A construção dos noticiários

Tim Mara, O palco e a televisão hoje, 1975

Por LUIZ MARQUES*

Os noticiários informam, mas também constroem uma interpretação que justifica as convenções de dominação e subordinação

Falácias reiteradas nos noticiários forjaram o antipetismo e o antilulismo. O Partido dos Trabalhadores e Lula são a pedra no caminho da “nova razão do mundo”, na ótica do livre mercado e dos mecanismos de exclusão societal. Os noticiários se legitimam com a imparcialidade dos significantes (fatos tangíveis), mas agregam um significado (subjetivo) àqueles para reforçar uma determinada cosmovisão político-ideológica.

No caso dos demais partidos, erros particulares nunca foram relacionados à qualificação de “organização criminosa”, como no fantasioso PowerPoint da Lava Jato, reatualizado pelo candidato do PSDB na derrota para Dilma Rousseff, no pleito de 2014, em que questionou o resultado das urnas eletrônicas. Coube ao playboy começar a novela, que teve prosseguimento com o bad boy. A pecha reaflorou em resposta à quarta eleição consecutiva da esquerda à Presidência da República, desde 2002, com o projeto de um Estado de Bem-Estar Social.

Era o registro da insatisfação das “elites” que enxergam o país na condição de um entreposto comercial, para atender as ambições das potências estrangeiras. Por rezar por uma outra cartilha, em busca dos ideais de uma autêntica nação, se diz que o PT plantou o antipetismo e, Lula, regou o antilulismo. A burguesia brasileira, com o habitus de práticas que recendem o escravagismo e o autoritarismo, defende o quadro de desigualdades que vem do período colonial ao neoliberal. Não tem compromissos com o povo. Daí o lawfare contra os progressistas que lutam por mudanças.

 

Manual do usuário

Alain de Botton, em Notícias: manual do usuário (Intrínseca), faz uma fenomenologia dos noticiários, os quais “sabem tornar sua mecânica quase invisível e, portanto, difícil de questionar”. Não apenas informam, como constroem uma interpretação que justifique as convenções de dominação / subordinação. Com a hegemonia do racionalismo e da ciência, a religião perdeu o monopólio da consciência dos indivíduos. Com o primado das notícias, o desencantamento penetrou na mente e no coração de cada um. Tudo ficou contabilmente racional, ao alcance de silogismos sem os grilhões das divindades, feito imanências libertas de transcendências, pela gramática da modernidade. “Uma vez concluída a educação formal, o noticiário é quem passa a nos ensinar”.

Os novos recursos tecnológicos são incorporados pelas megacorporações de comunicação / informação. Apesar da crise dos aportes tradicionais de midiatização, visíveis na perda de audiência do Jornal Nacional com o advento das redes virtuais, os noticiários ainda têm importante papel na percepção das massas. Agem como princípios organizadores, qual demiurgos da sociedade de mercado. Para Hegel, sinalizam a modernização dos centros urbanos, na passagem que conferiu às aldeias o estatuto de cidades em desenvolvimento. Filmes captam o fenômeno com imagens, ao mostrar a TV ligada de manhã com informações do clima, do tráfego e acontecimentos do dia. Nenhum governante deixa de assistir. Ao fim e ao cabo, é o que pauta os debates parlamentares no Legislativo, atiça o Ministério Público e pontua a avaliação do Executivo, para cima ou para baixo.

O rol de notícias, que pinta com cores assustadoras a paisagem exterior ao anunciar ciclones, assaltos, deslizamento na encosta dos morros, tragédias, balas perdidas e achadas em inocentes – por contraste desperta a sensação de segurança, no ambiente doméstico. Prevalece a indiferença e a apatia que empurra o medo para fora do “lar, doce lar”, embora com frequência o domicílio seja palco de feminicídios e violência contra as crianças. A alienação é a privatização da existência, então é estimulada indiretamente. Telenovelas jamais trazem personagens com militância social ou política e preocupações republicanas, para além do umbigo. O “engajamento” para mudar o mundo, valorizado na teoria e na prática por Jean-Paul Sartre, é sempre exposto com uma desconfiança.

