Por JOÃO LANARI BO*
Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
“Ó, toda essa hoste do céu! Ó, terra! Que mais? / E acoplarei o inferno? Oh, vergonha! / Aguenta, meu coração, E vós, meus músculos, não envelheçam de súbito, / Mas me sustentem firmes. Lembrar-te?” (William Shakespeare, Ato I, Cena V de Hamlet, tradução Geraldo Silos).
1.
A proximidade dos nomes, Hamnet e Hamlet, pode parecer um ato falho freudiano, mas não é, os dois poderiam ser usados indistintamente. Ato falho é a versão brasileira do título, que acrescenta uma explicação redundante, liquidando a dúvida da proximidade linguística. Hamnet é o romance de Maggie O’Farrell, sucesso de público e crítica, traduzido no Brasil como Hamnet, simplesmente – Maggie O’Farrell escreveu o roteiro com a diretora do filme, a chinesa Chloé Zhao: Sam Mendes e Steven Spielberg produziram.
Wiliam Shakespeare é desses territórios míticos da literatura universal que poucos, muito poucos, conseguem equiparar-se. Claro, se não tivesse escrito em língua inglesa, talvez não chegasse a tanto, mas… historicamente situado na transição renascentista do século XVI para o XVII, o bardo fundiu tradição de textos latinos, bíblia, folguedos de amor e anarquia, além de escaramuças de poder mais ou menos contemporâneas – para criar um conjunto único de peças e poesia, algo que resiste mesmo no turbilhão digital em que transitamos.
Transformá-lo em personagem, inseri-lo em um fluxo de ações e reações, digamos, humanas, é um ato de audácia criativa, que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell não se esquivaram.
Audácia que começa, como é sabido, pelas escassas informações sobre a família de William Shakespeare, e pelas incontornáveis dúvidas que cercam o assunto. A dimensão de pesquisa sobre o poeta não tem par na academia, sendo os textos, também objeto de inquirição em si mesmos, a fonte primária.
Na vida civil, as lacunas se avolumam: sabe-se que em 1582 William Shakespeare, então com 18 anos, casou-se com Anne Hathaway, de 26 anos, que estava grávida de sua primeira filha, Susanna. Três anos depois, nasceram os gêmeos Judith e Hamnet: em 1596, quando tinha apenas 11 anos, Hamnet morreu. Quatro anos depois, nascia “Hamlet”. E é só.
A escritora, naturalmente, admite uma tal escassez – ninguém sabe, por exemplo, se Anne sabia ler e escrever. Mas aventurou-se. Em Hamnet: a vida antes de Hamlet”, Anne – ou Agnes, como é chamada por sua família – é uma personalidade determinada, suspeita de ser “filha da floresta”, dedicada ao seu falcão de estimação, colhendo ervas e fungos para suas poções.
2.
Jessie Buckley, a atriz, consegue dar vida ao mito, e Paul Mescal, o William tutor de latim tentando desvencilhar-se do pai autoritário, responde à altura. Agnes, decidida e altruísta, concorda com a partida do marido para Londres: o que importa era o autor Shakespeare e sua arte. William não está presente quando ela dá à luz os gêmeos, Hamnet e Judith. A infância foi feliz, apesar das longas ausências do pai.
Tantas licenças dramáticas e a narrativa cai – em alguns momentos, a despeito da excelência dos cenários e dos atores, estamos em uma biopic típica da BBC. É quando entra em cena a proposta mais audaciosa do filme: relacionar a morte de Hamnet ao processo criativo, e doloroso, da escritura de Hamlet.
A luz para uma tal especulação veio com o ensaio publicado em 2004, “A Morte de Hamnet e a Criação de Hamlet”, do crítico literário Stephen Greenblatt. Hamnet e Hamlet, o ato falho, nomes intercambiáveis, estaria na origem da inspiração shakespeareana: se o filme não resolve o mistério, aprofunda-o e adiciona um páthos sedutor a olhos e ouvidos modernos.
A hipótese de Stephen Greenblatt parece não ter entusiasmado os exegetas da vida e obra do poeta de Avon, pelo menos os mais ortodoxos. Mas sem dúvida elevou Hamnet: a vida antes de Hamlet a um patamar diferenciado dentro da narrativa fílmica a que se propôs.
Agnes vai ao Globe Theatre acompanhar a estreia de Hamlet, onde uma floresta, sombria e farsesca, aguarda o jovem Hamnet (Jacobi Jupe) – uma visão emocional da morte do filho, editada com maestria pela dupla de montadores, a diretora Chloé Zhao e o brasileiro Affonso Gonçalves.
Nesse momento Hamlet, interpretado na peça dentro do filme pelo irmão mais velho de Jacobi, Noah, declama os versos hamletianos. E William, representando o pai-fantasma de Hamnet, espreita ao fundo:
“Eles ferem e sangram. Adeus de uma vez!
O vagalume começa a empalidecer sua luz noturna;
É que a alvorada o vence.Adeus, adeus, adeus! Lembra de mim.”
(Ato I, Cena V de Hamlet, tradução Millôr Fernandes)
Ele sai.
*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo) [https://amzn.to/45rHa9F]
Referência
Hamnet: a vida antes de Hamlet (Hamnet)
Reino Unido, 2025, 125 minutos.
Direção: Chloé Zhao.
Roteiro: Maggie O’Farrell & Chloé Zhao.
Montagem: Chloé Zhao e Affonso Gonçalves.
Elenco: Emily Watson, Jessie Buckley, Jacobi Jupe, Paul Mescal.






















