Jovem Engels

Hélio Oiticica, B33 Bólide Caixa 18 "Homenagem a Cara de Cavalo", 1965

Por FELIPE COTRIM*

Apresentação do autor e trechos do livro recém-lançado

Friedrich Engels foi um dos maiores intérpretes do século XIX. Em parceria com Karl Marx, formulou uma teoria social radical e humanista que sintetizou o pensamento filosófico, historiográfico, político e econômico precedente, o marxismo, bem como um dos maiores movimentos políticos dos últimos dois séculos, o comunismo. Contudo, antes de ser um campeão da teoria social e do comunismo, Engels atravessou um caminho de formação e evolução intelectual e política singular. Em Jovem Engels, o leitor acompanhará esse caminho engelsiano até o histórico encontro dele com Marx, no verão parisiense de 1844.

O livro sintetiza os anos de formação de Friedrich Engels, desde os primeiros ensaios de literatura de viagem e crítica literária até as primeiras reportagens sobre a situação das classes trabalhadoras na Europa e o primeiro esboço de crítica à economia política.

 

1.

Em agosto de 2016, o cineasta britânico Phil Collins viajou pelas antigas Repúblicas Soviéticas acompanhado de duas intérpretes russas, Anya Harrison e Olga Borissova, a fim de realizar o projeto de trazer Friedrich Engels de volta a Manchester. Engels viveu em Manchester em meados do século XIX durante um período aproximado de duas décadas. Foi nessa cidade que ele coletou o grosso do material para aquela que permanece uma das maiores obras sobre a questão social nas grandes cidades industriais inglesas: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Entretanto, mesmo depois de 121 anos de sua morte (1895), e apesar de sua vida ter sido bem documentada e estudada, não havia, até então, nenhum marco permanente dele na cidade de Manchester. Collins se propôs a reparar essa situação, trazendo à cidade uma estátua de Engels erigida na União Soviética.

Depois da dissolução da União Soviética, em 1991, muitas estátuas de tributo a seus estadistas, tais como Lênin e Stálin, e aos fundadores do socialismo científico, Marx e Engels – que passaram a ser vistos por muitos de seus habitantes como arquitetos de governos tirânicos –, foram derrubadas, vandalizadas e abandonadas. Com a quase permanente tensão diplomática e, depois, com o conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia (Guerra Civil no Leste da Ucrânia, ou Guerra em Donbass, 2014‑presente), a prática iconoclasta para com os símbolos soviéticos aumentou exponencialmente depois do decreto do governo ucraniano que autoriza a remoção de todos esses ícones e a proibição de execução de quaisquer discursos e canções do período soviético. Assim, o projeto de Collins teve início, coincidentemente, quando seu objeto de procura estava em séria ameaça de extinção. A proposta de Collins consistiu em encontrar essas estátuas de Engels dispersas pelo território das antigas Repúblicas Soviéticas e recolher e transportar a Manchester aquela que fosse a mais adequada.

A empreitada de Collins teve início na cidade portuária russa de Engels, às margens do rio Volga. Nessa cidade, Collins encontrou uma estátua de Engels de concreto ainda erguida nas ruínas de um antigo frigorífico. Porém, as autoridades locais estavam profundamente inseguras em entregar o ícone a um cidadão britânico em um contexto de tensão diplomática e política entre a Rússia e a União Europeia.

A busca prosseguiu por muitas das antigas cidades soviéticas, até que, na pequena cidade de Mala Perechtchepina – localizada na província de Poltava, no nordeste da Ucrânia –, Collins encontrou uma estátua de Engels, de concreto, atrás de uma fábrica de laticínios. O ícone estava partido ao meio na altura da cintura, negligenciado, embolorado, jogado na lama e manchado de amarelo e azul – as cores da bandeira ucraniana. Distintamente das desconfiadas autoridades russas de Engels, as autoridades de Mala Perechtchepina se mostraram diligentes em liberar o recolhimento e transporte da estátua que, dentro daquele contexto, havia se tornado como que um lixo tóxico.

Em meados de maio de 2017, a estátua de aproximadamente 3,5 metros de altura e duas toneladas foi carregada em um caminhão de caixa aberta que a transportou através da Europa, de leste a oeste, até Manchester.

A jornada de Collins terminou na noite do dia 16 de julho de 2017, quando a estátua restaurada de Friedrich Engels foi estabelecida em um pedestal na Tony Wilson Place, a praça principal da HOME, um centro de artes da grande Manchester.

O momento de Collins foi impecável: resgatar um ícone ameaçado em meio a uma guerra civil na Ucrânia, aproximadamente um ano antes das comemorações do bicentenário de nascimento de Marx e três anos antes do de Engels.

 

2.

Em março de 2017, Foster publicou na Monthly Review um ensaio intitulado The return of Engels, em que avaliou criticamente a forma como Engels foi muitas vezes rebaixado e depreciado pelo pensamento marxista no Ocidente e transformado em um fóssil pelo pensamento marxista soviético. Foster também demonstrou como historiadores, economistas e cientistas naturais, como E. P. Thompson, Sweezy e Gould, entre outros, restauraram a reputação de Engels como um teórico social e um estudioso das ciências naturais que contribuiu enormemente para a compreensão científica das sociedades humanas e da natureza. Adicionamos a essa lista Konder e Lukács, que estudaram a atividade de Engels como teórico e crítico da literatura, e Sartori, que investigou as contribuições engelsianas no campo da crítica do direito. Por sua vez, Foster destacou a relevância das contribuições de Engels sobre os estudos do metabolismo entre a natureza e as sociedades humanas.

Segundo observado por Foster, o restabelecimento de Engels foi fortalecido pelo renovado projeto MEGA (Marx‑Engels‑Gesamtausgabe), em que os manuscritos de ciências naturais de Marx e Engels foram publicados pela primeira vez. O resultado tem sido uma revolução na compreensão da tradição marxista clássica, muito ressoando com uma nova e radical práxis ecológica, evoluindo a partir da atual crise contemporânea (tanto econômica quanto ecológica).

E, mais adiante, concluiu: “O argumento da indispensabilidade de Engels à crítica do capitalismo contemporâneo está enraizado em sua famosa tese no Anti‑Dühring de que “a natureza é a prova da dialética”. No entanto, a tese de Engels, refletindo sua profunda análise dialética e ecológica, poderia ser apresentada na linguagem de hoje como: A ecologia é a prova da dialética – uma proposta que poucos estariam dispostos a negar. Visto dessa forma, é fácil perceber por que Engels assumiu um lugar tão importante nos debates ecossocialistas contemporâneos.

 

3.

O livro que o leitor tem em mãos visa contribuir para o progresso da pesquisa historiográfica no campo da história econômica e social a partir da vida e da obra de Friedrich Engels, tencionando examinar criticamente suas contribuições à filosofia, à historiografia, à ciência política. Logo, não consiste em uma defesa, muito menos em um ataque à obra engelsiana. Entendo que Engels é autossuficiente e não precisa da minha assistência para se defender. Sua obra e seu projeto de vida foram claros, objetivos e falam por si próprios.

Em parceria com Marx, Engels deixou como legado relevantes contribuições para o progresso das ciências sociais e naturais. Engajou-se na organização política e na formação ideológica do movimento proletário internacional, visando a efetivação do projeto moderno de emancipação humana universal; a construção de uma sociedade em que o livre desenvolvimento do indivíduo não seja um limite ao livre desenvolvimento dos demais; a superação das desigualdades econômicas; o fim do controle, da repressão e da vigilância do Estado sobre a sociedade; o restabelecimento da harmonia do metabolismo entre a natureza e o ser social e da articulação racional entre o reino da necessidade e o reino da liberdade.

*Felipe Cotrim é mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) e editor da Revista Angelus Novus.

 

Referência


Felipe Cotrim. Jovem Engels: evolução filosófica e crítica da economia política (1838‑1844). São Paulo, Viriato, 2022, 248 págs.