O Corona-capitalismo é universal.

Imagem: Elyeser Szturm

Por Flávio Aguiar*

Os Estados Unidos, sob Trump deixaram de ser um modelo civilizatório voltando a honrar a sentença de Baudelaire de serem “a barbárie iluminada a gás neon”.

As metáforas mais precisas do capitalismo globalizado sob a égide da dominação financeira e rentista são os grandes aeroportos. Nada mais parecido com um grande aeroporto do que outro grande aeroporto. As mesmas grifes, as mesmas lojas, a mesma transformação num gigantesco shopping center. Dentro das lojas, as mesmas ofertas, os mesmos produtos, a mesma monotonia, inclusive no setor de alimentação. Nenhuma metáfora supera o aeroporto pós-moderno, como símbolo da contradição que implica o exacerbamento do individualismo e a anulação da individualidade no mundo contemporâneo.

Berlim é um exemplo clássico desta transformação. A cidade tem três aeroportos. O mais antigo, Tempelhof, está desativado. Planejado e construído durante a República de Weimar (1918 – 1933), reformado e terminado durante o nazismo, foi utilizado como “ponte-aérea” para o abastecimento de Berlim Ocidental durante o começo da Guerra Fria, quando a União Soviética decidiu isolá-la por terra (junho de 1948 – maio de 1949), numa réplica tardia dos cercos medievais, quando a maioria das cidades e dos castelos era conquistada pela fome e pelas doenças impostas através do isolamento prolongado, ao invés de pelas armas (ao contrário do que se vê na maioria dos filmes hollywoodianos).

Tem uma arquitetura monumental, dentro da praxe nazista.  Hoje seu prédio principal serve de abrigo para refugiados (ver o excelente documentário Zentralflughafen THF, do brasileiro Karim Aïnouz, ganhador do prêmio da Anistia Internacional no Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, de 2019) e suas pistas viraram um parque público. Ainda há disputas a respeito, pois a especulação imobiliária na cidade pretendia demoli-lo e usar seu espaço para a construção de modernos condomínios. Outra proposta é mantê-lo como parque e fazer do prédio um museu da aviação. Na primeira vez em que vim a Berlim, como professor convidado do Instituto Latino-Americano, em 1996, desembarquei em Tempelhof, que ainda operava.

O segundo aeroporto é o de Tegel. Construído na antiga zona administrada pelos franceses entre 1948-1949, durante a ocupação pós-Segunda Guerra, foi usado primeiro como um aeroporto militar. A partir dos anos 50 tornou-se também comercial. Ganhou seu aspecto definitivo nos anos 70. Não é mais útil por duas razões. A primeira é de fato logística. Desde 2017 circulam por ele mais de 20 milhões de passageiros por ano, e seu tamanho não comporta tal volume de movimento. A outra é financeira e comercial.

Tegel é um aeroporto funcional. Seu Terminal A, o mais importante, tem o formato de um hexágono, com várias entradas e saídas. Isto permite aos usuários um acesso bastante rápido aos balcões onde devem fazer o check-in e dali rumar diretamente para o embarque. Seus outros quatro terminais, embora com formatos diferentes, mantém o mesmo princípio de funcionalidade. Em resumo: ele não serve mais à lógica de transformar os aeroportos em shoppings onde os usuários mais se detenham do que passem diretamente a seus voos.

O terceiro é o de Schönefeld, que na verdade fica já fora dos limites da cidade, na divisa com a província de Brandemburgo, a 18 km. do centro de Berlim. Construído inicialmente para abrigar uma fábrica de aviões, a Henschel und Sohn, Schönefeld também construiu locomotivas, aviões de guerra e blindados durante a Segunda Guerra. Terminada esta, os soviéticos a usaram como aeroporto militar, mas a partir de 1948/1949 autorizaram a sua utilização para voos civis, na antiga Berlim Oriental. Hoje atua com a metade dos usuários/ano de Tegel, sobretudo para as companhias de “baixo preço”, como Easy Jet, Ryan Air ou companhias menores na circulação europeia. Também não satisfaz a lógica do shopping center, embora tenha áreas reservadas para free shops.

