Por JOÃO GABRIEL DO NASCIMENTO PIRES*
A linguagem é uma ponte entre o finito e o infinito, transformando o indizível em símbolos compreensíveis, onde ausência e presença se entrelaçam
O ensaio investiga como representar o irrepresentável, tomando como exemplo o Deus da tradição judaico-cristã. A partir da teoria do signo de Saussure e dos aportes da semiótica literária, discute-se como a linguagem, por meio de signos, metáforas e isotopias, constrói pontes entre o mundo sensível e o transcendente. Mostra-se que o significante “Deus” mantém forma fixa, mas carrega significados múltiplos e variáveis, sempre mediados por códigos culturais e históricos.
A metáfora e a iconografia permitem materializar o divino em imagens e símbolos, como o fogo, o cordeiro (Agnus Dei), a pomba ou a figura humana de Cristo, que encarna a projeção do Pai. Assim, a representação do irrepresentável não é um reflexo da essência divina, mas um processo contínuo de significação, no qual a ausência e a presença se entrelaçam, revelando que toda tentativa de “dizer o indizível” é, ao mesmo tempo, aproximação e criação simbólica.
Introdução
Desde o princípio dos tempos discutir e representar o que é irrepresentável, é palco para muitas áreas de estudo. Podemos pensar em grandes áreas gerais para discutir o objeto, como: Filosofia, estudos exatos como Física e Matemática, as Artes, sobretudo a Arte sacra, que por sua vez não ficam fora desta temática. Assim, os estudos linguísticos–literários não poderiam ficar de fora desse assunto.
Diante disso, o presente trabalho roga ao que é mais irrepresentável nos campos de estudos. Deus, o Deus da tradição Judaíco-Cristã, para exemplificar e contemplar as teorias que aqui serão apresentadas. Sinal o que é Deus? Se buscarmos definição do que é Deus no dicionário, podemos até encontrar uma definição mais geral sobre o que é Deus, como mostra o Dicionário Soares Amora:
“Deus: sm 1. Entidade suprema que detém poder e controle sobre os homens e a natureza; divindade; 2. segundo as religiões monoteístas, o espírito infinito criador e preservador do universo. P/ deuses. Fem/ deusa.” (Amora, 2009, p. 225)
Entretanto, o que o dicionário nos traz é uma definição, um conceito, e não uma representação do mesmo. Assim buscando trazer uma explicação para representar o irrepresentável, buscamos aqui mobilizar a teoria do signo, conforme proposta por Saussure, e também os aportes da semiótica, a partir de teóricos como Kristeva em seu material “Introdução à semanálise” e Bertrand no texto “Caminhos da Semiótica literária” a fim de fundamentar e expandir nossa reflexão sobre o irrepresentável.
O signo e o irrepresentável
Muitas vezes, quando pensamos em algo irrepresentável, recorremos a um nome, seja um substantivo próprio, comum, abstrato ou concreto, ou ainda a uma alegoria, por meio de imagens, metáforas e outros recursos simbólicos, para tentar representar esse indizível. Esse nome, ao ser enunciado, evoca quase imediatamente em nossa mente uma imagem do que desejamos retratar. A essa relação entre nome e imagem chamaremos, a partir de agora, de signo, mais precisamente Signo Linguístico, conforme formulado nos estudos de Ferdinand de Saussure.
Para Ferdinand de Saussure, o signo é uma entidade psíquica que não se limita à palavra isolada, mas compreende a articulação entre um conceito e uma imagem acústica. Dessa forma, o signo linguístico não se caracteriza pelo som material, entendido como uma realidade física, mas pela impressão psíquica que esse som provoca, ou seja, pela representação sensorial que remete a um sentido. É apenas nesse aspecto sensorial que poderíamos chamar essa imagem de “material”, já que o conceito, em si, é totalmente abstrato.

Segundo Ferdinand de Saussure, o signo é definido como a união entre um conceito e uma imagem acústica. Esses dois elementos podem se confundir, pois ao perguntar “o que é algo”, a resposta pode evocar tanto a imagem sonora que o representa, quanto o conceito que lhe está associado.
