjuntural, tornando-o ainda mais complexo e instável em termos estritamente políticos, fomos surpreendidos por acontecimento de todo inantecipável: a participação de Pazuello, general da ativa, em manifestação realizada no Rio de Janeiro, passeata de motociclistas na qual desfilou o próprio Bolsonaro. Do risco calculado, assumido pelo capitão e pelo general, resultou a instauração de nova e ainda mais grave crise entre o presidente, por um lado, e o Ministro da Defesa e o Alto Comando do Exército, por outro. Não será de estranhar que desse conflito entre Bolsonaro e o exército, a instituição que em última instância é o principal fiador do governo extremista tanto no político quanto no econômico, resultem mais fissuras no arco de forças que apoiam o capitão. Esse cenário, se confirmado ao longo do tempo, a um só tempo debilitará Bolsonaro e  beneficiará Lula, ainda que marginalmente.

No plano externo

No plano externo, anotações curtas sobre três temas.

No plano econômico, o crescimento chinês e a recuperação dos EUA diminuem o peso da crise econômica que, recordemos, vem desde 2007/2008 mas foi turbinada pela pandemia. Dessa melhoria, o setor exportador brasileiro pode auferir ganhos ainda maiores, em especial o agronegócio. Bons números em matéria de intercâmbio comercial decerto serão utilizados em defesa da politica econômica do governo;

Na esfera militar, a quarta guerra de Israel contra os palestinos –  os 11 dias em que as forças armadas israelenses exerceram descomunal violência contra a população sitiada de  Gaza –  indicou a ferro e fogo que a política de Biden para o Oriente Médio é diferente da política de Trump tão somente em termos retóricos.  Ou seja, embora no plano interno as diferenças entre Trump e Biden e os conflitos entre a média dos congressistas republicanos e a média do democratas sejam significativos, o mesmo não ocorre em termos de política externa. No tabuleiro geopolítico, as convergências entre os dois partidos, sobretudo centradas no financiamento da máquina de guerra estadunidense e na compulsão a intervir, continuam a prevalecer sobre as discordâncias tópicas, especialmente as relacionadas com a Rússia e a China, por intensas que se revelem no dia a dia da gestão do império. Isso nos remete ao terceiro tema, às dificuldades que o governo Biden começa a enfrentar para levar avante o  projeto que a grande mídia vem chamando, simplificadamente, de uma volta a Roosevelt e ao New Deal.

Os obstáculos que os republicanos estão criando para Biden, tanto no congresso quanto fora dele, revelam, sob a capa do otimismo ainda predominante, gerado pela derrota de Trump, que nada de seguro pode ser dito, hoje, sobre o sucesso ou o fracasso do novo governo e de seu projeto de ‘aggiornamento’. A polarização interna aos EUA é tão intensa quanto a nossa, e talvez até mesmo mais perigosa. Por isso mesmo haverá que aguardar as eleições de meio período, a serem realizadas quase no final do ano que vem, para se saber se o partido democrata e Biden conseguirão forjar uma nova e mais favorável relação de forças na Câmara de Representantes, onde o partido democrata conta com frágil maioria, e principalmente no Senado, onde a diferença se resume a o voto da Minerva Kamala.

Daqui para diante, e até as eleições de 2022, conflitos encarniçados marcarão o dia a dia do congresso dos Estados Unidos, seu vetor final sendo de momento imprevisível. Em outras palavras, só o balanço dos resultados concretos a serem alcançados pelo executivo até o final do ano que vem, no tocante à agenda de governo, juntamente com os votos do eleitorado, que hoje continua a favorecer os democratas, é que esclarecerão em definitivo se, na segunda metade de seu mandato, Biden terá condições efetivas para levar avante o projeto de reforma do capitalismo americano numa linha, sim, que tem algo de ‘rooseveltiana’, ou ao menos se distancia fortemente do consenso estabelecido por Reagan e Clinton.

*Tadeu Valadares é embaixador aposentado,