O primeiro quarto do século XXI

Imagem: hao chen
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Por EMIR SADER*

A análise deste primeiro quarto de século revela uma mudança fundamental na correlação de forças internacionais e uma crise de subjetividade que ameaça converter sujeitos de direitos em meros membros da esfera mercantil

Chegamos ao primeiro quarto do século. Já é possível dizer o que o caracteriza, pelo menos até aqui. Especialmente em comparação com o século passado.

O século XX foi um século norte-americano. Os Estados Unidos saíram vitoriosos da Segunda Guerra Mundial como a única superpotência no mundo. Parecia repetir o feito da Inglaterra em grande parte do século XIX.

O episódio que impediu que isso acontecesse foi a capacidade da URSS de ter a bomba atômica, que os Estados Unidos haviam explodido no Japão, para demonstrar sua superioridade militar.

Instalou-se o equilíbrio militar que caracterizaria a Guerra Fria, o que não impediu que se instalasse a hegemonia norte-americana nos planos econômico, tecnológico e político. Foi a era de ouro da hegemonia norte-americana no mundo.

Uma das características marcantes deste século, ao contrário, é o declínio ou a decadência da hegemonia norte-americana. Tanto no plano econômico, como tecnológico e político, além de se manter o equilíbrio no plano militar. É um fenômeno de uma dimensão extraordinária, que altera a correlação de forças em escala mundial.

Antes de tudo porque o novo equilíbrio mundial, característico da nova Guerra Fria, se dá em todos os planos: econômico, tecnológico, político, além do militar. Pela primeira vez, desde que surgiu como superpotência, os Estados Unidos se vem diante de uma situação como essa.

Se conta que os norte-americanos começaram a se dar conta dessa mudança no plano das vidas pessoais, quando se deram conta de que as novas gerações já não viveriam melhor que as anteriores, com o que eles tinham se acostumado ao longo de muitas décadas. Um sinal forte do seu declínio como potência mundial.

Os Estados Unidos tiveram que encarar o surgimento de um bloco como nunca eles tinham visto: os Brics. Um bloco que contém a força econômica e tecnológica da China, a força militar da Rússia, a capacidade de articulação política do Brasil, ao que se somam dezenas de outros países, entre eles países petroleiros do mundo árabe, antes aliados estreitos dos Estados Unidos.

Um bloco que representa o fenômeno mais importante em todo o que corre do século atual. Nunca esse tipo de aliança havia existido. O espírito triunfante dos Estados Unidos desapareceu no discurso de Donald Trump, substituído pelo discurso da necessidade dos EUA defenderem, antes de tudo, seus próprios interesses, voltando-se sobre si mesmos.

Uma postura que os Estados Unidos nunca haviam tido. Até aqui eles sempre defenderam a ideia de que eles têm interesses em todas as partes do mundo. E quando não as tinham, as criavam, para intervir em qualquer lado do planeta em que tinham capacidade de agir. Passaram a um discurso do imperialismo do século XXI, adequado ao seu declínio e ao surgimento dos Brics.

Essa a mudança fundamental do mundo neste primeiro quarto do século XXI. Uma mudança que se projeta para, pelo menos, toda a primeira metade do século. E cujo desfecho desembocará no mundo que teremos no final do século XXI.

Cidadãos ou consumidores?

E tem sempre a historia do cara que perdeu a consciência e quando acordou perguntou onde estava. Responderam para ele: No shopping center. Ele achou que estava localizado. Saiu andando e tudo era muito familiar para eles: as mesmas marcas de lojas, de restaurantes, de farmácias, de bancos.

Mas não tinha onde ele estava, em que cidade, em que país, em que mundo? Lembrou que todos os shopping centers que ele conheceu, em tantas cidades e países diferentes, eram todo iguais, com as mesmas marcas, os mesmos tipos de vitrines.

Aí pensou: Mas vou comprar algo e pagar com a moeda nacional. Mas já não havia moeda. Tudo era por Pix ou por cartão, como em qualquer outra cidade ou país.

Voltou para a mesma situação. Estava igualmente perdido. Em que cidade? De que país?

Ficou circulando pelos corredores e se perdeu. Todos eram iguais, as mesmas lojas, as mesmas marcas, os mesmos produtos.

Quem era ele? O que o distinguia das outras pessoas?

Quando punha o pé dentro de um shopping center, se transformava. Já não tinha mais nada a ver com a cidade de onde vinha. Já não tinha mais nada a ver com as pessoas da cidade de onde vinha.

Seus vínculos passavam a ser com os outros consumidores de outros shopping centers, na Califórnia, na Bélgica, em Campinas, através das mesmas marcas, que definem sua identidade e sua sociabilidade.

Os próprios cinemas deixam de ser cinemas de ruas, para ser cinemas de shopping centers, com os grandes filmes de sucesso de Hollywood. Uma vez que se instala um shopping numa cidade, o pequeno comércio do centro desaparece, os cinemas de rua desaparecem. Tudo se transfere para os shopping centers. Os próprios centros tradicionais das cidades tendem a se deteriorar, as pessoas deixam de frequentá-los.

Os shopping centers são a utopia do neoliberalismo. Um espaço em que tudo é mercadoria, em que tudo se vende, tudo se compra. A única exceção são os lugares em que se pode deixar as crianças, para que não atrapalhem os adultos nas suas compras. Até as garagens, que serviam para que as pessoas se locomovessem até os shopping centers, passaram a ser cobradas.

Mas, uma vez chegadas ao shopping center, as pessoas estão protegidas: do sol, da chuva, do vento. Dos mendigos das ruas, das buzinas dos carros, dos ladrões à mão armada.

No shopping center as pessoas podem fazer tudo o que precisam nas suas vidas: tomar café, almoçar, jantar, consumir tudo o que consideram que precisam. Só faltam a maternidade, onde possam nascer, e o cemitério, onde possam ser enterrados.

Os shopping centers permitem que as pessoas possam viver sua vida inteira. Tem apenas que renunciar à sua individualidade. Deixarem de querer passar de indivíduos a cidadãos, isto é, sujeitos de direitos, membros de uma democracia. Abandonar a ideia de serem membros da esfera pública, cidadãos.

Tem que se assumir definitivamente como consumidores, como membros da esfera mercantil, consumidores, que buscam ter acesso à maior quantidade de bens possíveis. Eis um grande dilema do nosso tempo.

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]

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