A operação militar russa na Ucrânia

Alison Wilding OBE, Sem título,1990

Por SCOTT RITTER*

A Rússia deixou claro que suas garantias de segurança vão além de impedir a adesão da Ucrânia à OTAN.

Que ninguém se engane! Em 24 de fevereiro o mundo despertou para uma nova realidade. Antes disso a Rússia era tratada pelo Ocidente como um aborrecimento, menosprezada pelas elites econômicas e até militares como pouco mais do que um “posto de gasolina gigante disfarçado de nação”, para citar John McCain, o agora falecido senador pelo Arizona.

O presidente russo, Vladimir Putin, foi objeto de uma série de perfis psicológicos primários, que banalizaram as preocupações nacionais russas como não muito mais que caprichos psicóticos de um sujeito problemático. As caricaturas que emergiam a respeito do Estado russo e de sua liderança serviram assim para colorir a análise das preocupações reiteradamente expressas pela Rússia a propósito daquilo que ela via legitimamente como assunto de sua segurança nacional.

Isso cegou o Ocidente para a realidade do que sucedia. Por ninguém levar a Rússia muito a sério, ninguém podia imaginar uma guerra em larga escala no terreno europeu. Então, todos foram pegos de surpresa quando esse conflito eclodiu.

 

Como chegamos aqui?

Desde que a OTAN abriu as portas para a adesão da Ucrânia e da Geórgia durante a cúpula de Bucareste em 2008, a Rússia tem dado a conhecer sua veemente oposição.

William Burns, ex-embaixador dos Estados Unidos na Rússia e agora diretor da CIA, capturou o sentimento russo em um memorando de fevereiro de 2009: “Nyet [não] significa nyet: linhas vermelhas da Rússia para a ampliação da OTAN”. A Rússia, observou Burns, via “a expansão para o leste como uma ameaça militar potencial”, dando origem aos temores russos de que “a situação poderia dividir o país [Ucrânia] em dois, levando à violência ou mesmo, acreditam alguns, à guerra civil; o que forçaria a Rússia a tomar uma decisão sobre intervir”.

Basta olhar para o que sucedeu em Donetsk e Lugansk, e para a atual operação militar da Rússia na Ucrânia, para entender quão presciente foi o informe de Burns. Não obstante, Burns foi ignorado. E o mesmo aconteceu com Putin, que vinha fazendo conferências no e para o Ocidente desde seu memorável discurso na Conferência de Segurança de Munique de 2007, na qual ele notoriamente advertiu os Estados Unidos de terem “ultrapassado suas fronteiras nacionais em todos os sentidos”. Putin declarou: “Isso é visível nas políticas econômicas, culturais e educacionais que impõem a outras nações. Bom, quem é que gosta disso? Quem estaria feliz com isso?” Suas palavras foram coroadas pelo silêncio.

“Estou convencido” – disse Putin à liderança do mundo ocidental então reunida – “de que alcançamos esse momento decisivo em que precisamos pensar seriamente sobre a arquitetura da segurança global. E devemos prosseguir buscando um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os participantes do diálogo internacional”.

Em Munique, o presidente russo alertou que as políticas ocidentais “estimulam uma corrida armamentista”. Ele advertiu repetidamente os Estados Unidos e a OTAN de que a decisão precipitada do presidente George W. Bush de se retirar do tratado de mísseis antibalísticos de 1972 e logo em seguida implantar sistemas de defesa antimísseis em dois países da OTAN, Polônia e Romênia, representava uma ameaça direta à segurança nacional russa.

Em 2018, Putin revelou as novas armas nucleares estratégicas russas desenhadas para vencer as defesas antimísseis norte-americanas. “Ninguém nos ouviu antes”, declarou Putin. “Vocês nos ouvem agora?”

O anúncio nuclear de Putin em 2018 deveria ter alertado o Ocidente para um aspecto crucial da personalidade do presidente russo. “Vocês vão ter que ponderar essa nova realidade e se convencer de que o que eu disse hoje não é um blefe. Confiem em mim!” – disse Putin à época.

Nyet significa nyet. Era uma mensagem simples apresentada em termos descomplicados. A Rússia não estava blefando. No entanto, os Estados Unidos e a OTAN ignoraram as preocupações russas, agindo sob a premissa de que seu princípio de uma política de “portas abertas” no que respeita à adesão à Aliança de alguma maneira superava as preocupações russas a propósito da sua segurança nacional.

A gestão da percepção se sobrepôs à realidade quando a OTAN pretendeu vender à Rússia a ideia de que não havia nada a temer, já que a Aliança era ostensivamente defensiva. Os Estados Unidos e a OTAN desconsideraram a narrativa russa, que se reportava ao bombardeio de Belgrado pela Aliança em 1999, seu avanço no Afeganistão em 2001 e a intervenção na Líbia em 2011 como evidências prima facie de que a OTAN pós-Guerra Fria se metamorfoseara em uma aliança militar de orientação ofensiva, cuja presença nas fronteiras da Rússia constituía uma ameaça existencial para este último país.