Diante disso, tomaremos Deus como um signo, a fim de montar um corpus para o trabalho, e diante de tal tomada podemos nos perguntar: o que poderia ser mais irrepresentável ou menos material do que a figura de um “Deus”, tão presente em nosso imaginário e nas práticas sociais contemporâneas? Tomaremos, então, essa figura divina como exemplo para o presente trabalho, buscando explicar o irrepresentável.
No caso de Deus, a linguagem recorre a signos – palavras, imagens, metáforas – para apontar, sugerir ou evocar uma presença que escapa à experiência sensível e à apreensão direta. O signo linguístico, composto de significante (a forma sonora ou gráfica / imagem acústica) e significado (a ideia / conceito), atua como um mediador entre o mundo sensível e o mundo da abstração. Quando usamos a palavra “Deus”, o significante é fixo, mas o significado é fluido, múltiplo, indeterminado, variável a depender do contexto social que nos localizamos. Assim, ele não remete a um referente concreto, mas a uma construção simbólica que varia conforme cultura, crença, tempo e experiência.
Diante do processo, o significante se torna um invólucro para o vazio do indizível. O signo não representa Deus como essência ou como ser absoluto, mas representa a tentativa humana de nomear o que ultrapassa os limites do sensível e da razão. É uma aproximação, não uma equivalência. O signo aponta para uma ausência, e é nessa ausência que reside sua força simbólica. Assim, na teoria do signo, Deus é representado não como algo que se revela plenamente, mas como algo que se busca nomear mesmo sem conter.
A linguagem cria uma ponte entre o finito (a palavra) e o infinito (o irrepresentável), buscando representar o que é irrepresentável através de um viés linguístico. Logo, podemos tomar os seguintes diagramas para exemplificar o contextualizado.
Metáforas e iconográfica do irrepresentável
Na fala cotidiana, é frequente recorrermos a figuras de linguagem para expressar aquilo que escapa ao alcance das palavras mais simples e literais. Entre elas, a metáfora ocupa lugar central: ela converte o que não é em algo que é, transpondo significados e permitindo que o abstrato ganhe forma concreta — transformando, por exemplo, X em Y. Ao dizer “o amor é fogo”, sabemos que o amor não é literalmente uma chama, mas compreendemos a imagem por meio das sensações que o sentimento provoca: calor, intensidade, ardor, perigo.
De modo análogo, na análise visual, a iconografia identifica e descreve os elementos figurativos presentes em uma imagem — personagens, objetos, gestos, símbolos — que, assim como as metáforas no discurso, traduzem ideias abstratas em signos reconhecíveis. Assim, metáfora e iconografia se encontram como processos de representação: uma, no campo verbal, projeta conceitos intangíveis em imagens linguísticas; a outra, no campo visual, decodifica imagens materiais como chaves para significados culturais e simbólicos.
Como por exemplo o trecho da Bíblia Cristã: “A vinda do Espírito Santo. Quando chegou o dia de Pentecostes, eles se achavam reunidos todos juntos. De repente, veio do céu um ruído como de um violento vendaval que encheu toda casa onde eles estavam; então lhes apareceu algo como línguas de fogo, que se repartiram e pousou sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e puseram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia exprimirem-se” (A Bíblia, 1996, p.1341).
O trecho citado acima, trata do um pedaço do episódio após morte de Cristo, em que os apóstolos se encontravam em oração aguardando respostas para continuar o seu trabalho, iniciado pelo Divino e foram agraciados pela presença deste. Desta forma, podemos caracterizar que Deus, embora não fogo, foi ali representado assim, como um fogo que desceu sobre eles. Assim, fica nítido explicar as sensações do Deus (irrepresentável), de forma representável, sobre uma personificação do fogo.
Outro ponto é a representação visual que a área permite compor, em que o exemplo deixa claro que estavam em uma casa, e tinham a experiência de passar por um vendaval, deixando ainda mais verossímil para uma experiência humana. Ainda mais, podemos aqui citar o que o linguista Reddy (2000), A “Metáfora do Conduto” (conduit metaphor) é um modelo teórico que compreende a comunicação linguística como um processo de transferência de ideias.
Nela, o falante/escritor insere seus pensamentos (os objetos) em palavras (os recipientes) e envia esse pacote por um canal (a fala ou o texto) até o ouvinte/leitor, cabendo a este extrair as ideias originais dos recipientes linguísticos para compreendê-las.
