O apelo neofascista

Imagem: Sofi Polishchuk
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Por THOMAS AMORIM*

Entre ruínas materiais e afetivas, o autoritarismo reaparece como espetáculo, promessa de ordem e catarse da frustração social

“As condições prevalescentes em nossa sociedade tendem a transformar a neurose e até mesmo a loucura moderada em uma mercadoria que o doente pode facilmente vender bastando que ele descubra que muitos outros têm uma afinidade com sua própria doença. O agitador fascista é usualmente um exímio vendedor de seus próprios defeitos psicológicos… Assim como a dona de casa, que apreciou os sofrimentos e as boas ações de sua heroína favorita durante quinze minutos da transmissão, sente-se impelida a comprar o sabão vendido pelo patrocinador, assim também age o ouvinte da propaganda fascista: após obter prazer com ela, aceita a ideologia representada pelo locutor como forma de gratidão pelo show. “Show” é de fato a palavra certa” (Theodor Adorno, Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, p. 144).

1.

No streaming, no cinema ou na literatura, cenas espetaculares de ficção científica têm ocupado parte significativa de nosso imaginário cultural e afirmado a atratividade do colapso da sociedade tal como a conhecemos: um meteoro aniquila grande parte da civilização, uma guerra de destruição total transforma o cotidiano em caos, a ditadura das máquinas se implanta, alienígenas dominam a humanidade ou um desastre climático faz a civilização moderna voltar à fase mais crua da luta pela sobrevivência – todos esses enredos exemplificam a irresistível sedução pelos escombros em nossa época.

A distopia tem se mostrado a língua franca da sociedade contemporânea não apenas na crítica sociológica e na ficção científica, mas também nos telejornais, nos reality shows, nos portais de entretenimento ou no feed das redes sociais. Quando buscamos nos informar ou mesmo nos distrair, somos arrebatados por um mundo de violência, agressividade, corrupção, assédio e concorrência.

A atmosfera pessimista se torna cotidiana em meio às ruínas da gramática liberal e do otimismo oficial que eram norma até há pouco, e podemos notar que o mal-estar vai se normalizando desde as palavras do cotidiano ou do entretenimento até a linguagem de políticos que proclamam “acabar com tudo o que está aí”.

A sociedade neoliberal já não esconde a degradação que provoca e os seus efeitos psíquicos – que incluem ansiedade, depressão, burnout, vícios, desmotivação, culpa e sentimento de insuficiência – também podem justificar aflição nos produtos culturais. Mas, além dos motivos realistas das representações, talvez haja certo fascínio em constatar o pandemônio, a recessão econômica, a insignificância humana, a destruição ambiental, o desalento dos sujeitos, a crise política e os estilhaços da moralidade pública.

2.

Anna Kornbluh nomeou como “imediatez” a atual corrosão das instituições e símbolos coletivos que têm levado à hostilidade competitiva desenfreada, aos discursos de ódio, às humilhações públicas e às linguagens estéticas apelativas e superficiais.[i] A autora chama de “capitalismo tardio demais” esse estágio em que as expectativas estéticas e ideológicas implodem, mas deveríamos também nos questionar sobre o impacto político de tal reconfiguração do imaginário. Como esse prazer da destrutividade tem seduzido as massas e o desejo fascista renascido tem sido transformado em objeto de consumo?

O fascismo histórico propagandeou o desenvolvimento da produção e a prosperidade seletiva, ou seja, a expansão do capitalismo ensejou o contexto em que se tornou possível fortalecer uma moral guerreira que celebrava a potência dos grandes homens e aspirava à construção de impérios.

O futurismo italiano fez a celebração afetada da máquina e da velocidade como fins em si mesmos num contexto em que elas reverberavam o sentimento histórico de ruptura e inovação. Coube aos líderes fascistas de então associar o impulso e a euforia do progresso ao culto guerreiro à autoridade, o desprezo pelo atraso aos outsiders e a potência científica à pseudociência racial que desprezava a figura da alteridade para se engrandecer sem contradição.

O desejo neofascista não comercializa exatamente os mesmos materiais ideológicos pois já não se encontram disponíveis as ilusões ascendentes daquele contexto, que se baseavam no processo de modernização, na crescente concentração urbana e na potência industrial nascente. Hoje, o contraste entre passado, presente e futuro se encontra esmaecido pela amnésia histórica pós-moderna e o projeto neofascista tem assumido uma feição mais dispersa e niilista.

No entanto, como sugere Franco Berardi, a completa dissolução dos laços de solidariedade comunitários, o desenvolvimento de técnicas de controle e a plastificação mercantil dos sujeitos parecem ter criado indivíduos mais suscetíveis à dessensibilização fascista e reduzido o potencial de resposta à sua desumanização.[ii]

Mas a conquista do imaginário coletivo por tais forças destrutivas só se faz possível quando a ordem anterior já foi consumida por suas próprias falhas e apenas a perversidade de um líder autoritário sacia a ânsia por vingança contra a leis do velho mundo. Dessa forma, a atomização e a deterioração social são chaves para se compreender como os demagogos vendem seus produtos salvacionistas e, de formas tão astutas quanto irracionais, capturam o desejo das massas. Os momentos de crise do capitalismo, de instabilidade política, disfuncionalidade do trabalho, queda da renda e degradação social são os momentos em que o fascismo tende a florescer.