A palavra “militante” aparece de forma pejorativa, em matérias que descrevem as mobilizações populares, nas ruas. Aglomerações verde-amarelas da classe média contra o Supremo Tribunal Federal (STF), porém, são fofos instantâneos de civismo de “cidadãos de bem”. A rigor, são usinas de zumbis. Bolhas totalitárias e fanatizadas pela intolerância antidemocrática, impulsionadas por um roto simulacro de participação ativa nos assuntos da cidade, da região e do país. No cotidiano, turbinadas por programas televisivos de policiais armados contra os moradores das periferias, traficantes ou não. Sobram comunicadores para explorar a miséria humana reproduzida na tela.

Com transmissão ao vivo, o Batalhão de Operações Especiais (Bope/RJ) é o cartão de visitas do empreendedorismo do terror, que primeiro mata e depois pergunta, com o emblemático símbolo da caveira dos SS (Schutzstaffel / Esquadrões de Proteção), de Hitler. Essa metáfora comunicacional em ação equivale à organização da sociedade real, com a supremacia de homens devidamente protegidos – brancos, proprietários, heterossexuais, misóginos e afeitos ao mando patronal. A perversidade está em que o Bope treina negros / pardos para o arrastão de eugenia sociopolítica, enquanto milícias eliminam as bravas vozes da civilização perante a barbárie do capital, em uma metrópole ou na floresta. Um escândalo encobre outro, sem responsabilizar autores e mentores.

 

Mídia corporativa

A estratégia de encenação da mídia não consiste na censura. Envolve “o empenho de confundir, entediar e distrair a maioria, afastando-a da vida política ao apresentar acontecimentos de maneira tão desorganizada, fragmentária e intermitente que o povo não é capaz de fixar a atenção no desenrolar das questões mais importantes”. Por suposto, o objetivo é atirar areia nos olhos dos espectadores. Na esteira do velho guerreiro pop, Chacrinha, impede a hierarquização sobre a relevância dos temas. Com o expediente, desativa o potencial de contestação dos noticiários. Se normas hierárquicas de informação fossem obedecidas, ao invés de transgredidas, contribuiriam para um melhor convívio e a elevação da autoconsciência histórica da nação. Para o que a mídia deveria deixar de fazer o espetáculo da democracia, para assumir a salvaguarda da democracia.

Note-se o que ocorreu nas oitivas da Comissão Parlamentar de Inquérito, da pandemia. O relatório final dos trabalhos comprometeu na corrupção o mandatário do governo e o ministro da Saúde, conforme o depoimento de funcionários de carreira. Mas as provas foram desconstruídas pelos deputados e senadores negacionistas, dado o cansaço com a cobertura. As emissoras que cobriram a CPI não se debruçaram sobre as conclusões para montar as diversas peças do mosaico, de um jeito que fosse compreensível para quem labutou na informalidade durante horas seguidas, em pé. A Procuradoria Geral da República (PGR) fez de conta que não era de sua alçada meter a colher.

Não houve Globo Repórter, ou coisa parecida, para traduzir os apontamentos e descomplicar os estratagemas diversionistas do poder. Propinas viraram narrativas. O governo tergiversou que “o circo não deu em nada porque não havia improbidade administrativa, nas ações governamentais”. Não basta noticiar, tem que decodificar a significação dos delitos que afrontam o Erário público. Sem isso, o noticiado é fachada para a manipulação, não para o esclarecimento de qualquer coisa. Se mais não se fez, foi para não movimentar o moinho em prol dos adversários do establishment.

Já as notícias econômicas vinculam-se à necessidade de informações de mercado pelos bancos, empresas de corretagem e casas de comércio. Não surpreende que os cabos transoceânicos lançados entre os Estados Unidos e o Reino Unido, em meados do século 19, tenham sido financiados em conjunto por financistas e empresas de notícias (tipo a Reuters), para divulgar a demanda de uma certa commodity / mercadoria, se está aumentando ou diminuindo em tal lugar do planeta. Business.

