Lula e Javier Milei na assembleia geral da ONU

Imagem: Sam Jotham Sutharson
image_pdf

Por JIANG SHIXUE*

Esperemos que o presidente Javier Milei não lata para a árvore errada, e opte por apoiar em certo grau os esforços da ONU

1.

A Cúpula do Futuro foi aberta na sede das Nações Unidas em Nova York em 22 de setembro. Adotou o Pacto para o Futuro e seus dois anexos, ou seja, o Pacto Digital Global e a Declaração sobre as Gerações Futuras. Esses documentos são o plano diretor da ONU para enfrentar os desafios que estão por vir para a humanidade, com 56 ações cobrindo uma ampla gama de temas, incluindo paz e segurança, desenvolvimento sustentável, mudança climática, cooperação digital, direitos humanos, gênero, juventude e gerações futuras, a transformação da governança global, etc.

Eles destacam os “desafios cada vez mais complexos” para a segurança tradicional e a segurança não tradicional. Por conseguinte, a maioria dos países manifestou atitudes positivas em relação ao êxito da adoção do Pacto.

O Brasil apoia a adoção do Pacto, embora o presidente Lula tenha dito em seu discurso na Assembleia Geral da ONU que a difícil aprovação do documento demonstra o enfraquecimento de nossa capacidade coletiva de negociação e diálogo. Ele também disse que o alcance limitado do Pacto é uma expressão do paradoxo do nosso tempo: “Nós nos movemos em círculos entre compromissos factíveis que levam a resultados insuficientes”.

Em contraste com o apoio entusiástico do presidente Lula às Nações Unidas, o presidente argentino Javier Milei expressou uma atitude negativa em relação à organização global, ao Pacto e à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável em seu discurso na Assembleia Geral da ONU. Ele disse: “Não venho aqui para dizer ao mundo o que fazer; venho aqui para dizer ao mundo, por um lado, o que acontecerá se as Nações Unidas continuarem a promover políticas coletivistas, que vêm promovendo sob o mandato da agenda 2030, e, por outro, quais são os valores que a nova Argentina defende”.

O presidente Javier Milei também disse: “Uma organização que havia sido pensada essencialmente como um escudo para proteger o reino dos homens foi transformada em um Leviatã com vários tentáculos, que visa decidir não apenas o que cada Estado-nação deve fazer, mas também como todos os cidadãos do mundo devem viver”.

O presidente Javier Milei expressou sua discordância com o “Pacto do Futuro” porque considera que ele representa ideias “socialistas” e propôs uma nova “agenda de liberdade”. Ele definiu a ONU como “uma organização que, em vez de enfrentar esses conflitos, investe tempo e esforço para impor aos países pobres o que e como eles devem produzir, com quem devem se vincular, o que devem comer e no que devem acreditar, como o atual Pacto do Futuro pretende ditar”.

2.

No entanto, o presidente Javier Milei se equivoca ao optar por criticar o Pacto e a Agenda 2030.

Em primeiro lugar, o Pacto representa o compromisso da ONU não apenas de enfrentar crises imediatas, mas também de lançar as bases para uma ordem global sustentável, justa e pacífica, para todos os povos e nações. Sem dúvida, os compromissos incorporados no Pacto refletem a vontade coletiva dos Estados membros da ONU de promover a paz e o desenvolvimento mundiais, que são urgentemente necessários para a humanidade.

Em segundo lugar, o Pacto promete acelerar os esforços para alcançar a Agenda 2030, que visa a erradicação da pobreza extrema até 2030, uma intensificação da luta contra a fome, a promoção da igualdade de gênero e a educação. É por isso que ganhou grande aclamação da comunidade internacional.

Em terceiro lugar, os desafios do século XXI exigem soluções do século XXI, e uma das melhores soluções do século XXI é fortalecer a ação global de uma maneira totalmente integrada. As experiências passadas provaram a incapacidade de qualquer país responder eficazmente aos desafios políticos, económicos, ambientais e tecnológicos de hoje. Somente ações globais baseadas na força coletiva podem funcionar.

Por último, mas não menos importante, a Argentina também pode se beneficiar da implementação do Pacto, porque também enfrenta muitos problemas que o Pacto se esforçará para resolver. Portanto, esperemos que o presidente Javier Milei não lata para a árvore errada, e opte por apoiar em certo grau os esforços da ONU.

*Jiang Shixue é professor de relações internacionais na Universidade de Estudos Internacionais de Sichuan (China).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES