Palavras para depois – conversas com Pepe Mujica

Mette-Sofie D. Ambeck, Seis graus de separação, 2000
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Por CARLOS ALVES MÜLLER*

Comentário sobre o livro, recém-editado, de Fabián Restivo

1.

José Alberto Mujica Cordano, mais conhecido como Pepe Mujica é uma personalidade extraordinária. Em todos os sentidos. Ex-presidente do Uruguai, além de ex-deputado e ex-senador, ex-guerrilheiro urbano e ex-preso político. Folclórico pequeno produtor de flores, manteve uma vida frugalíssima com sua esposa na chácara de “Rincón del Cerro”, próxima a Montevidéu, que não trocou pela residência oficial ao se tornar presidente e seguiu deslocando-se num icônico fusca azul celeste ao invés de carros de protocolo. Certamente é o uruguaio mais conhecido internacionalmente.

Personagem de livros, e documentários exibidos por todo o mundo e dirigidos por cineastas famosos, ao longo das últimas décadas foi interlocutor de personalidades de grande envergadura, governantes de potências perto das quais seu país tem uma população e uma economia menores que as de um bairro.

Pepe Mujica também tem sido procurado por cientistas, filósofos, e jornalistas cujos livros venderam mais que toda a produção editorial uruguaia durante muitos anos. Um desses livros é Palavras para depois, composto por transcrições de dez dias de conversas com o jornalista, fotógrafo e cineasta argentino Fabián Restivo. Algumas passagens têm um tom um tanto reverencial, a ponto de desistir de insistir em perguntas que aparentemente deixaram Pepe Mujica constrangido em responder. Outras são de um coloquialismo intimista raro em obras do gênero. Mas não há como o leitor não se deixar envolver.

“Sou um velho pelotudo, esquisito”, reconhece logo de início, desdenhando o tratamento respeitoso com que é abordado com frequência. Como não pensar num tio velho, meio ranzinza, meio sarcástico inclusive consigo mesmo, cheio de anedotas, certezas e dúvidas; com frases repletas de palavrões, que alternam ideias que claramente são fruto de longas reflexões com comentários desconcertantes sobre certas personalidades mundiais com as quais teve algum contato e opiniões pouco ortodoxas para um líder político de esquerda em relação a assuntos como o funcionalismo público.

O prestígio internacional, excepcional em se tratando do presidente de um pequeno país do “Sul Global”, não é inteiramente compartilhado por seus compatriotas. Ao deixar a presidência, aos 79 anos, tinha uma aprovação popular de 63%, algo invejável para qualquer governante. As avaliações feitas por ele próprio em entrevistas ao final do mandato foram tão desconcertantes quanto tantas atitudes anteriores e posteriores, mesclando orgulho quase megalômano e autocrítica impiedosa: “Se fez umas quantas coisas… Consegui que Uruguai exista, por exemplo… O coloquei no mapa”… disse para logo reconhecer que seu governo fez pouco (menos que o prometido na campanha eleitoral em relação à infraestrutura, por exemplo): “Ese fue otro estupendo fracaso“, admitiu.

Entre os uruguaios que não aprovam o desempenho de Pepe Mujica na presidência estão alguns dos mais antigos companheiros de militância no Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros. Ele se tornou o mais célebre e o que chegou a cargos mais altos que todos, embora nunca tenha sido um dos comandantes guerrilheiros.

Em geral, não é uma questão de egos frustrados. As críticas vão muito além de idiossincrasias pessoais e de divergências pontuais em relação a ações de governo. E são anteriores à sua eleição para presidente. A mais profunda tem origem na decisão dos Tupamaros sobre os rumos de seu movimento após a redemocratização do Uruguai. Havia duas grandes correntes com matizes diferentes em cada uma delas.

Um grupo defendia a reorganização política, mas mantendo uma linha extraparlamentar, alguns militantes até propunham seguir numa semiclandestinidade. Outra corrente entendia que o projeto revolucionário fora derrotado em grande medida pelo distanciamento popular em relação à sua pregação. Uma questão derivada, que envolvia principalmente os defensores da institucionalização, era se o grupo reorganizado deveria se integrar ao Frente Amplio – a coalizão de esquerda que se tornaria a mais longeva frente política do gênero na América Latina.  

Pepe Mujica se tornou um dos expoentes deste último grupo, organizado como Movimiento de Participación Popular (MPP) e integrado ao Frente Amplio. Foi assim que se elegeu parlamentar e presidente e ajudou a eleger o atual presidente, Yamandu Orsi. Entre as principais figuras do outro grupo estava Jorge Zabalza, um líder histórico dos Tupamaros que, apesar de descendente de família tradicional e rica para os padrões uruguaios, nunca renunciou ao projeto revolucionário e até sua morte, em fevereiro de 2022, acusou Pepe Mujica de ter feito “uma opção política pelo capitalismo”.

2.