Podemos constatar tal fato no exemplo: Em que o Espírito Santo desce dos seus, e se materializa dentro dos apóstolos os enchendo do Espírito Divino e fazendo eles de recipientes para a presença de Deus. Partindo disso, podemos caracterizar que por vezes Deus (o irrepresentável por excelência) é tratado e representado pelo princípio da iconográfica e metáfora, o que torna possível identificar representações morfológicas do irrepresentável, como Deus figurado no fogo, na imagem do cordeiro (Agnus Dei), na forma de peixes ou mesmo sob a representação de pombas.
Irrepresentável e narrativas semióticas
Ao refletir sobre os desafios de representar aquilo que, por essência, escapa à representação como a ideia de Deus, é inevitável recorrer às ferramentas da linguagem. A semiótica linguística, especialmente a partir das contribuições de Ferdinand de Saussure, oferece uma perspectiva fundamental para essa discussão. Segundo essa teoria, o signo linguístico não tem uma relação direta e natural com a realidade; ele é produto de uma convenção entre um significante e um significado.
Assim, ao pensarmos na tentativa de representar o irrepresentável, como a divindade, nos deparamos com os limites e as potências do signo. A linguagem não reflete o real de forma imediata, mas o interpreta, o recorta e o reconstrói a partir de códigos culturais e históricos. Dessa forma, mesmo no caso de conceitos abstratos e transcendentais, como Deus, a linguagem ainda que limitada se mostra como o meio pelo qual buscamos atribuir sentido àquilo que não se deixa capturar plenamente.
Como o referente é inatingível, a linguagem recorre ao uso de metáforas, metonímias, alegorias, e construções mitológicas ou teológicas para preencher essa ausência, haja visto que o objeto de pesquisa é um ser de presença faltosa. O irrepresentável, assim, não é negado, mas recriado continuamente pela linguagem como um campo de sentido aberto, em que a ausência do objeto real é substituída por cadeias significantes que tentam estabilizar um conteúdo inatingível. Representar Deus, na perspectiva linguística e literária é criar uma superfície de sentido que organiza o invisível em termos compreensíveis, mesmo que provisórios e múltiplos.
Deste modo, recorremos à semiótica materializada no conceito de isotopia, em que o conceito se materializa nas comunicações entre as palavras, fazendo com elas tenham uma unidade e façam sentidos entre elas e produzam significados.
Tomemos como exemplo A Bíblia, que nos dá um exemplo empírico para tal fato: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança, e que ele submeta os peixes do nosso mar, os pássaros de nosso céu, os animais grandes e toda a terra e todos os animais pequenos que rastejam sobre a terra!’
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea.” (A Bíblia, 1996, p.12). “Quanto ao homem, não deve pôr véu na cabeça: ele é a imagem e a glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem” (A Bíblia, 1996, p.1411).
Ao pegarmos o primeiro trecho citado: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança…’”, nesse contexto conseguimos visualizar na repetição das palavras “Deus”, “imagem”, “semelhança” e “homem” estabelece um campo de sentido. Essas palavras se conectam para formar a ideia de que o ser humano foi criado por Deus e carrega uma parte de Deus sua essência e aparência física.
Logo, ao pensarmos em homem enquanto signo, conseguimos produzir e elaborar um significante (imagem acústica) do divino, o que gera uma imagem mórfica para Deus, o deixando representável. No segundo trecho, a isotopia continua. As palavras “homem”, “imagem” e “glória de Deus” repetem a mesma ideia de que o homem é um reflexo do divino. A inclusão da “mulher” no trecho também se conecta a essa rede de sentido, mesmo que de uma forma diferente, ao ser apresentada como a “glória do homem”. Assim, podemos afirmar que certas representações do irrepresentável podem ser materializadas através do conceito.
