Por OTÁVIO ALMEIDA FILHO*
Como é possível que a Europa se curve de forma tão humilhante perante os EUA e que no Brasil ainda trinta e cinco por cento da população aplauda, vote e mande PIX para esse tumor maligno chamado Jair Bolsonaro?
“Como nos dizem os Vedas: “A verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes” (Joseph Campbell).
1.
É atribuída a Plotino uma célebre frase que diz: no mundo tudo é signo, sábio é quem sabe ler os signos do mundo. Digo que atribui-se a Plotino porque neste nosso instante histórico onde as fontes flutuam sem segurança pelas redes sociais, e que as bibliotecas podem ser falsificadas, a cautela sobre as autorias, as fontes, devem ser redobradas.
Atribuem-se frases de Machado de Assis a Carlos Drummond, de Edgar Allan Poe a Shakespeare, e vice-versa, com uma desfaçatez desconcertante. Existem Inteligências artificiais que mentem e falsificam descaradamente. Absurdos os mais delirantes são ditos com uma cerimônia que nos obriga a estender, quase ao infinito, as fronteiras das loucuras e da falta de qualquer senso. E não me refiro aos intermináveis processos hermenêuticos que permitem fabulosas interpretações dos fatos. Trata-se, pura e simplesmente, de agir de má fé, da mais absoluta falta de honestidade intelectual, decência e vergonha na cara.
Estas novas realidades caóticas, grosso modo, assemelham-se ao caos vividos por ocasião do instante em que o Deus dos hebreus, indignado com a empáfia humana em construir uma torre que alcançasse os céus, lançou seus divinos raios provocando o aparecimento de diversas línguas fazendo com que ninguém mais soubesse o que significava o que uns e outros diziam.
Essa “teoria da linguagem” religiosa, tão absurda quanto poética, vive em permanente processo de atualização. As teorias da comunicação desdobram-se tentando dar conta do fenômeno comunicacional. Desde o aparecimento do telégrafo elétrico em 1837, da fotografia em 1839, do cinema em 1895 e, antes disso dos teletipos usados pelos jornais, a humanidade construiu muitas torres de Babel e suas consequências são espantosas. Um autor que nos ensina muito sobre isto é Neil Postman no seu livro que todos deveriam ler: Divertirse Hasta Morir – El discurso público en la era del show business. Nesta obra Neil Postman mostra como essas tecnologias mudaram a face do mundo alterando nosso modo de ler, ver, pensar e sentir.
Pois foi pensando nesses tempos que exigem de nós capacidade quase sobre-humana para ler e interpretar os fatos do mundo que procurei compreender como foi que chegamos aqui aonde estamos. Com isso quero dizer: como é possível compreender que hoje o mundo possa assistir, perplexo e quase paralisado, à presença criminosa de um Trump, de um Bolsonaro. Como é possível que a Europa se curve de forma tão humilhante perante os EUA e que no Brasil ainda trinta e cinco por cento da população aplauda, vote e mande PIX para esse tumor maligno chamado Jair Bolsonaro?
2.
Não, não é por falta de avisos. Eles são claros, inequívocos, contundentes. A primavera não virá! Vocês sabiam que um dia amargo, cinza, cruel e definitivo chegaria. As ilusões dos últimos sonhos, bailes, os últimos beijos e a sublime beleza dos encontros eróticos e dos penúltimos carnavais foram anunciadas com estrondos. Algo pairava no ar. Já era possível sentir o odor fétido da fuligem penetrar com acidez os narizes inquietos e sensíveis.
Não, não foi por falta de avisos. Todas as ilusões foram criteriosamente dissipadas. A Primavera se despedia melancolicamente. E com ela as cores, as flores, e os ares puros das manhãs abandonavam, para sempre, qualquer sonho, qualquer esperança. O declínio da decência exibia suas marcas nas confusões das noites e das angústias dos corpos nos consultórios médicos. Já era tarde para sobreviver à descida ao abismo.
É verdade, é bem verdade, que os acidentes catastróficos escondem suas causas de formas misteriosas. A erupção dos vulcões, os tsunamis, os golpes de estado, uma mutação genética, todas essas coisas cruéis que podem acontecer aos homens têm, quase sempre, uma causa remota. Vulcões, tsunamis, golpes de estado, chuvas torrenciais, temperaturas de 70°, secas ou amores perdidos, todos eles são urdidos nas caladas das noites.
