As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Infinitas faces – a construção do ator

Marcelo Guimarães Lima, SYMPLOKE, digital drawing, 2023
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EDUARDO SINKEVISQUE*

Comentário sobre o livro de Thalma Bertozzi e Roberto Cordovani

Quem assistiu a espetáculos teatrais de Roberto Cordovani já sabe que ele, para além de atuar, escreve e dirige muitos, se não a maioria de seus trabalhos.

Durante o auge da pandemia de COVID-19, Roberto Cordovani foi entrevistado por Thalma Bertozzi e elaboraram o livro Infinitas faces – a construção do ator, uma espécie de biografia, e de biografia artística mesclada com alguns conselhos a atores sejam iniciantes, sejam tarimbados.

No livro de Roberto Cordovani, há também ganchos, links, em que a entrevistadora (e redatora do texto final) tece paralelos entre a vida artística de Cordovani com a sua. Ou seja, há um texto como sendo uma segunda voz, um canto paralelo ao canto principal, ao canto do artista em questão. Não me atenho nessa segunda voz, mas é preciso destacar que a linguagem que Thalma Bertozzi imprime no livro é de grande fluidez e clareza (qualidade estilística), não deixando nada ambíguo ou de difícil compreensão.

Aprecio uma frase que Roberto me contou que sua mãe proferiu ao Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, como resposta se ela se orgulhava do filho premiadíssimo.

Roberto me disse que a mãe respondeu: “sim, mas sempre de saia”. O tom de fala foi o de uma espécie de fazer o quê? Uma espécie de resignação.

Roberto Cordovani não está em cena sempre de saia. Fez e faz vários espetáculos em que atua dando vida à personae femininas, mulheres incríveis, fortes, marcantes, importantes, como a governanta em Amar Verbo Intransitivo (que adaptou e também dirigiu para o teatro), Greta Garbo, Eva Perón (peças que escreveu e também dirigiu) etc.

Mas, personae masculinas como em o Clube do Gelo (que também dirigiu) ou no mais recente Morte em Veneza, que assina, em parceria com Vinícius Coimbra, a adaptação para o teatro. Nesse espetáculo ele faz o papel do escritor em férias que se apaixona por um jovem belíssimo. Isso, para não nos esquecermos do vilão da novela das seis, da Rede Globo de Televisão, Sebastião Quirino.

Nem sempre de saia, Roberto mostra em seu livro a versatilidade que vive no palco e fora dele como produtor, autor, diretor etc.

Fica evidente também em Infinitas faces – a construção do ator que a observação e a auto-observação são mais que atitudes produtivas para a arte de Cordovani, são postulados de vida e profissão, sendo o maior tesouro que o relato do livro pode deixar a seus leitores junto com o “ouvir o outro”.

Mais que um método de trabalho, a observação é um modo de viver de Roberto. Daí eu destacar isso como condensação de virtudes.

Em Infinitas faces – a construção do ator se encontram narrativas de circunstâncias familiares, como em qualquer biografia. Relatos do início da vida de Roberto, início dos trabalhos em arte, particularmente artes cênicas, causos e supostas razões que levaram Cordovani a ser ator, assim como a ascensão de sua carreira, sua transferência para Europa, volta ao Brasil, suas parcerias, colaboradores.

Outro aspecto típico de biografias é o caráter exemplar da narrativa. Neste sentido, o livro de Cordovani, a voz dele emanada no livro, pode servir como exemplo para outros profissionais, amadores, ou apenas interessados.

O principal conselho do (e no livro) talvez seja o que Roberto dá sobre o ator aprender a ser produtor teatral, ser realizador e viabilizador de seu trabalho, não esperar por convites para atuação.

No livro de Roberto Cordovani, vemos um garoto diferente, um adulto diferente, um ator singular, um ser maduro raro. Versátil? Penso que o qualificativo versátil não dá conta da complexidade e da completude da persona e do artista Roberto Cordovani.

Ele está em Infinitas Faces como um ator mais do que ator. Um artista completo, um artista pleno, povoado de grandes artistas, grandes textos, grandes obras, nem sempre de saia, mergulhado sempre na alma dele e das pessoas.