Bem, para concluir esta viagem introdutória pelo tema aeroportuário, devo dizer que está em construção um quarto aeroporto, gigantesco como deve ser, destinado a ser o esperado shopping dos sonhos miliardários do setor e que, como é característico deste mundo financista, tornou-se um dos maiores escândalos financeiros da história alemã. 

Com custo previsto inicialmente de 2 bilhões de euros, e programado para ser inaugurado nos primeiro anos da década que ora termina, a construção do aeroporto foi palco de uma série de vexames. O custo já passou dos 7 bi, e o aeroporto sequer taxiou na pista, quanto mais decolou. Datas após datas de inauguração foram sendo canceladas. Na mais vergonhosa delas, os convites chegaram a ser expedidos para milhares de dignatários, o voo inaugural, que incluía a chanceler Angela Merkel, em direção a Frankfurt, já estava mapeado, a mudança de empresas do aeroporto de Tegel para lá estava na tela, quando tudo teve de ser cancelado por erros técnicos então descobertos.

E seguiu-se mais uma série de fiascos, entre privatizações e reestatizações que custaram um pacotaço de euros aos cofres públicos. Muita gente ganhou muito dinheiro, em indenizações de um lado para outro. O descalabro chegou a tal ponto que na mídia local alguém cobrou, numa mensagem não despida de preconceito: “Berlim é a metrópole desejada para a Alemanha do século XXI ou está se transformando numa capital do Terceiro Mundo?”

A pergunta, no entanto, revela um fundo verdadeiro. O sistema capitalista teve sucesso em se tornar hegemônico graças à sua enorme plasticidade, capaz que era de se adaptar a uma série de circunstâncias muito diferentes umas das outras, entre os vários continentes que foi ocupando e muitas vezes devastando. Entretanto, agora, sob o comando (já menos que uma hegemonia) das finanças e do rentismo, o sistema capitalista vem se notabilizando em recobrir e ocultar tudo sob as vestes de seus últimos princípios. Tornou-se menos hegemônico, mas mais homogêneo. Pode ser gerido com mais inteligência ou mais estupidez; mais refinamento ou mais grosseria; um discurso mais equilibrado ou mais desequilibrado, etc.

Mas atua sempre de forma estruturalmente muito parecida, impulsionando, com já foi dito aqui, o individualismo e soterrando a individualidade; excitando o fantasioso e afogando a imaginação; favorecendo o egotismo e destruindo a personalidade; pondo à frente o sabor artificial e sabotando o gosto autêntico. Como nos aeroportos, transformados em labirintos onde o usuário perde o sentido da autodireção e é devorado pelo Minotauro dos preços excessivos, já que não há outra opção. Não há ali ruas, há somente “bretes” – termo gauchesco que designa o corredor onde os bois são levados para o abate.

O presente momento, dominado pela pandemia do Coronavírus, também exemplifica esta circunstância. Com mais ou menos inteligência ou mais ou menos estupidez, a estrutura do debate, no mundo inteiro, é a mesma. Tenho lido comentários que falam da situação brasileira, que denunciam o Brasil como uma espécie de aberração da natureza e enaltecem uma Europa da Belle Époque socialdemocrata que não existe mais. Entra-se na lógica das expressões depreciativas sobre o Brasil e os brasileiros: “se fosse num país sério”, “num país civilizado”, etc.

Quando se chega a falar “no nosso mundo tupiniquim” meu furor atinge o ponto máximo. Porque os tupiniquins eram seres extremamente razoáveis, convenhamos, vítimas de preconceitos por parte dos tupinambás… Penso que os tupiniquins são confundidos com o “bravo e feroz aimoré”, d’O Guarani, de Alencar, apresentada esta tribo como um bando de primitivos grunhidores diante da articulação do… goitacá Peri, que não era Tupi nem Guarani. Aliás, o “Guarani”, herói do romance, não é o índio, mas a língua, transformada na visão de Alencar em língua franca no país em gestação romântica, e que assim fecunda a língua portuguesa do Brasil, fazendo-a diferente da matriz europeia. Mas isto é debate para outro artigo.

Voltando ao Corona-capitalismo, o confronto em que se debate a Europa – e a Alemanha, em particular – é o mesmo, estrutural e conceitualmente, do brasileiro. É mais refinado, despido da estupidez do governo Bolsonaro e do lumpenempresariado brasileiro, mas em essência não difere: trata-se da luta entre os “cautelosos” e os “apressadinhos” quanto a afrouxar o isolamento, entre fazê-lo de modo “lento, seguro e gradual” ou “amplo, geral e irrestrito” desde já.

Claro: por aqui ninguém cometerá a desfaçatez criminosa dos srs. Madero, Giraffas, e outros, que na esteira do desprezo do sr. Bolsonaro pela morte dos outros, banalizam as letalidades. Embora o sr. Ryan Air, por aqui, tenha desprezado um eventual distanciamento dentro dos aviões de sua empresa como algo “idiota”. O que assusta não é a discussão; é a palavra.

Ao norte do Equador e a leste do Cabo Roca, ponto ocidental extremo da Europa Continental, a discussão é mais sisuda, mas não menos acalorada. O argumento central dos “apressadinhos” gira em torno de um documento chamado de “Protocolo de Heinsberg”, feito e divulgado pelo Instituto de Virologia da Universidade de Bonn, sob a liderança do dr. Hendrik Streek.

Heinsberg é uma cidade do extremo oeste da Alemanha, na fronteira com a Holanda. Foi a primeira cidade onde houve uma contaminação massiva pelo Corona-Vírus, devido a um baile público durante o Carnaval, que não foi cancelado. Centenas de pessoas foram contaminadas numa única noite, 58 morreram. Porém, na sequência, as contaminações e as mortes caíram. Na pesquisa feita pelo Instituto de Bonn, apontou-se como causa da queda de contaminações a imunização subsequente. Segundo o estudo, 15% da população da cidade, de 250 mil habitantes, fora imunizada pela contaminação benigna. O estudo vem sendo usado pelos partidários da abertura “ampla, geral e irrestrita”.

A conclusão é contestada pelo dr. Christian Drosten, do Instituto de Virologia do Hospital da Charité (equivalente aos HCs brasileiros), de Berlim. O dr. Drosten reconhece que a Alemanha vem tendo um desempenho melhor na crise do que, por exemplo, a Itália, a Espanha e o Reino Unido. Mas sustenta que as conclusões do “Protocolo Heisenberg” são precipitadas. Para ele, não há provas convincentes da imunização porque as mutações do vírus são muito rápidas, e houve reações de isolamento também rapidamente em muitos pontos da Alemanha, além de uma ampla aplicação de testes. Ele também elogia a atuação da chanceler Angela Merkel: “Talvez uma das características diferenciadoras de bons líderes é a de que não estejam usando a presente situação como um trampolim político” (entrevista ao The Guardian, 26/04/2020).

Mas aponta que para muitos ele, que é um dos principais consultores do governo alemão, é o responsável por “aleijar a economia”, e diz ainda que por isto vem recebendo ameaças de morte, como os médicos brasileiros que vem pondo em dúvida a eficácia milagrosa da cloroquina, transformada em “elixir da cura” por Trump e seu servil sósia brasileiro, Bolsonaro.

O resumo desta ópera é que, se os Estados Unidos de Trump deixaram de ser um modelo civilizatório para muita gente no Brasil, voltando a honrar a sentença de Baudelaire, exarada no século XIX, de serem “a barbárie iluminada a gás neon”, certa Europa imaginária segue sendo, imagem estimulada, mutatis mutandis, por aquilo que Sergio Buarque identificou, em Raízes do Brasil, como “o secreto horror” dos reformadores positivistas, ao fim do XIX, diante do país real que viam, ao abrir as janelas e depararem com bananeiras e árvores retortas ao invés dos eretos pinheirais da Floresta Negra e da placidez das águas do Sena ou do Reno.

Mas a universalidade do Corona-Capitalismo é um fato. Na mentalidade do financismo dominante, o lucro não aferido imediatamente é contabilizado como prejuízo, porque no mundo do individualismo exacerbado em combinação com o sufocamento das individualidades, deixar de lucrar imediatamente equivale a uma perda irremediável de prestígio, algo insuportável para os pequenos egos que dependem de uma contabilidade monetária positiva para se sentirem grandes.

*Flávio Aguiar é escritor, jornalista e professor aposentado de literatura brasileira na USP.