A adesão à OTAN continuou na mesa para a Ucrânia e a Geórgia. Além disso, a OTAN começou a armar e treinar os militares dessas ex-repúblicas soviéticas, integrando-os nos exercícios formais da Aliança, o que os transformava em seus proxies (representantes) de fato. Com efeito, as tropas ucranianas e georgianas enviadas ao Iraque e ao Afeganistão lutavam sob a bandeira da OTAN.

As sensibilidades russas se crisparam ainda mais a partir da revolução colorida de Maidan em 2014, ao verem um presidente pró-russo substituído por um governo fantoche decididamente pró-ocidental, que alçou a adesão à OTAN à condição de mandato legal.

Como Burns previra, a pressão da Ucrânia para se integrar à OTAN encurralou a Rússia, compelindo-a a formalizar sua demanda, submetida aos Estados Unidos e à Aliança em dezembro de 2021, e que os instava a oferecer por escrito garantias de que aquela integração não ocorreria. Essa demanda russa foi ignorada. Agora a Rússia alertou que o insucesso em fornecer as garantias exigidas resultaria em respostas “técnico-militares” – um eufemismo para guerra –, coisa que a Rússia finalmente implementou de forma cabal em 24 de fevereiro.

 

Para onde estamos indo?

A principal conclusão dessa situação em desenvolvimento não pode ser outra de que o presidente da Rússia não blefa, e que o Ocidente faria bem em ouvir atentamente o que ele tem a dizer. Quando as tropas russas atravessaram a fronteira ucraniana, os diplomatas e especialistas ocidentais proclamaram choque e consternação. Mas a Rússia foi bastante clara sobre o que pretendia e quais seriam as consequências de não conseguir seu objetivo. Se o Ocidente se prestasse a ouvi-la, essa guerra seria previsível.

As lutas continuam na Ucrânia. Como a guerra terminará é incerto. O velho ditado militar de que nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo parece se aplicar integralmente. O que se sabe é que os Estados Unidos e a Europa estão impondo uma segunda leva de sanções contundentes destinadas a castigar a Rússia.

É importante salientar que qualquer um que acredite que esta segunda rodada de sanções compelirá a Rússia a mudar de comportamento ficará desapontado. O curso de ações da Rússia já incorporou toda a gama de sanções pensadas pelo Ocidente – o que não é uma tarefa difícil, já que houve ampla especulação sobre seu escopo desde que elas foram insinuadas pela primeira vez na primavera de 2021.

O problema não são as sanções, mas o que se segue. Essas sanções esgotam as opções dos Estados Unidos, da OTAN e da União Europeia para responder à invasão da Ucrânia pela Rússia. Elas não têm um plano de seguimento. A Rússia, por outro lado, tem esse plano. Ela já deixou muito claro o que o futuro reserva. Mais uma vez, no entanto, o Ocidente não está ouvindo.

A Rússia não aceitará esta segunda leva de sanções. Putin deixou claro que a Rússia responderá na mesma moeda, lançando mão de ações simétricas (ou seja, contrassanções) e assimétricas (ou seja, ataques cibernéticos), destinadas a perturbar as economias das nações e entidades visadas. A Rússia não escondeu que esse é o curso de ação pretendido, mas, assim como sua solução “técnico-militar” para a Ucrânia, o Ocidente deu de ombros ao aviso russo. Só que a Rússia não blefa.

A Rússia também deixou claro que suas garantias de segurança vão além de impedir a adesão da Ucrânia à OTAN, e incluem o retorno da infraestrutura militar da Aliança aos termos anteriores a 1997. Em síntese, todas as forças da OTAN implantadas na Europa Oriental devem ser devolvidas às suas bases, e as duas bases de defesa antimíssil na Polônia e na Romênia devem ser desmanteladas.

Essa é a demanda que pautará as futuras relações russas com o Ocidente. Em vez de assentir com as exigências da Rússia, a OTAN vem dobrando o fortalecimento do seu flanco oriental, enviando forças adicionais para a Polônia, Romênia e os países bálticos.

Em resposta, a Rússia criará uma situação análoga à que aconteceu na Bielorrússia, a saber, o destacamento avançado de poderosas formações militares, naquela que será, para todos os efeitos práticos, uma zona tampão militarizada a separar a OTAN da Rússia propriamente dita, à exceção do enclave de Kaliningrado.

O impasse resultante será muito semelhante àquele da Guerra Fria, onde as forças da OTAN e do Pacto de Varsóvia, liderado pela União Soviética, se confrontavam na fronteira que separava a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental. Essa é a nova realidade para a qual o mundo acordou em 24 de fevereiro: uma Guerra Fria que o Ocidente não queria, não previu, nem está preparado para empreender.

*Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, foi inspetor-chefe de armas da ONU no Iraque de 1991-98.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em Energy Intelligence.