*Eduardo Sinkevisque é pós-doutor em teoria literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Referência

Roberto Cordovani e Thalma Bertozzi. Infinitas faces – a construção do ator. São Paulo, Magis, 2021.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Ronaldo Tadeu de Souza Airton Paschoa Leonardo Avritzer Kátia Gerab Baggio Marcelo Módolo Tarso Genro Juarez Guimarães Walnice Nogueira Galvão Ricardo Musse Roberto Bueno Annateresa Fabris Gabriel Cohn Jorge Branco João Adolfo Hansen Luiz Werneck Vianna José Geraldo Couto Slavoj Žižek Osvaldo Coggiola Luiz Marques Chico Alencar Everaldo de Oliveira Andrade Roberto Noritomi Jean Marc Von Der Weid Bruno Machado Luis Felipe Miguel Priscila Figueiredo Boaventura de Sousa Santos Manuel Domingos Neto Francisco Pereira de Farias Bento Prado Jr. José Luís Fiori Fernão Pessoa Ramos Heraldo Campos Dênis de Moraes Paulo Capel Narvai Alysson Leandro Mascaro Rubens Pinto Lyra Luiz Eduardo Soares Luiz Costa Lima Henry Burnett Remy José Fontana André Singer Marilena Chauí Gilberto Lopes Renato Dagnino Paulo Fernandes Silveira Tadeu Valadares Henri Acselrad Denilson Cordeiro Eugênio Trivinho Paulo Sérgio Pinheiro Igor Felippe Santos Antonio Martins João Lanari Bo Luiz Bernardo Pericás Anderson Alves Esteves Plínio de Arruda Sampaio Jr. Jorge Luiz Souto Maior José Machado Moita Neto Celso Frederico Marcos Silva Michael Roberts Gilberto Maringoni Leonardo Sacramento Marcelo Guimarães Lima Flávio Aguiar Sergio Amadeu da Silveira Ari Marcelo Solon Dennis Oliveira Marjorie C. Marona Celso Favaretto Thomas Piketty Marcus Ianoni Leonardo Boff Vladimir Safatle Liszt Vieira José Dirceu Francisco de Oliveira Barros Júnior João Sette Whitaker Ferreira Alexandre de Freitas Barbosa Luiz Renato Martins Mariarosaria Fabris Julian Rodrigues Eugênio Bucci João Feres Júnior Paulo Nogueira Batista Jr Flávio R. Kothe João Paulo Ayub Fonseca Ronald Rocha Tales Ab'Sáber Antonino Infranca Eliziário Andrade Jean Pierre Chauvin José Raimundo Trindade Claudio Katz Carlos Tautz Alexandre Aragão de Albuquerque Anselm Jappe Armando Boito Salem Nasser Eduardo Borges Benicio Viero Schmidt Leda Maria Paulani Lincoln Secco Manchetômetro Vinício Carrilho Martinez Berenice Bento Caio Bugiato Daniel Afonso da Silva Luciano Nascimento José Micaelson Lacerda Morais Ronald León Núñez Gerson Almeida Alexandre de Lima Castro Tranjan Rodrigo de Faria Atilio A. Boron Daniel Brazil Otaviano Helene Sandra Bitencourt Ladislau Dowbor Luiz Carlos Bresser-Pereira Mário Maestri Marcos Aurélio da Silva Érico Andrade Bernardo Ricupero Maria Rita Kehl João Carlos Loebens Eleonora Albano Andrew Korybko Yuri Martins-Fontes Carla Teixeira Milton Pinheiro Valerio Arcary Ricardo Fabbrini Afrânio Catani Fábio Konder Comparato André Márcio Neves Soares Chico Whitaker Ricardo Abramovay Marilia Pacheco Fiorillo Francisco Fernandes Ladeira Luiz Roberto Alves Ricardo Antunes Paulo Martins Antônio Sales Rios Neto Valério Arcary Lucas Fiaschetti Estevez Bruno Fabricio Alcebino da Silva João Carlos Salles José Costa Júnior Elias Jabbour Rafael R. Ioris Lorenzo Vitral Michael Löwy Eleutério F. S. Prado Fernando Nogueira da Costa Daniel Costa Samuel Kilsztajn Vanderlei Tenório Luís Fernando Vitagliano

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada