Os casos Poze do Rodo e Léo Lins – parte II

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Por JOÃO GABRIEL GASPAR BALLESTERO*

O debate sobre censura a artistas revela menos sobre os casos em si e mais sobre a crise ideológica de uma esquerda que, ao adotar lógicas punitivas, esvazia sua potência revolucionária e se espelha no adversário

Na primeira parte deste ensaio, examinei os argumentos pró-liberdade de expressão, de um lado e de outro do debate sobre os casos Poze do Rodo e Léo Lins. Passo agora à consideração do que dizem os defensores, novamente de um lado e de outro, da censura a tais artistas.

Farei um balanço do que vimos até aqui e ofereceremos indicações, úteis para futuros trabalhos que venham nessa mesma linha de pesquisa, sobre o que pode significar, sobretudo para a esquerda, teórica e politicamente, o fenômeno que viemos discutindo, qual seja, esquerda e direita valendo-se dos mesmos argumentos de forma cruzada, digladiando-se sobre episódios que diferem apenas na superfície.

Argumentos pró-censura

Quanto ao caso Poze do Rodo, aqueles que se posicionam a favor da sua censura valem-se, em geral, de argumentos moral-tradicionalistas, indicando que suas músicas, mais do que problemáticas porque apologéticas ao crime – e por decorrência disso, na verdade -, contribuiriam para a desvirtuação da juventude brasileira, sobretudo da sua fração mais vulnerável socioeconomicamente, que vive em favelas.

Tomem-se os seguintes comentários feitos sobre o tema por Amanda Vetorazzo, militante do MBL e vereadora em São Paulo pelo União Brasil, no X, e pelo instituto neoconservador Novas Ideias em Segurança Pública (NISP), no Instagram, para ilustrar o que dissemos: segundo Vetorazzo, “Desde menor sou Comando, nós é relíquia / Nós tem Glock, tem AK, 62 com mira laser / Terror dos alemão, é os moleque da 13”.

Essas são algumas das músicas do MC Poze do Rodo que fazem apologia explícita ao crime. “Eu, @KimKataguiri e @GutoZacariasMBL entramos com uma ação conjunta pedindo a remoção IMEDIATA de músicas com apologia ao crime organizado das plataformas de streaming. Chega de normalizar a narcocultura. O brasileiro não aguenta mais conivência com o crime”.

Já segundo o NISP, “Poze não contou piada, mas sim, faz continuamente apologia ao crime, influenciando milhões de jovens a entrar pro (sic) mundo do crime, exaltando as facções e (inaudível) de cultura do submundo do crime na favela”.

Más allá que a simples defesa da censura a Poze, importa notá-lo, houve já movimentos, nos círculos conservadores, de se produzir estudos (mais ou menos virtuosos intelectualmente que sejam) sobre o tema. Tome-se, como exemplo, o artigo A diferença entre Oruam, Poze do Rodo e Racionais MCs: a cultura importa?, escrito por Rafael Erthal e publicado no sítio web do NISP.

Nele, a partir do pensamento de Thomas Sowell e Theodore Darymple – este último senior fellow do think thank neoconservador estadunidense Manhattan Institute –, é defendida a tese de que, de um lado, a erosão do núcleo familiar biparental, a perda da disciplina escolar e a decadência da cultura (até então supostamente pautada pela valorização do esforço individual), e, de outro, a substituição mesma da cultura “de elite” – segundo o autor, caracterizada por ser “erudita, intelectual e promotora do desenvolvimento social e da riqueza” – pela “subcultura deliquente”, no posto de farol da sociedade, tudo isso-se resumindo-se na decadência cultural associada, nos Estados Unidos, ao surgimento do Gangsta’s Rap e do Thug Life, trouxe inúmeros problemas sociais, sobretudo para comunidades mais vulneráveis socioeconomicamente – algo que se passou, da mesma forma, no Brasil, com o funk.

Segundo Erthal, “elementos como vulgaridade na linguagem e no vestuário; irresponsabilidade pessoal por seus atos; desdém por tradições; consumo orientado pela agressividade e pela sexualização precoce; e dissolução dos laços familiares e da disciplina moral – todos próprios de uma “subcultura deliquente” – provocaram enormes mudanças, todas para pior (…)”.

O mais grave nisso tudo seria então o fato de que as elites, achegando-se a essa “subcultura deliquente” e incentivando-a, acabariam por eternizar a condição depauperada daquelas comunidades mais marginalizadas[i] – sobretudo transpondo-se esse cenário para o Brasil. Nesse sentido, “se a subcultura deliquente, estimulada por gêneros musicais como Gangsta Rap, provocou consequências severas para a população negra (principalmente os mais jovens) nos Estados Unidos, país desenvolvido e provido de mecanismos socioeconômicos muito melhores que os brasileiros, o que dizer das consequências dessa subcultura em um país pobre e extremamente desigual como o Brasil, sem arcabouço social adequado? Podemos esperar desfechos ainda mais trágicos, considerando a realidade brasileira e o alcance que esse estilo musical – representado por Oruams e Pozes do Rodo – tem em comunidades socialmente vulneráveis (como as favelas em geral).

Pois bem. Já nos posicionamentos pró-censura contra Léo Lins, por outro lado, encontramos sobretudo o argumento de que, mais grave do que promover o ódio contra minorias sociológicas – em verdade, mais essencialmente que isso –, teria Lins, em seu espetáculo Perturbador, trabalhado em prol da reprodução de visões de mundo e, pois, de uma dada forma de sociedade que a muitos grupos lhes pereceria, seria ou já fora excludente.

Em outras palavras, o comediante, ainda que seja um personagem, quando sobre o palco, mesmo assim ainda teria função política – em tendo-a a arte, de modo geral –, de modo ele pode e deve ser responsabilizado por aquilo que representa, já que militante de tais ou quais ideias, mesmo que inconscientemente.

Jones Manoel, em um vídeo disponibilizado em seu canal no YouTube (Farol Brasil) auto-denominado de esquerda revolucionária, vai exatamente nessa linha, ao comentar o caso – fazendo, porém, aqui e ali, também certos juízos de valor que apenas turvam a visão, porque impregnadas de rasteira subjetividade, como ao dizer que as piadas de Lins são, simplesmente, “ruins”.

Balanço e indicações

Ao longo deste ensaio, dividido em duas partes, mostramos de que modo esquerda e direita vêm valendo-se, de forma cruzada, dos mesmos argumentos, em episódios envolvendo o debate sobre liberdade de expressão, para defenderem suas posições e criticarem a dos seus oponentes.

Gostaríamos, agora, para concluir este trabalho, de avançar um pouco mais nessa discussão, problematizando quê significa, sobretudo para a esquerda, a qual historicamente teve em suas mãos uma grave função política de contestação social, tanto passar a defender o status quo, pondo-se a favor de uma liberdade de expressão restrita em prol de dada “ordem”, como deixar-se esgotar, no debate público, digladiando-se com uma direita vulgar em assuntos que não passam de leviandades.

O primeiro ponto é mais fácil de ser observado, uma vez a esquerda brasileira atual esteja sob hegemonia do que convencionou-se chamar “esquerda liberal”, cuja bandeira maior – o identitarismo – sustenta-se no mastro do reformismo. Já o segundo, mais difícil de se aperceber, esperamos haver explicitado nas seções anteriores deste ensaio, quando discutimos quão semelhantes, em essência, são os casos Léo Lins e Poze do Rodo, a despeito do engajamento, de ambos os lados do espectro político, por condenarem ou defenderem a um ou a outro, de forma cruzada, devido à sua aparente dessemelhança.

Ambos tais pontos permitem-nos acessar a falha histórica que constitui a “esquerda liberal” enquanto herdeira do socialismo, seja por aliar-se ao Estado burguês, ainda que na melhor das intenções – para intentar proteger minorias sociológicas de violências praticadas desde há muito contra elas –, desmobilizando, assim, as massas, e deixando escorrer por entre seus dedos a capacidade de transformação social; seja por permitir-se vulgarizar-se e decair ideologicamente, o que apenas aumenta a vazão, por entre seus dedos, de qualquer capacidade revolucionária que eventualmente ainda tivesse esta facção política, porque descendente do socialismo.

Qualquer trabalho que busque discutir a esquerda de forma séria tem, necessariamente, ao nosso entender, que passar por essas duas circunstâncias, levando-as adiante, para criticar à “esquerda liberal”, ou criticando-as, a elas mesmas, em defesa dessa “esquerda liberal”. Igualmente, para nós, qualquer pesquisa que tome por objeto de análise as direitas contemporâneas brasileiras tem de lidar com esses mesmos pontos, uma vez grande parte de sua força (das direitas) muito provavelmente deva-se, imaginamos, a tais problemáticas da atual conformação da esquerda, no Brasil.

Antes do que oferecer respostas ou conclusões, quisemos, com este esforço, oferecer um balanço do debate sobre liberdade de expressão no Brasil, tal como ele se encontra atualmente, explorando suas contradições, a partir dos casos Léo Lins e Poze do Rodo; bem como fazer algumas indicações para futuras agendas de pesquisa no âmbito da história da ideias que visem a, cultivando a dialética, criticar a um lado ou outro do espectro político, em perspectiva ou endogenamente – sobretudo à esquerda, teórica e politicamente, devido à sua função histórica.

Esperamos havê-lo feito bem, e, sobretudo, estimulado futuros escritos nessa mesma agenda de pesquisa. Estamos abertos ao debate.

*João Gabriel Gaspar Ballestero é graduando em Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para ler a primeira parte desse artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/os-casos-poze-do-rodo-e-leo-lins/

Nota


[i] Ainda que não nos caiba fazê-la aqui, parece importante deixar indicado que a necessária crítica a ser feita a esse artigo não pode desprezar o fato de que, per se, e historicamente, as elites somente são elites porque em posição privilegiada, daí advindo sua perene postura de defesa do status quo, na sociedade, para salvaguardar, precisamente, seus privilégios – nem que para isso seja necessário a difusão de produtos culturais de massa que, à primeira vista, parecem afrontosos aos seus padrões e valores morais, mas que, sendo-o ou não, servem à sua reprodução enquanto classes dominantes. O artigo de Erthal despreza isso – por má-fé ou ignorância, mas despreza. Quaisquer críticas sérias que se formulem ao seu texto devem abordar essa questão, assim como aquela, semelhante, relativa à sua ideia da “cultura de elite” como promotora do desenvolvimento social e da riqueza – que só pode ser encarada como uma piada de muito mau-gosto.

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