Por GABRIEL SANTOS*
A concessão do título de Doutor Honoris Causa a Emicida celebra a música como um projeto social e reafirma o papel do hip-hop na construção de uma intelectualidade orgânica voltada ao enfrentamento do racismo
No dia 29 de novembro, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entregou o título de Doutor Honoris Causa ao músico, escritor, e pensador, Emicida. O texto abaixo fez parte do processo de abertura do pedido de entrega do título, destinado para a Faculdade de Educação da Universidade em julho e proposto por estudantes negros da instituição.
1.
É de conhecimento do público e daqueles que consomem a cultura hip-hop a famosa entrevista de KL Jay, membro do Racionais MC’s, ainda nos anos 1990, onde perguntado por um repórter sobre qual o projeto social de seu grupo de rap ele, sem muita paciência, levanta um CD de músicas e diz: “esse é projeto social dos Racionais. Esse é nosso projeto. Nossa música é nosso projeto social”.
A atitude, intencionalmente jocosa, foi mal interpretada por muitos. Vista como deselegante, algo prepotente, arrogante. Ela trazia, em sua fina ironia machadiana, elementos fundamentais para expor e compreender as mudanças e contradições no rap nacional, na indústria da música, e principalmente na população negra brasileira.
Nos anos 1980 e inícios dos anos 1990, gênese da cultura hip-hop, era comum o movimento das posses. Surgiam grupos de hip-hop, ligados a uma determinada região, que além de música, realizavam a promoção de ações de conscientização social. Era entendido que o rap, além de ser uma crônica da realidade vivida da população periférica, precisa agir sobre a questão social que ele musicava.
Quando os Racionais MC’s, primeiro grupo que faz o movimento de posicionar o hip-hop como um movimento de e para as massas, rompendo com uma posição de um movimento marginal exclusivo de uma vanguarda negra, diz que seu projeto social é a música e apenas ela, elas quebram a narrativa do rapper como um “guerrilheiro urbano”, e o coloca no papel de um artista.
Mas muito além disso. Ao reivindicar a arte, a música feita, como um projeto social, o artista passa a ser, por conta de sua arte, um intelectual, que elabora, produz, reflete e passa a adiante uma visão de mundo. Ele ensina através da canção. Se torna responsável por educar as amplas massas através da música, mesmo que esse não seja o objetivo inicial, nem final de sua música, já que ela existe como uma expressão artística.
2.
Podemos se questionar se o músico que tem em sua música o seu projeto social seria uma espécie de educador popular freiriano. Mas encontramos com certeza a síntese possível entre a dualidade presente com a ironia machadiana de KL Jay na figura do intelectual orgânico proposto pelo italiano Antônio Gramsci.
Outro filósofo que pode entrar na discussão é Theodor Adorno. Concorde-se ou não com ele. Em sua visão a arte não pode ser separada de sua dimensão social, ela deve cumprir um papel como aparência da verdade. A arte não deve ser mero espaço de contemplação, mas sim trazer elementos de contestação e questionamento da realidade, sendo assim crítica e por consequência uma arte autêntica.
Não sabemos se Theodor Adorno consideraria o rap como algo que modificou a situação de paralisia da arte, mas com certeza o frankfurtiano teria acordo com KL Jay. Seria dito que para o artista a arte é seu projeto social, ou seja, para o rapper seu rap é o projeto social desde que seja autêntico.
Não se faz necessário para um artista, que ele tenha elaborado um projeto social em formato de ONG, movimento social, construído escolas, praças públicas ou resolvido o problema do saneamento básico na comunidade que nasceu. A arte por si só pode ser vista como este projeto no momento em que ela passa a dialogar criticamente com a questão social existente na sociedade.
O hip-hop, é parte do arsenal internacional da diáspora negra na produção de sua sociabilidade em um mundo onde a raça ainda é um elemento de hierarquia social. O hip-hop, foi e é um elemento organizador de subjetividades. A partir dele jovens negros e periféricos se entendem, se colocam e se posicionam no mundo.
É impossível falar do avanço da consciência negra, e da valorização da negritude por parte da população afro-brasileira e conjunto da sociedade, sem abrir espaço para entender o papel do hip-hop nesse processo. Podemos, portanto, falar hip-hop como um elemento que contribuiu para a massificação de ideias antirracistas e de igualdade racial no Brasil.
Emicida é parte fundamental desse processo. Tido por muitos um dos maiores rappers de todos os tempos, e principal nome de sua geração. Sua carreira foi um divisor de águas dentro do hip-hop, na massificação do gênero, na mudança literária que as letras sofreram, e na construção de um rap que fosse cada vez mais nacional.
Ao observarmos sua trajetória, e em especial suas músicas, que dão alicerce a mesma, encontramos valores éticos e estéticos que justificam a entrega do título de Doutor Honoris Causa.
3.