3.

Na Alemanha do século XX, a humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, a recessão de 1929 e a esmagadora derrota das organizações de trabalhadores no espaço de apenas uma década formaram o cenário de uma tempestade perfeita.

A reversão dos projetos imperiais e modernizadores alemães, a traição do SPD, a derrota dos conselhos operários e, em geral, a decadência da nação tornaram possível tanto a captura da imaginação política pelo ressentimento quanto o triunfo do ódio genocida proposto pelo partido nacional-socialista e por Hitler. O colapso do país alimentou um ímpeto de destrutividade que chegaria aos extremos da irracionalidade perversa em que a “Solução Final” se sobrepôs ao esforço de guerra.

Nos Estados Unidos do XXI, o declínio relativo de seu domínio econômico, a crise de 2008, o fracasso das correntes social-liberais e a impotência das forças de resistência são processos em curso que criaram uma considerável base para Donald Trump e o movimento MAGA (Make America Great Again).

A corrosão das instituições e atual ascensão neofascista se deu de forma gradual, com a dispersão e fragmentação dos movimentos sociais após o advento do neoliberalismo e a derrota do socialismo real. A desmoralização coletiva se mostrou um ingrediente mais decisivo do que o malogro de alternativas revolucionárias.

Claramente, os efeitos desse longo processo se fazem sentir hoje em todo o Ocidente e se tornam mais sombrios à medida que não há oposição à vista, não há Stalingrado e, na maior parte dos lugares, não há organizações de massa com projetos concorrentes. Os mercadores do ódio passaram a deter o monopólio das perspectivas antissistema num momento em que a demanda por alternativas não tem previsão de parar de crescer.

A agressividade aparece como solução mágica para todos os defeitos da miséria social porque ela tanto promete atacar a insatisfação popular quanto pelo fato de ser, em si, um entretenimento que aplaca a infelicidade. Um indivíduo forte deve comandar para que todos os outros estejam protegidos contra a insatisfação cristalizada na figura do outro.

O líder autoritário é visto como capaz de colocar ordem no caos, de reproduzir na sociedade como um todo a lógica patriarcal da família e de expurgar da comunidade o indesejado personificado. O culto à personalidade e o masculinismo se complementam no sentimento de que apenas o pater familias pode retomar o equilíbrio social contra os dissidentes que seriam responsáveis pelo mal-estar comunitário.

A alquimia de todo fascismo é unir o individualismo e a comunidade, o mérito e o pertencimento, conferindo sentido para o ressentimento através de uma “ambiguidade estratégica”, de modo que a hierarquia separa a todos, mas que haja unidade da maioria contra uma escória bem delimitada.

O grupo étnico, a religião, a orientação sexual, a posição política são todas imagens de alteridade que podem servir à demarcação clara de um antagonista amedrontador o suficiente para justificar a destruição preventiva. Naturalmente, o essencialismo que toma a identidade alheia como atestado de propensões deletérias permite resguardar a identidade dominante como benigna, representar perversamente a fratura social e, sobretudo, defender a propriedade e os interesses de classe em meio às crises.

4.

O apelo do discurso neofascista reside em tal união entre o desejo regressivo e o interesse material. O seu aspecto decisivo é o “pessimismo antropológico” que desacredita a razão e reduz as relações humanas à concorrência entre as raças, os povos e os indivíduos na lógica do darwinismo social. Todo universalismo é ofensivo, porque o fascismo radicaliza a premissa liberal de que o egoísmo e a competição são a base da natureza humana.

Como poderia alguma conquista econômica, social ou científica ser benéfica para todos quando a própria ideia de humanidade comum foi descartada e se compreende que todos são competidores?

Uma vez legitimada a assimetria e posta a desigualdade crescente, o processo de essencialização é necessário: “Aqueles que se beneficiam das desigualdades são frequentemente sobrecarregados por certas ilusões que os impedem de reconhecer a contingência de seus privilégios. Quando as desigualdades se intensificam, essas ilusões tendem a entrar em metástase. Que ditador, rei ou imperador não suspeitou ter sido escolhido pelos deuses para a sua função? Que poder colonial não alimentou ilusões de superioridade étnica, ou a superioridade de sua religião, cultura ou modo de vida, superioridade que supostamente justifica suas expansões e conquistas imperiais?”.[iii]

A auto-organização dos trabalhadores é combatida justamente por expressar um princípio de solidariedade que ameaça o núcleo do desejo autoritário e, na verdade, “a aversão pelos sindicatos é um tema tão importante na política fascista que o fascismo não pode ser totalmente compreendido sem um entendimento disso”.[iv] Os liberais pensaram que o liberalismo, o nazifascismo e o socialismo soviético foram projetos alternativos da modernidade, ou seja, a derrota nazista e a implosão socialista seriam provas da superioridade de seu sistema.