Ao mesmo passo, que buscamos representar Deus na figura de homem, através da imagem e semelhança. Podemos materializar na figura de Jesus Cristo, uma vez que a bíblia cristã discorre que o mesmo encarnou e habitou entre nós. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória; glória essa que, Filho único cheio de graça e de verdade, ele tem a parte do Pai” (A Bíblia, 1996, p.1307). Portanto podemos fazer uma humanização do ser divino inatingível, imensurável, irrepresentável e transformá-lo em uma figura atingível, mensurável e por vezes até representável, pois segundo um viés religioso, segundo o discurso bíblico como nos mostra os versos: “Jesus lhe disse: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim. Se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes’. Filipe lhe disse: ‘Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta’. Jesus lhe disse: ‘Eu estou convosco há tanto tempo, e entretanto, Filipe, não me reconheceste? Aquele que me viu, viu o Pai. Por que dizes: ‘Mostra-nos o Pai?’ Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, eu não digo por mim mesmo. Pelo contrário, é o Pai que permanecendo em mim mesmo. Pelo contrário, é o Pai que permanecendo em mim realiza as suas próprias obras” (A Bíblia, 1996, 1327).
Dessarte, ainda na linha das isotopias. Podemos ver itens de carácter Anafóricos, uma vez que pautam a retomada para justificar certos atos, ainda que sejam de elos anafóricos, garantem a continuidade e sucessão da progressão do assunto e postulam o sentido na leitura do texto, e mantendo a ideia de representar o Pai (irrepresentável) na figura do homem Cristo de forma materializada.
Assim, funciona a narrativa: “Se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes”, de modo que o texto não dá as informações, mas o leitor as infere com o processo de retomada ao pai, por intermédio do filho. Deste modo, a figura de Cristo, sendo a humanização de Deus, ser divino intangível e imensurável, surge como projeção do próprio Pai, uma tentativa de representar o irrepresentável. A iconografia trinitária evidencia essa busca de dar forma visível ao que, por natureza, não é figurativo, mas antes ambíguo e, por vezes, até perigoso de representar.
Tratava-se, portanto, de escolher símbolos capazes de materializar seres inacessíveis, traduzindo o divino em figurações antropomórficas com significados ligados ao transcendental. Era o divino encarnado em formas humanas, mas nem sempre antropomórficas, como demonstra o caráter simbólico de representações como o Agnus Dei.
Conclusão
Representar o irrepresentável é, ao mesmo tempo, um exercício de linguagem e um gesto de aproximação do mistério. Ao longo deste trabalho, vimos que, no caso do Deus da tradição judaico-cristã, a impossibilidade de uma apreensão direta leva a linguagem a mobilizar signos, metáforas, isotopias e recursos iconográficos para criar imagens mentais e visuais que permitam a comunicação de uma realidade transcendente. A teoria do signo, conforme formulada por Ferdinand de Saussure, e as contribuições da semiótica literária, mostram que tais representações não são reflexos imediatos da essência divina, mas construções simbólicas mediadas por convenções culturais e históricas.
Assim, o signo linguístico, a metáfora e a iconografia não capturam o divino em sua totalidade, mas constroem pontes entre o finito e o infinito, entre o visível e o invisível, oferecendo ao ser humano um meio de se relacionar com aquilo que excede sua experiência sensível. Seja no texto bíblico, nas artes visuais ou na tradição oral, a figura de Deus é constantemente reelaborada, transformando o irrepresentável em algo provisoriamente representável, ainda que essa representação esteja sempre marcada por lacunas e ambiguidades.
Portanto, a tentativa de representar o irrepresentável não é uma solução definitiva, mas um processo contínuo de significação, em que cada signo lançado ao mundo funciona como convite à reflexão, à interpretação e, em última instância, ao reconhecimento de que, diante do absoluto, toda forma é apenas uma aproximação. É nessa tensão — entre a ausência e a presença, entre o silêncio e a palavra — que se constrói a possibilidade de dizer o indizível.
*João Gabriel do Nascimento Pires é graduando em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Referências
A Bíblia, c. a. e. n. t. (1996). teb. Edições Loyola.
Amora, A. S. (2009). Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa. Saraiva.
Betrand, D. (2003). Caminhos da Semiótica Literária. Signum.
Kristeva, J. (2020). Introdução à Semanálise. Perspectiva.
Reddy, M. J. (2000). Metáfora do Conduto: um caso de conflito de enquadramento na nossa linguagem sobre a linguagem.
Saussure, F. d. (2008). Curso de linguística geral. Cultrix.
Teixeira, V. (2013). Representar o Irrepresentável Para uma uma Semiótica do Invisível. Cadernos de Teorias das Artes, 2(1,), 81-92.
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