A estratégia da pinça

Por Paulo Capel Narvai*

Com o Manifesto “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro” a oposição anuncia disposição de reagir à estratégia da pinça e não desistir da batalha. Mas qual é a contra estratégia da oposição?

Não é a pandemia. Nem a economia. É 2022.

As diatribes com governadores, notadamente o paulista, indicam o cenário absurdo que Bolsonaro busca impor à nação e para o qual pretende empurrar a República. Em meio à pandemia COVID-19, até agora a principal ameaça sanitária deste século, põe desastradamente sobre a mesa o tabuleiro do xadrez eleitoral de 2022.

A pandemia – conforme assinalei no artigo “Terraplanismo epidemiológico” – requer planejamento e coordenação em nível nacional. Bolsonaro deveria tirar seu olhar das urnas de 2022 e se colocar à frente disso, comandando o enfrentamento do problema. Mas nada fez desde janeiro, quando chegaram da China as primeiras informações sobre a gravidade do que viria nos próximos meses. Era urgente, então, avaliar a situação do país e, com base nisso, realizar as ações que deveriam nos assegurar recursos e condições para cuidar dos doentes.

Isto implicaria negociar com o setor produtivo e reverter linhas de produção, com vistas a garantir os insumos que seriam necessários. Mas o governo federal ficou refém do “negacionismo” com origem no “gabinete do ódio”. O resultado é o que se vê atualmente: o marasmo do Planalto não foi capaz de assegurar que a indústria nacional produza e disponibilize nem mesmo… máscaras! Sequer para profissionais de saúde.

Faltam equipamentos de proteção individual, tanto no SUS quanto no setor privado. Sem EPI, aumentam os riscos. Tudo evitável num país que ocupa o 9º posto na economia mundial, com um PIB de US$ 1,9 trilhões. Na origem do descaso e da inação sempre esteve o desdém de Bolsonaro e sua convicção atlética de que tudo não passa de uma “gripezinha”. Sua incúria paralisou representantes do Estado que poderiam ter agido e, além de desmotivar, desorientou os agentes econômicos vinculados à cadeia produtiva de equipamentos e insumos de saúde.

Apoiadores do governo justificam a paralisia e o desleixo frente à COVID-19 atribuindo ao “negacionismo” presidencial certos ares de preocupação com a economia. “É a economia, estúpido!”, a frase celebrizada nas eleições de 1992, que levou Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, foi descontextualizada na tentativa de revelar uma suposta preocupação de Bolsonaro com a economia, pretendendo opô-la às urgências epidemiológicas.

Decerto que Bolsonaro se preocupa com a economia. Evidente que ele não poderia ser indiferente ao “pibinho” e ao “dolão”. O PIB de 1,1% de 2019 e o dólar atingindo R$ 5,00 são a mais peremptória negação dos slogans que asseguravam que, “se tirar a Dilma” o PIB será de “4% no primeiro ano de governo” e o “dólar não subirá”. Bolsonaro sabe que em 2020 não haverá sequer o “pibinho” e o “dolão” de 2019 e que isso implicará derrotas eleitorais de suas bases, mesmo com seu apoio (ou até mesmo em razão disso…), já neste ano em várias capitais e muitos municípios, abrindo-se um sinal amarelo colocando em risco seu sonho de reeleição em 2022.

Por essa razão, não é a pandemia. Nunca foi. Nem é a economia, incluindo a vida dos ambulantes, que buscam apenas sobreviver, mas também comerciantes genocidas, que rejeitam tenazmente as orientações de isolamento social. Bolsonaro, tosco, inculto e simplório, parece crer que esses segmentos são “a economia”.

Neste contexto, gestou-se no Planalto uma espécie de “estratégia da pinça”, a conhecida manobra militar executada primorosamente pelo gênio do cartaginês Aníbal Barca para derrotar os romanos na batalha de Cannas, dois séculos a.C. O objetivo tático desse tipo de operação é imobilizar o inimigo, criar confusão e levá-lo ao descontrole de suas forças. Isto ocorre quando as pontas da pinça se tocam, cercando completamente o oponente e derrotando-o [1].

A versão cabocla posta em curso nas hostes bolsonaristas busca arrumar um bode expiatório para o PIB negativo antevisto, sem que para isto haja maiores exigências intelectuais, para 2020 e talvez 2021, pois não há clareza sobre os desdobramentos da COVID-19 na economia mundial. Ninguém duvida, porém, que o PIB negativo será o maior eleitor contra Bolsonaro. Por outro lado, as últimas semanas foram delineando uma situação em que a pandemia se consolidou como um problema muito sério que levou Bolsonaro ao isolamento político, criticado duramente à direita e à esquerda. Daí, a pinça.

Numa ponta da pinça está o presidente e seu ‘gabinete do ódio’ reiterando que “o Brasil não pode parar”. Constrói-se um cenário em que a responsabilidade pelo “pibinho” cairá no colo dos governadores que “pararam o Brasil” e que serão responsabilizados pela “recessão, desemprego” e todas as desgraças que virão. Acólitos preparam-se para os mantras “Não deixaram o homem trabalhar”, “torcem contra”, “serão necessários muitos anos para desfazer a destruição-do-país-causada-pelos-governos-do-pe-tê”, dentre outras pérolas. Um discurso cuja finalidade é justificar o fracasso da política econômica imposta ao país por Paulo Guedes, sob a benção de Bolsonaro, seu principal responsável, e que já se revelava desastrosa antes mesmo da precipitação pandêmica.

Na outra ponta da pinça encontra-se o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), fazendo as vezes de uma voz técnica, que seria o polo da razão e sensatez no interior de um governo de celerados. Assume um “lugar de fala” da ciência e do SUS (registre-se que hoje em dia “pega bem” ficar ao lado e em defesa do SUS). Mandetta assim como o seu partido, o DEM, são históricos oponentes e críticos do SUS e responsáveis por seu crônico subfinanciamento. Adversário ferrenho do programa “Mais Médicos” é um dos responsáveis pela falta atual desses profissionais em várias localidades, em todo o país, sendo apoiador de primeira hora da Emenda Constitucional-95/2016, que congelou por 20 anos os recursos do SUS, a tristemente conhecida “EC da Morte”.

Mandetta, ninguém se iluda, faz o jogo do Planalto, é parte da “pinça”. Foi liberado para “falar da saúde” e pode dizer tudo o que puder ser tolerado pelo governo e que não fustigue o denominado “gado” (a base fanatizada, sobre a qual Bolsonaro apoia suas ações mais irresponsáveis e inconsequentes, como ‘dar uma banana’ para o novo coronavírus, abraçar e beijar manifestantes na Praça dos Três Poderes, atravessar o Distrito Federal para se reunir com populares e conversar com o vendedor de churrasquinhos em Taguatinga [2], hostilizar a imprensa e atribuir a um palhaço profissional a tarefa de explicar o “pibinho” aos jornalistas, dentre outras bizarrices). O “gado” não gosta do Mandetta. Por isso, alguns membros do ‘gabinete do ódio’, ou próximos dele, dentre os quais o ministro da Educação, Weintraub, também devem falar sobre a pandemia e as ações de suas respectivas pastas.

Nesse contexto, a estratégia da pinça visa a “dar razão” ao governo, buscando isolar a oposição, seja qual for a evolução da pandemia no Brasil. Com ela o governo quer assegurar um cenário em que terá um discurso positivo sobre os fatos, haja o que houver. Terá, segundo sua versão, assegurado o funcionamento da economia e também contido a pandemia, cuidando dos doentes. Assim, cabe aos que vêm no governo Bolsonaro o que ele efetivamente é (neofascista e uma gravíssima ameaça à Democracia, ao SUS e ao povo brasileiro), não desvincular Mandetta de Bolsonaro, pois são, politicamente, o que se costuma identificar como “farinha do mesmo saco”.

Mas, se Bolsonaro está com os olhos em 2022, o Brasil não pode esperar tanto tempo. É compreensível, portanto, que lideranças partidárias compromissadas com a preservação do Estado Democrático de Direito, como Ciro (PDT), Haddad (PT), Boulos (PSOL), Requião (MDB) e Dino (PCdoB), dentre outras (PCB, PSB), tenham pedido a renúncia de Bolsonaro, em documento divulgado em 30/3/2020, intitulado “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro” [3]. Para esses partidos, “Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país. Ele precisa ser urgentemente contido e responder pelos crimes que está cometendo contra nosso povo.”

No clássico A arte da guerra, Sun Tzu recomendou que, ao executar a estratégia da pinça, deveriam ser evitadas situações de cerco completo ao inimigo, pois este reagiria lutando com maior ferocidade. Considerou ser mais prudente e eficaz, militarmente, abrir ao inimigo uma rota de fuga, induzindo-o a desistir da batalha antes de se fechar o cerco.

Com “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro” a oposição anuncia disposição de reagir à pinça e não desistir da batalha. Mas, qual é a contra estratégia da oposição para conter Bolsonaro e não permitir que o xadrez eleitoral de 2022 seja antecipado?

* Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública na USP

Referências

[1]. Tzu S. A Arte da Guerra. São Paulo: Lafonte; 2018.

[2]. Jair Bolsonaro visita comércio no DF mesmo após recomendação de isolamento. Por Renata Rusky. Correio Braziliense. 29 mar 2020. Disponível em: https://tinyurl.com/ums9cpx.

[3]. Ciro, Haddad, Boulos, Requião, Dino e outras lideranças pedem renúncia de Bolsonaro. Sul 21. 30 mar 2020. Disponível em: https://tinyurl.com/r2w88b6.