No campo ética, ou seja, na contribuição de valores sócio-políticos, a obra de Emicida, desde sua primeira mixtape em 2009, até seu trabalho mais recente em 2019, expressa um reflexo do tempo que vivemos a partir do lugar da população negra. Temas como emprego precário, situação de vulnerabilidade, desigualdades sociais, religiões afrobrasileiras, racismo, saúde mental, ascensão social, bem comum, violência policial, estão presentes no contexto de suas letras.
No valor estético, sua obra é notória, com capacidade literária ímpar. Com letras que fluem do gênero narrativo ao lírico, uso de diversas figuras de linguagem, de sintaxe e de figuras de pensamento, que fazem de sua música algo único. Isto, somado a utilização de outros gêneros musicais em confluência ao rap, que servem como recurso que dão caráter singular a suas produções.
Como expressão máxima de sua obra, e potencialidade de expressão educacional, podemos colocar o projeto AmarElo. Um projeto audiovisual que conta com o álbum AmarElo (2019), vencedor do Grammy Latino de 2020 na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa; o Show realizado no Teatro Municipal de São Paulo; O documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem (2020), que foi indicado ao Emmy Internacional e o podcast que discute a construção do processo criativo deste projeto.
AmarElo conecta eventos históricos à realidade contemporânea, constrói uma linha do samba para o rap, evidenciando as trajetórias de resistência da população negra no Brasil, e sua produção musical e cultural. Partindo de Mário de Andrade, e da construção do modernismo brasileiro, elabora uma reflexão sobre a construção da identidade e desigualdades raciais no Brasil, e do novo momento cultural que o país se encontra.
É de comum saber que Emicida e suas obras, sejam suas músicas, seus livros, seus projetos de produção, são reconhecidos na academia, sendo objeto de pesquisas, artigos e trabalhos de conclusão de curso. O próprio, tem reconhecimento internacional como intelectual, sendo chamado para ministrar aulas em universidades estrangeiras, como a Universidade de Coimbra, em Portugal, e na Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos.
Isto se dá pelos já citados valores estéticos e éticos de sua arte, mas também pelo impacto social da mesma. Com ela, Leandro, ajudou a modificar a realidade social de milhões de jovens brasileiros. As batalhas de rima, que o mesmo ajudou a popularizar, são formas de auto-organização dos jovens nas periferias das cidades de nosso país.
4.
Sua arte também foi elemento despertador da consciência social e racial de toda uma geração, sendo parte do processo que a psicanalista Neusa Santos definiu como torna-se negro, onde vimos pela primeira vez no Brasil se formar uma maioria social que se autodeclara negra e que coloca no combate às mazelas do racismo.
A arte de Emicida, já de reconhecido valor acadêmico, pode e deve ser usada no processo educacional e na criação de conhecimento. Afirmar isto é mostrar que a Universidade está de portas abertas para deferir outros tipos de saberes, em especial aqueles formados por fora de seus muros, em um ato de demonstração de real ligação com aquilo que a sociedade brasileira tem produzido de mais rico e valioso neste início de século.
Aimé Césaire não precisava ter sido prefeito de Fort-de-France para o efeito social de sua literatura ser reconhecida. Efeito esse que socialmente foi muito superior a qualquer projeto de lei apresentado enquanto ocupava o cargo. Do mesmo modo, Emicida não precisa ser eleito para a prefeitura de São Paulo. Os efeitos sociais e políticos de sua arte são parte da história contemporânea de nosso país. Suas letras falam por si só.
Caso não acreditem, qualquer aluno negro da universidade pode confirmar. O impacto social e cultural de suas letras na transformação que o rap nacional passou nos últimos 15 anos, e como isto influenciou o processo de luta por igualdade racial no Brasil e afirmação orgulhosa de sua negritude por parte dos afro brasileiros, o colocam como uma das mentes fundamentais para entender o Brasil, e através de sua arte, seu mais importante projeto social, como um dos grandes arquitetos de uma Nação ainda possível de se realizar.
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, principal instituição produtora de ciência de nosso estado, aquele que ostenta a capital mais racialmente segregada do país, ao conceder o título de Doutor Honoris Causa, ao músico, escritor, compositor, e intelectual orgânico Emicida, reforça em seu papel social na busca pelo reconhecimento de saberes plurais, que historicamente foram impedidos de adentrar no ambiente acadêmico.
Além de afirmar seu lugar de vanguarda na construção de uma educação que seja parte do processo de enfrentamento às desigualdades raciais e ao racismo estrutural.
Por fim, nenhum título, seja simbólico ou em papel timbrado, pode mensurar a importância da obra de Emicida na vida de milhões de brasileiros. Mas com este título a UFRGS, em nome do conjunto dos corpos negros que fazem parte de sua comunidade acadêmica, estaria agradecendo a Emicida e ao hip-hop nacional pela sua obra e contribuição na construção de nosso País. Pois além do PIB e de nossas riquezas, o Brasil é seu povo, e esse foi modificado graças ao rap e a Leandro.
*Gabriel Santos é estudante de ciência sociais na UFRGS e militante do Movimento Negro Unificado (MNU).





