Deveríamos compreender, no entanto, as tendências fascizantes, e também as socializantes, como latências do capitalismo que se manifestam nos momentos de crise e apontam para os princípios antagônicos da hierarquia ou do igualitarismo.

5.

As instituições oficiais da democracia liberal são o negativo do fascismo até o momento em que a austeridade, a intransigência e as medidas de exceção se fazem necessárias para proteger o “interesse nacional”, ou seja, quando o braço forte do Estado se torna o fascio. Se é verdade que a esfera da circulação é o “verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem” e “o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham”[v], sabemos bem que o paraíso se transforma em inferno quando adentramos o terreno oculto da produção, a ditadura do labor.

O lado sombrio da utopia liberal é bem reconhecido pelos tiranos que buscam ampliá-lo para a sociedade como um todo, tornando a fábrica o modelo da totalidade da vida social: “No domínio da iniciativa privada (bem como das forças armadas), o nacional-socialismo reconheceu uma estrutura autoritária familiar que sua política poderia explorar para fins de propaganda […] Hitler enfatizou que os industriais deveriam apoiar o movimento nazista, uma vez que as empresas já funcionavam de acordo com o ‘princípio do líder’, o princípio do Führer”.[vi]

Dessa forma, compreendemos que o neofascismo não é uma perspectiva estranha ao liberalismo, mas um desdobramento específico de suas tensões internas. Os discursos social-liberais também têm como pressuposto a fragmentação das expectativas coletivas, mas, enquanto eles insistem em manter as aparências de um mundo compartilhado e democrático, os líderes autoritários preferem ritualizar a divisão. A hipocrisia dos primeiros encontra resposta no charlatanismo dos últimos.

Slavoj Žižek aponta que o desembaraço de personagens como Donald Trump produz o prazer da obscenidade, a normalização do absurdo, como se as suas patologias lhe permitissem maior desprendimento das diretrizes caducas de outro tempo. O seu carisma provém dessa liberdade desregrada que evoca em gestos e palavras, encenando uma independência que é a desconexão em relação a qualquer norma de empatia.[vii]

Quando Donald Trump fala de “imigrantes criminosos”, por exemplo, não pensa em subdividi-los a partir de uma categoria universal, mas em fundir os dois termos, afirmar que os imigrantes são essencialmente criminosos e legitimar a política violenta do ICE (Serviço de Imigração e Controle) contra essas minorias.

A “permissividade pós-moderna” é o caráter vanguardista dos líderes neofascistas e o seu caráter cômico se baseia na banalidade com que defendem a violência e a “lei do mais forte”, enquanto acenam com vagas promessas de recompensas para aqueles que se alinharem aos mais fortes[viii]. O seu humor já não é a quebra de expectativas, mas o desengano com qualquer expectativa, a transformação das ruínas em espetáculo. Eles transfiguram o caráter crítico da comédia em riso a favor da ordem, mas a transgressão dos limites, o irracionalismo e o individualismo parecem até aqui ter impedido sequer a sua coordenação como nos partidos de massa do século XX.

O show dos neofascistas é a gratificação imediatista no contexto de frustração generalizada, onde performar a desarmonia coletiva é extravasar uma pulsão agressiva que já não pode ser sublimada em meio à situação de precariedade crescente.

O descrédito de alternativas, o alargamento da fronteira dos discursos aceitáveis e o prazer pelo abjeto e escatológico são todos sintomas mórbidos do crescente autoritarismo que domina o cenário de colapso da antiga ordem social. O apelo do neofascismo é a zombaria da miséria neoliberal, mas o seu objetivo é transformar a comédia em terror.

*Thomas Amorim é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor substituto de sociologia na Universidade de Brasília (UnB).

Notas


[i] KORNBLUH, Anna. Imediatez: ou o Estilo do Capitalismo Tardio Demais, São Paulo: Boitempo Editorial, 2024.

[ii] BERARDI, Franco. Depois do Futuro, São Paulo: Ubu, 2019.

[iii] STANLEY, Jason. Como Funciona o Fascismo: a Política do “nós” e “eles”, São Paulo: L&PM, 2018, p. 83.

[iv]  STANLEY, Jason. Como Funciona o Fascismo: a Política do “nós” e “eles”. p. 165.

[v] MARX, Karl. O Capital: Livro 1 – O processo de produção do capital, São Paulo: civilização Brasileira, 1998, p. 322.

[vi] STANLEY, Jason. Como Funciona o Fascismo: a Política do “nós” e “eles”, p. 173–174.

[vii] RUDA, Frank. Fascist Libertarianism: Žižek and the Present. Crisis & Critique, v. 12, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.crisiscritique.org/storage/app/media/2025-08-25/frank-ruda.pdf.

[viii] ŽIŽEK, Slavoj. Trump, “um canalha cômico e carnavalesco” que “promove o grande capital”, disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/646154-trump-um-canalha-comico-e-carnavalesco-que-promove-o-grande-capital-artigo-de-slavoj-zizek.

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