Mesmo com todos os avisos, a vida e a alma guardavam, no fundo do peito adormecido em ilusões, algumas esperanças. Sabemos, e como sabemos, que a vida é breve, misteriosa e cruel e que, portanto, as ilusões compõem nosso conjunto de fantasias para sobreviver ao dilúvio, ao apocalipse. Esperamos que o sol ainda nasça, que a primavera ainda ofereça o esplendor das suas cores e perfumes. Alegrias prometendo mais um verão. E também o dia em que as guerras cheguem ao fim e as frutas estejam sobre a mesa e os vinhos, mais uma vez, embriaguem nossos desejos e fantasias.
O sinal dos tempos, todos os tempos, os de longa e de curta duração, todos eles se refletiam no espelho esquálido e triste, o fim de todos os absolutos tempos. O útero de Chronos já não paria mais. Não, não foi por falta de avisos! Era chegado o fim depois do longo inverno e primavera tornara-se uma imagem dos tempos homéricos, dos tempos de esplendor que brilhou, num instante, no Éden dos nossos sonhos. As brumas já se insinuavam pelas roupas negras da noite.
Palavras novas surgiam indicando que os tempos eram outros. Elas apareciam numa rapidez que impressionava pois nomeavam as novidades que se impunham a cada dia, quase a cada hora. Lembro, ainda com certa perplexidade e espanto, que duas palavras, que não eram novas, eram sempre lembradas. Chocante e grotesco. E esta última se tornava corrente. Tudo era grotesco, e nunca foi por falta de avisos.
Alimentos, água, e frutas eram agora escassos e, com eles, os sabores e uma crescente corrupção dos paladares. Restaurantes, feiras, mercados languideciam entre o mofo das tristezas. Cores, que vibravam, desapareciam cedendo lugar a tons de cinza ora azulados, ora esverdeados. As águas que caíam dos céus, não eram chuvas, eram lágrimas, rolando das árvores com a dor das desesperanças. Proliferavam corpos abandonados nas ruas. Tristes, esquálidos e fétidos. Aqueles de mais posses ainda disfarçavam, com indisfarçável medo, os temores do que brevemente os esperava. Tudo estava contaminado. O declínio moral, ético e de todas as decências que um dia existiram, desaparecia em instantes e em todas direções.
Não, não foi por falta de avisos. Eu, você, nós sabíamos que um dia tudo terminaria assim. Sem sonhos ou promessas de mais uma vez, mais um sonho, mais um beijo, uma flor, uma fruta, uma primavera. A máquina do mundo cobrava seu preço, o consumo desvairado das viagens, das últimas praias virgens, das últimas águas doces, cristalinas e saudáveis, dos vinhos de uvas celestes, das carícias e ternuras, tudo, tudo enfim tornara-se uma pasta negra de dor e abandono. Você sabia. Não foi por falta de avisos.
As palavras, apesar das novas que surgiam no redemoinho das angústias, eram vazias, quase sempre vazias. Não davam conta de expressar como a primavera não mais iria trazer flores, perfumes e abelhas produzindo mel. Nem que os ventos trouxessem os cheiros do mato, dos sonhos e das carícias das crianças. Tudo, tudo enfim, era o oposto de vida. Tudo era doença, pavor, crueldade e desesperança. Era a falta, a dor, o abandono, a solidão. A absoluta e derradeira morte do amor. E não foi por falta de avisos.
Alguns, ainda perplexos, perguntavam pelas razões, pelos motivos de que algo assim pudesse ter acontecido. Por que, apesar de todos os avisos, ninguém foi capaz de entregar corpo e alma para evitar que a dor, a solidão e a morte viessem se instalar tão definitivamente? Mas agora era tarde para tais perguntas. Muito embora, é verdade, alguns de nós tivessem alertado, clamado e suplicado para que não permitíssemos o desastre. Em vão. Tudo foi em vão! Tratados, pesquisas, investigações, demonstrando com clareza incorruptível, foram insuficientes para deter o fim da primavera.
A poesia exibiu seus poderes superiores com as palavras mais doces, serenas e violentas mostrando que as escolhas feitas conduziriam ao fim. Mas não foram ouvidas, até mesmo foram proibidas e, como não foi por falta de avisos, o caos, sem cerimônia, instalou-se definitivamente para pôr fim a todas as primaveras das nossas vidas.
*Otávio Almeida Filho é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.
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