As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Esquecer Foucault

Mira Schendel, Sem título, 1962 - nanquim sobre papel arroz sobre cartão - 25,9 cm x 25,9 cm
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro de Jean Baudrillard

Jean Baudrillard (1929-2007) escreveu um texto bélico. Esquecer Foucault (Oublier Foucault, Paris: Éditions Galilée, 1977) acabou passando, acredito, desapercebido por aqui, pois é pouquíssimo citado, quer nos trabalhos dos que pesquisam na mesma perspectiva de Michel Foucault (1926-1984), quer nos textos daqueles que criticam a obra do pensador francês.

É pena, pois Baudrillard realiza profunda reflexão sobre o pensamento de Foucault, chegando mesmo, em alguns momentos, a complementar os caminhos esboçados por Marx e Freud – não se pode esquecer que a tradução de Contribuição à critica da economia política, de Marx, para o francês, foi realizada por Baudrillard.

Na apresentação da tradução brasileira, Muniz Sodré conta uma história de bastidor. Segundo ele, Baudrillard, amigo de Foucault, escreveu um artigo de crítica à sua obra, entregando o trabalho ao criticado e propondo que Foucault escrevesse uma réplica. Assim, ambos publicariam os artigos no mesmo número de determinada revista. Foucault gostou da ideia e disse que tudo bem. Entretanto, o tempo foi passando e ele mantendo-se em silêncio.

Baudrillard telefonou ao amigo e ouviu a seguinte resposta: “Decidi não escrever coisa nenhuma, pode publicar sozinho seu texto”. Quando Baudrillard remeteu o artigo à revista, conforme combinado com o editor, este, constrangido, lhe deu a seguinte explicação: Foucault, “intelectual de grande influência na editora, havia brandido o sinete de non imprimatur”. Baudrillard reagiu, publicando Esquecer Foucault em forma de livro numa outra editora.

Baudrillard escreve que o próprio movimento do texto de Foucault “traduz admiravelmente aquilo que se propõe: esta espiral generativa do poder, que não é mais uma arquitetura despótica, mas um encadeamento em abismo, uma voluta e uma estrofe sem origem (nem catástrofe), de extensão cada vez mais vasta e rigorosa; por outro lado, essa fluidez intersticial do poder que impregna todo o sistema poroso do social, do mental e dos corpos, esta modulação infinitesimal das tecnologias do poder (onde relações de força e sedução estão indissoluvelmente misturadas) – tudo isso se lê diretamente no discurso de Foucault (que é também um discurso do poder): ele escorre, penetra e satura todo o espaço que abre, os menores qualificativos vão se imiscuir nos menores interstícios do sentido, as proposições e os capítulos enrolam em espiral, uma arte magistral do descentramento permite que se abram novos espaços (espaço de poder, espaços de discurso) que são imediatamente obturados pelo desenvolvimento minucioso da sua escrita. Não há vazios em Foucault, nem fantasmas, nem contra correntes: uma objetividade fluente, uma escrita não linear, orbital, sem falhas. O sentido não excede nunca o que é dito: nada de vertigens; em compensação não voa nunca num texto demasiado grande para ele: nada de retórica. Enfim o discurso de Foucault é um espelho dos poderes que ele descreve” (p. 11-13).

Interpretando Baudrillard, Muniz Sodré afirma que ele “desconfia dos cartesianismos disfarçados, dos excessos lógico-racionalistas”. E acrescenta: “caminha nesse sentido a sua crítica a Foucault, que talvez possa ser resumida assim: é lógico demais pra ser verdadeiro. Ou então: enxergar tanto o poder não seria cegar-se numa relação sedutora com o próprio?” (p. 10).

A causticidade de Baudrillard prossegue quando se dedica de forma mais aprofundada à análise do poder, ou seja, ao estudar uma das questões centrais da obra de Foucault, escrevendo que quando se fala demais do poder “é porque ele não está em parte alguma”. Estendendo seu raciocínio, fala da onipresença de Deus: “a fase onde ele estava em toda parte precedeu de perto a da sua morte (…). Idem com o poder: é porque ele defunto, fantasma, fantoche (…) do qual se fala tanto e tão bem: mesmo o refinamento e microscopia da análise são um efeito de nostalgia” (p. 92-93).

Para Baudrillard, o próprio poder nem sempre se deixa levar pelo poder, “e o segredo dos grandes políticos foi saber que o poder não existe. Que ele é apenas um espaço perspectivo de simulação, como o foi o espaço pictórico da Renascença, e que se o poder seduz, é justamente (…) porque é simulacro, porque se metamorfoseia em signos, se inventa baseado em signos (…). O segredo da inexistência do poder, segredo dos grandes políticos, é também o dos grandes banqueiros, de saber que o dinheiro não é nada, que o dinheiro não existe, o dos grandes teologistas e inquisidores, de saber que Deus não existe, que está morto. Isso lhes dá uma superioridade fabulosa. Quando o poder descobre esse segredo e se lança esse próprio desafio, então se torna verdadeiramente soberano. Quando desiste de fazê-lo e procura encontrar-se uma verdade, uma substância, uma representação (na vontade do povo etc.), perde então a soberania, e são os outros que lhe devolvem o desafio da sua própria morte, até que ele pereça efetivamente dessa presunção, desse imaginário, dessa superstição de si próprio como substância, desse desconhecimento de si mesmo como vazio, como reversível da morte. Antigamente matavam-se os chefes, assim que eles perdiam esse segredo“ (p. 90-92).

Em vários momentos de Esquecer Foucault o leitor provavelmente se sentirá meio desorientado, pois Baudrillard, além de escrever num estilo não dos mais diretos, se vale de categorias psicanalíticas e, também, de ideias centrais de Marx, do próprio Freud e de vários filósofos, realizando uma verdadeira abordagem transdisciplinar.

Apesar das dificuldades e de uma série de discordâncias vivenciadas ao longo desse percurso analítico, não se pode deixar de constatar a genialidade e a erudição de Baudrillard, bem como reconhecer que Foucault se deparou, no caso, com um de seus críticos mais severos e argutos – talvez, por se achar plenamente empoderado, não se deu ao trabalho de responder a Baudrillard…

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

Referência


Jean Baudrillard. Esquecer Foucault. Tradução: Cláudio Mesquita e Herbert Daniel. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Vanderlei Tenório Francisco Fernandes Ladeira Daniel Costa Renato Dagnino Kátia Gerab Baggio Remy José Fontana Daniel Afonso da Silva Paulo Capel Narvai Luís Fernando Vitagliano João Sette Whitaker Ferreira Marilena Chauí Atilio A. Boron João Adolfo Hansen Marjorie C. Marona Gerson Almeida Ricardo Antunes Rubens Pinto Lyra Juarez Guimarães Airton Paschoa João Feres Júnior Marcos Silva Lucas Fiaschetti Estevez Salem Nasser Antonio Martins Annateresa Fabris Luciano Nascimento Sandra Bitencourt Mariarosaria Fabris Roberto Bueno Daniel Brazil Ronald León Núñez Ronaldo Tadeu de Souza Yuri Martins-Fontes Denilson Cordeiro Vinício Carrilho Martinez Luiz Marques Roberto Noritomi Francisco de Oliveira Barros Júnior Ricardo Abramovay Alexandre de Lima Castro Tranjan Jorge Branco João Lanari Bo Carlos Tautz Eliziário Andrade André Singer Armando Boito José Dirceu Eleonora Albano Paulo Martins Osvaldo Coggiola Luiz Roberto Alves José Geraldo Couto Milton Pinheiro Dennis Oliveira Flávio R. Kothe Mário Maestri Slavoj Žižek Antonino Infranca Plínio de Arruda Sampaio Jr. Boaventura de Sousa Santos João Carlos Salles Eugênio Bucci Henry Burnett Dênis de Moraes Valério Arcary Bruno Machado Alysson Leandro Mascaro Leonardo Avritzer Caio Bugiato Jean Marc Von Der Weid Anderson Alves Esteves Paulo Fernandes Silveira Henri Acselrad Julian Rodrigues Sergio Amadeu da Silveira Otaviano Helene Liszt Vieira Eduardo Borges André Márcio Neves Soares Marcos Aurélio da Silva Francisco Pereira de Farias José Machado Moita Neto Rodrigo de Faria Lorenzo Vitral Samuel Kilsztajn Manuel Domingos Neto Vladimir Safatle José Costa Júnior Paulo Nogueira Batista Jr Priscila Figueiredo Luiz Werneck Vianna José Raimundo Trindade Marcelo Guimarães Lima Fernão Pessoa Ramos Benicio Viero Schmidt Everaldo de Oliveira Andrade Érico Andrade Michael Löwy Anselm Jappe Ladislau Dowbor Fernando Nogueira da Costa Luis Felipe Miguel Fábio Konder Comparato Ricardo Musse Ronald Rocha Marilia Pacheco Fiorillo Luiz Bernardo Pericás Gabriel Cohn Luiz Eduardo Soares Flávio Aguiar Antônio Sales Rios Neto Rafael R. Ioris Marcelo Módolo José Micaelson Lacerda Morais Ari Marcelo Solon Lincoln Secco Leonardo Sacramento Chico Alencar Claudio Katz Carla Teixeira Andrew Korybko Alexandre de Freitas Barbosa Thomas Piketty Leonardo Boff Bruno Fabricio Alcebino da Silva José Luís Fiori Valerio Arcary Manchetômetro Eugênio Trivinho Ricardo Fabbrini Marcus Ianoni Afrânio Catani Gilberto Maringoni Gilberto Lopes Luiz Renato Martins Tarso Genro Elias Jabbour Luiz Costa Lima Maria Rita Kehl Tales Ab'Sáber Igor Felippe Santos Walnice Nogueira Galvão Michael Roberts João Paulo Ayub Fonseca Heraldo Campos Celso Favaretto Berenice Bento Tadeu Valadares Leda Maria Paulani João Carlos Loebens Celso Frederico Chico Whitaker Bernardo Ricupero Luiz Carlos Bresser-Pereira Eleutério F. S. Prado Alexandre Aragão de Albuquerque Bento Prado Jr. Jean Pierre Chauvin Jorge Luiz Souto Maior Paulo Sérgio Pinheiro

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada