Por MÔNICA BENFICA MARINHO*
A prática da corrida de rua reflete mudanças sociais e culturais, destacando a busca pela superação pessoal e a influência do mercado esportivo
1.
O que a prática de um esporte pode revelar sobre a sociedade em que está inserido? Muito, de acordo com o filósofo, médico e sociólogo judeu-alemão Norbert Elias. Nascido na Alemanha em 1897, ele precisou abandonar o país em 1933, diante das ameaças aos judeus com a ascensão do nacional-socialismo. Norbert Elias buscou exílio primeiro na França e, posteriormente, na Inglaterra. Faleceu no ano de 1990 em Amsterdã.
Em uma de suas obras, A busca da excitação, escrita em parceria com seu colaborador Eric Dunning, apresenta a ideia de que o estudo do desenvolvimento do esporte, ao buscar uma visão “mais alargada” de seu surgimento e de suas características, “podem servir também, para o conhecimento das mudanças nos hábitos das pessoas e das sociedades que elas constituem”.
Inspiro-me nessa perspectiva de Norbert Elias e pergunto: o que um fenômeno esportivo, como os eventos de corrida de rua, tem a dizer sobre nós? Esses eventos são, sem dúvida, um fato notável. Hoje eles ganham forma com uma profusão de tecnologias e procedimentos que vão desde sua concepção e realização, bancadas pelas mais diversas instituições, e guardam uma distância significativa da primeira Maratona de Boston realizada em 1897, por exemplo.
James Fixx, em Guia completo de corrida, escrito em 1977 nos EUA, o qual teve um êxito fantástico, conta que essa maratona teve pouco mais de 40 quilômetros, passando por estradas de terra. “Os habitantes eram todos locais — mecânicos, leiteiros, lavradores — que fizeram os próprios sapatos de corrida, treinaram sem qualquer técnico e correram na base da força de vontade”.
James Fixx, corredor convicto, tornou-se celebridade e atribuía à corrida as profundas mudanças na sua vida que lhes proporcionaram bem-estar físico e mental. O falecimento de James Fixx, em 1984, aos 52 anos, em decorrência de uma parada cardíaca, suscitou, naquele período, um debate acerca dos reais benefícios e eventuais riscos associados à prática das chamadas corridas de longa distância.
2.
Chama atenção o crescimento do número de corredores(as) e o aumento dos eventos de corrida de rua no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira de Corridas de Rua (ABCR), no segmento de esportes outdoor, o running é o que conta atualmente com o maior número de provas, com tendência de crescimento. “Apenas no primeiro semestre de 2023, houve um aumento de 14,44% no número de organizadores e de 15,76% no número de eventos”.
É impressionante como diferentes segmentos sociais realizam provas de corrida de rua (uma outra denominação para eventos de corrida de rua, pois tem a estrutura de uma competição formal): instituições religiosas, sindicatos, associações, empresas de construção civil, seguradoras, empresas de alimentos, empresas de comunicação, instituições de saúde, para citar algumas.
E mobilizam diversos mercados, como os de vestuário, calçados, alimentos, suplementos alimentares, medicamentos, publicidade, mídias analógica e digital, redes sociais digitais, lazer, turismo, saúde, beleza, entre outros. Parece evidente o interesse “do mundo dos negócios” nesse fenômeno, que pode reunir, no mesmo espaço, diferentes níveis de corredores(as).
Em um mesmo evento, pode-se escolher se inscrever nos 5, 10, 21 até 42,195 km, a distância oficial de uma maratona. Se você corre e tem interesse nesses eventos, além de condição financeira para bancar a inscrição, no Brasil será possível participar de ao menos um durante os finais de semana ou feriados.
Os eventos de corrida de rua são um grande negócio sem dúvida, mas pensá-lo reduzindo-o a essa dimensão não nos ajuda a desvendar sua complexidade. Da mesma forma, explicar a adesão cada vez maior de pessoas jovens e idosas a esses eventos apenas para a busca por uma vida saudável é insuficiente.
Talvez se atentar para os modelos de conduta e sensibilidade que experienciamos hoje nos ajude a uma compreensão mais ampla desse fenômeno — e, por conseguinte, da sociedade que enredamos e pela qual somos enredados. Se acompanharmos as mídias digitais e os sites de redes sociais vinculados à prática da corrida de rua, salta aos olhos (ou aos olhos e ouvidos) a palavra “superação”. Ela é, certamente, a palavra do momento no universo dos(as) corredores(as). O que ela nomeia?
