É uma guerra interna

Imagem: Jon Tyson
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Por JONATHAN V. LAST*

Para além do caos anedótico, o discurso de Trump foi um chamado às armas contra o “inimigo interno”, colocando as Forças Armadas diante de uma escolha profunda: a lealdade a um homem ou o juramento de defender a Constituição

Se vocês esperavam ver Triunfo da Vontade, ficaram desapontados, pois o que vocês viram foi um Elvis gordo e desorientado tropeçando durante sua atuação. Exceto que não foi engraçado. Foi perigoso.

À primeira vista, o discurso de Trump foi ridículo. Com os ombros caídos e sem energia, Donald Trump divagou e fez um discurso enrolado.

Garanto a vocês que os oficiais de alta patente presentes ficaram mais alarmados do que entretidos. E vocês também deveriam ficar.

“O inimigo interno”

O presidente Donald Trump não teve muitas coisas negativas a dizer sobre os adversários estrangeiros dos Estados Unidos. Ele falou sobre Vladimir Putin em termos bastante neutros (dizendo apenas que estava “desapontado” com ele) e mal mencionou a China.

Entretanto, ele falou com grande clareza moral sobre certas classes de americanos que considera uma grave ameaça: (i) a esquerda americana: “Eles são realmente maus. São pessoas más”. Novamente, ele está falando aqui sobre americanos. (ii) Seus próprios adversários políticos internos: “Eles são pessoas perversas contra as quais temos que lutar, assim como vocês têm que lutar contra pessoas perversas. As minhas são de um tipo diferente de perverso”. (iii) Jornalistas americanos: “canalhas”. (iv) Residentes de áreas urbanas degradadas: “animais”.

As partes mais importantes do discurso do comandante em chefe foram aquelas em que ele tentou preparar os oficiais de alta patente para um aumento da intervenção de militares nas cidades americanas.

Ele disse que os militares passariam a ajudar no reforço das fronteiras: “Com a ajuda de vocês, defenderemos as fronteiras de nosso país a partir de agora”. Ele chamou as “áreas urbanas degradadas” de “uma grande parte da guerra”. Ele disse que os Estados Unidos estão “sob invasão interna”.

Que as cidades “governadas por democratas radicais de esquerda” são lugares perigosos e “vamos consertá-las uma a uma” e que “as pessoas nesta sala vão ajudar nisso”. “Elas precisam desesperadamente das forças armadas”, disse ele sobre as cidades com prefeitos democratas.

Mais Donald Trump: “São Francisco, Chicago, Nova Iorque, Los Angeles… Isso também é uma guerra. É uma guerra interna… Eu disse ao Pete [Hegseth] que devíamos usar algumas dessas cidades como campos de treinamento para nossos militares – guarda nacional, mas militares. Vamos entrar em Chicago muito em breve”.

Numa das seções do discurso lida no teleprompter, Donald Trump tentou argumentar que há um longo precedente para o uso das forças armadas como músculo interno: “Nossa história está repleta de heróis militares que enfrentaram inimigos estrangeiros e domésticos”. Ele acrescentou: “George Washington, Abraham Lincoln, Grover Cleveland, George Bush e outros usaram as forças armadas para manter a ordem e a paz internas”.

Regras de combate

Donald Trump foi franco sobre como deseja que os militares se envolvam com os civis: ele disse que “reprimir distúrbios civis” “será uma tarefa importante para as pessoas nesta sala”.

Em seguida, contou uma história sobre gangues de jovens em Washington, D.C., que “trataram [os soldados] com desrespeito”. Trump relatou alegremente que “eles foram espancados” pelos soldados.

Contou outra história sobre civis que gritavam com os soldados e se aproximavam tanto deles que saía saliva de suas bocas. O comandante em chefe disse então que tinha mudado a política oficial que anteriormente exigia que os soldados não agredissem civis que cuspissem neles: “Eles cospem, nós batemos”.

Não está claro se essas histórias são reais ou apócrifas. Mas a questão é essa, não é mesmo?

Não me lembro de outro caso em que um comandante em chefe tenha repetidamente difamado seus antecessores diante dos militares, citando nomes, em público. Donald Trump foi muito mais longe aqui do que em seus discursos em Fort Bragg e West Point.

Alguns exemplos: Ele chamou “Biden e sua equipe de pessoas incompetentes” e lamentou “a era do sonolento Joe”. “Eu o chamo de caneta automática” que “não tinha noção” e “não deveria estar lá, para começar”.

Sobre Barack Obama, Donald Trump disse: “Obama… Não tinha qualquer respeito por ele como presidente” e “ele fez um péssimo trabalho como presidente”.

Donald Trump caracterizou as relações de Joe Biden e Barack Obama com os militares desta forma: “Eles não tratavam vocês com respeito. Eles são democratas, nunca tratam vocês bem”.

O mais alarmante é que ele disse que Joe Biden era um presidente ilegítimo, fruto de uma eleição fraudulenta, quando afirmou que a Rússia nunca teria invadido a Ucrânia “se a eleição não tivesse sido manipulada”.

A conclusão óbvia: apenas Donald Trump é o comandante em chefe legítimo em quem as forças armadas podem confiar.

Ele disse coisas que deveriam envergonhar os combatentes profissionais – “Estamos considerando o conceito de batalha naval”. Ele falou sobre o Golfo da América, a Associated Press e a decisão da Suprema Corte de abolir a ação afirmativa. Ele afirmou ter impedido oito guerras em oito meses. Ele argumentou que merece o Prêmio Nobel. Ele disse que cada barco suspeito de contrabando de drogas da Venezuela “mata cerca de 25.000 pessoas”.

Mas manter o foco na fachada ridícula é um erro, pois o conteúdo de seu discurso foi tão sério quanto um ataque cardíaco. Toda a alta liderança das Forças Armadas dos Estados Unidos foi alertada. Agora compreendem como Donald Trump pretende usar suas forças. Ele disse-lhes explicitamente. Ele quer implementá-las em cidades americanas, onde serão usadas para “reprimir” grupos desfavorecidos, usando a força.

Os generais compreendem que Donald Trump vê seus compatriotas americanos como inimigos. E agora devem perceber que, em algum momento, provavelmente serão forçados a escolher entre Donald Trump e seu juramento de defender a Constituição.

*Jonathan V. Last é jornalista e escritor. Autor, entre outros livros, de What to expect when no one’s expecting (Encounter Books).

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Publicado originalmente no portal The bulwark.


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