A reportagem de economia está voltada para os investidores. Entende-se que os jornalistas da área se coloquem de acordo com a dolarização dos combustíveis: “o controle de preços geraria um efeito bumerangue com o tempo, por isso não deve ser praticado”. Repetem o argumento cínico dos investidores, no automático, como se a cobiça de meia-dúzia pudesse se sobrepor aos interesses nacionais. O que era para ser jornalismo se converte em instrumento de propaganda das finanças. Sobre a inflação, aconselha “comparar o preço dos produtos nos supermercados”. O importante é que as estruturas do sistema não se configurem em alvo generalizado de críticas anticapitalistas.

 

Algo acontece no Brasil

Alain de Botton, em momento algum, faz referência à democratização dos meios de comunicação. Ignora a propriedade cruzada de jornais, rádios, TVs, plataformas digitais, editoras, gravadoras etc., que ameaçam a liberdade dos consumidores de notícias com a presença dos grandes oligopólios. Na América Latina, é um problema incontornável. Não poderia ser diferente: cinco famílias dominam a opinião publicizada em um território continental. Dominam e, em momentos cruciais da história, manipulam para influir nos destinos da pátria, como na edição do debate às vésperas do segundo turno das eleições de 1989, entre o metalúrgico do ABC paulista e o “caçador de marajás”, de Alagoas. Ou nas vistas grossas às contínuas ilegalidades processuais e materiais que corromperam o Judiciário, com o conluio entre o juiz e os procuradores de Curitiba, no fatídico ano de 2018.

Alain de Botton tampouco denuncia a censura da atividade jornalística, no interior das empresas, que leva profissionais a mentirem para si próprios ao afiançar que não estão sujeitos a vetos no exercício de compartilhar / interpretar. Affaires criminelles também vão para a gaveta entre os anglo-saxões, no hemisfério Norte. As sugestões de “aperfeiçoamentos”, que faz nos últimos capítulos do livro, são platitudes acompanhadas da indicação de “abordagens teóricas inteligentes e viáveis”. Nas vitrines pós-modernas de exposição dos objetos de desejo para o consumo, sublinhe-se sobretudo o rótulo de “viáveis”, em si uma restrição de caráter político-ideológico às abordagens alternativas como a economia solidária, as feiras ecológicas e as ofertas que problematizam a ditadura das marcas.

A reflexão do escritor suiço retrata a engrenagem dos noticiários. É competente no que se propõe, não obstante, insuficiente. Precisa ser complementada com a leitura de Patrick Charaudeau, em Discurso das mídias (Contexto), que tem o mérito de analisar: (a) a dimensão econômica que faz com que os organismos comunicacionais ajam como empresas e (b) a dimensão simbólica que faz com que participem da construção da opinião publicizada em opinião pública, hoje, com o auxílio de algoritmos, etc. Segue as pegadas de Pierre Bourdieu, “que fez uma dissecação da informação televisionada, para demonstrar os efeitos nefastos das mídias na globalização telecrática”.

Eventualmente, o que é premeditado é desmascarado no ar, a exemplo da entrevista convocada pelas autoridades oficiais para falar sobre os heróis da Amazônia, assassinados, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Na extensa mesa oficial, que tinha representantes da Marinha, do Exército, da Aeronáutica, da Polícia Federal e da Funai, os principais responsáveis pelo desvendamento da chacina não estavam presentes: justamente os indígenas. A fotografia constituiu, involuntariamente, a prova do terrível descaso com os povos originários pelo Estado brasileiro.

Notícias: manual do usuário é um ensaio útil aos jovens que se preparam para atuar no campo das comunicações, em suas mil inflexões. Compõe a bibliografia, instiga a curiosidade intelectual e o pensamento. Ninguém está obrigado a imitar a postura dramática de Henry David Thoreau, em Walden (1854), onde o formulador da noção de “desobediência civil” descreveu a vida longe dos burburinhos das grandes cidades, habitando sozinho uma cabana construída com as próprias mãos, em um bosque. “A julgar por alguém que raramente dá uma olhada nos jornais, nada de novo acontece em terras estrangeiras, nem mesmo uma Revolução Francesa”. Algo acontece no Brasil, sim, a campanha para a esquerda vencer no primeiro turno, com uma ducha no neofascismo.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.