A sociedade hoje vive uma verdadeira febre de performance que se imiscui no chamado “esporte de lazer”, tão bem representado pelos eventos de corrida de rua. Isabelle Queval, em Realizar-se ou superar: Ensaio sobre o esporte contemporâneo, demonstra como essa ideia de performatividade configura nossa sociedade. Sucesso e visibilidade social constroem-se por meio de uma performance marcada pela superação de limites e pela busca incessante da excelência, elementos que podem ser encontrados na prática esportiva.
Geovana Coiceiro em seu livro No limite: o imaginário de aventureiros do extremo trata da superação dos limites do corpo na prática de esportes de alto rendimento e de ultrarresistência. Descreve como assistimos a uma tendência de proliferação de provas mais exigentes, como as ultramaratonas (corridas acima de 42.195 m) e as multidays (corridas com duração de vários dias, em condições climáticas e terrenos variados). Tais práticas colocam como objetivo ultrapassar os limites do corpo via grandes desafios que, em alguns casos, pode levar o(a) atleta a se avizinhar com a morte.
3.
Acompanho as corridas de rua há mais de dez anos e observo que a busca pela superação é um padrão que atravessa as diferentes modalidades e distâncias. O desejo de superar não é exclusivo dos chamados superatletas. Ele está presente entre corredores de curtas distâncias, como os 5 km, e até mesmo entre aqueles que estão apenas iniciando a prática.
Ao participar de um evento de corrida de rua, ou mesmo apenas observá-lo, fico convencida de que ele se tornou um acontecimento no qual um número crescente de pessoas experienciam uma performance marcada pela superação.
Durante uma prova, em meio a centenas ou milhares de corredores, o indivíduo sente-se único, pois o que está em jogo é sempre a superação pessoal: ir além, conseguir ultrapassar a linha de chegada no menor tempo possível — ainda que esse tempo seja muito distante daquele alcançado pelos premiados pela velocidade e eficácia. O limite, afinal, é subjetivo. Nessa lógica de quantificação do desempenho, o que importa é que cada um, ali, sente que “superou”, “que foi além”.
Após cruzar a linha de chegada, aquele ato de superação, até então íntimo e, paradoxalmente, sempre sob o olhar do outro, precisa transbordar e ganhar visibilidade para que o ciclo da realização se complete. A superação tem que ser exposta, aplaudida, comentada. Inicia-se, então, uma profusão de registros imagéticos produzidos pelos(as) corredores(as).
Rostos congelados em sorrisos, gestos que indicam conquista e vitória começam a fervilhar nas redes digitais de conversação, nos sites das redes sociais. Afinal, “postar” é preciso.
A exacerbação dos gestos que expressam vitória e buscam chamar a atenção ao se cruzar a linha de chegada; excesso de produção de imagens voltadas à hiperexposição dos sujeitos, empenhados em sua própria autopromoção; a dor física vivenciada como recompensa do esforço são comportamentos que não deixam de chamar atenção nas provas de corrida de rua.
Eles dizem respeito ao nosso tempo, no qual comedimento, intimidade, recolhimento vão deixando de habitá-lo. Os eventos de corrida de rua são, assim penso, grandes palcos onde nosso modo de ser é encenado.
*Mônica Benfica Marinho é pós doutora em Sociologia do Esporte pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.
Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CORRIDAS DE RUA. Estudo: Após queda na pandemia, eventos de running, ciclismo e natação crescem 25% em 20222. <Http:// Abraceo.com.br>
COCEIRO, Geovana. (2017). No limite: o imaginário de aventureiros do extremo. Rio de Janeiro: Editora Autografia
DUNNING, Eric; ELIAS. Norbert (1992) A busca da excitação. Lisboa: DIFEL.
FIXX, James.F.(1977). Guia completo de corrida. São Paulo: Círculo do livro.
QUEVAL, Isabelle (2013). Realizar-se ou se superar: ensaio sobre o esporte contemporâneo. Trad. Elza Marques Lisboa de Freitas. Rio de janeiro: Forense.
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