Livros como Palavras para depois são uma empreitada arriscada. A informalidade dos diálogos, a personalidade do depoente principal e a atitude do interlocutor podem ser reveladores sobre a pessoa e iluminadores do período histórico em que viveu e no qual teve algum protagonismo. Mas podem levar à frustração se o personagem que dá o depoimento estiver demasiado preocupado em “como vai sair na foto”. No caso das “Conversas com Pepe Mujica” acontecem as duas coisas alternadamente.

A medida em que se avança na leitura, fica claro que Pepe Mujica não se preocupou em se preparar para abordar temas que com certeza viriam a ser tratados. São várias as situações nas quais admite que não têm informações a respeito do assunto levantado, que dá respostas aproximadas ou simplesmente responde: “Não sei” ou de forma ainda mais coloquial: “que sé yo!”.

Sobre alguns temas as repetidas digressões e as alusões históricas sugerem longas reflexões. É o caso da preocupação com o futuro dos jovens. É o caso, também, da visão crítica sobre aspectos do marxismo como a ideia de que “mudando as relações de produção e distribuição teríamos um novo homem”.

O companheirismo entre Pepe Mujica e a esposa Lúcia, que participa apenas pontualmente das conversas, é bastante evidente, com momentos de mútuo afeto e respeito, quase sempre matizados por algum comentário bem-humorado de parte a parte com o objetivo de evitar um tom solene.

Ainda mais frequentes que as reflexões são as tiradas repentinas, às vezes mordazes e gaiatas, às vezes revelando um fundo de amargura.

Conselho aos jovens: “Errar, eles vão errar. Mas não façam as cagadas do nosso tempo. Precisam ser originais, que façam outras cagadas, não as nossas, porque senão teremos vivido à toa. Cada geração tem que ter as suas cagadas, mas não recair nas mesmas que as anteriores fizeram.”

Sobre tecnologia e valores: “Para mim, essa civilização digital maximiza uma característica do nosso tempo: avançamos um absurdo em tecnologia, mas não em valores. Nisso estamos para el culo. Então a humanidade parece um macaco com uma metralhadora. Porque temos uma ferramenta maravilhosa, mas a usamos para merda”,

Sobre funcionários públicos: “Os funcionários públicos têm que ser os melhores porque lidam com o bem público. E não como são agora, quando o cara senta no meio de outros vinte, toma um café e não faz nada; mas a culpa é dele ou será que temos um sistema ruim? Porque sabemos que o homem precisa de chicote e recompensa. Não posso tratar o idiota da mesma forma que aquele que precisa ser reconhecido”.

Sobre o PT: Eu vi o próprio PT merda depois das eleições. Está destruído. O PT não é mais o que era; agora existe por causa do Lula, mas sem ele infelizmente não existe.”

Sobre a mentira e a verdade: “Há algo que Goebbels disse, de que uma mentira contada mil vezes… O problema é que uma verdade, uma boa, da qual você está convencido, também tem que ser repetida e repetida. A esquerda não insiste…na esquerda somos péssimos comunicadores”.

Sobre a Igreja Católica: “A igreja como instituição terrena, é um poder. Faz tempo que inventou o comitê central, o colégio de cardeais, mas te vende com história, com beleza. Os caras se reúnem, discutem, traçam o limite e veem. Se acertarem, é o Espírito Santo. Se errarem, é erro humano. Uma coisa bárbara”.

Sobre Vladimir Putin: “…conversei com Putin na embaixada russa em Brasília… Putin é um cara legal, mas não consigo arrancar nada dele. É como falar com uma estátua, porque ele nem sequer faz gestos. Nunca vi um cara tão aparentemente inerte… Uma máquina, um autocontrole de tudo. É brutal”.

Diante da pergunta “Como você chega a essa sua idade com tantas contradições?”: “Não é que você consiga administrá-la. Você a suporta, o que não é a mesma coisa. Você aguenta porque existe uma força superior chamada vida. Ao fim e ao cabo, manda o instinto. Ao fim e ao cabo, a resposta vem da biologia, sim, quando as batatas estão assando. E é assim, tem muita coisa contra você…Você chega à conclusão de que, quanto mais você faz, mais a angústia se multiplica. Para ser feliz é preciso ser ignorante”.

Sobre o ser humano: “… nós temos dentro uma coisa desprezível, presa de um egoísmo brutal, e se não estamos atentos, se não gerarmos freios culturais, somos um desastre. Não tem que poetizar o homem, não, não, devemos saber com o que estamos lidando: com o maior predador que existe porque é inteligente, não que seja forte, é inteligente e usa a inteligência para foder.” (aqui se está diante de um deslize da tradução, pois joder no espanhol coloquial não significa copular, mas algo como “encher o saco”)

Sobre o que é a vida: “… a vida é, em última análise, uma luta contra a morte… e no âmbito dessa luta, e ele colocou a coisa mais bonita que existe: o amor. Porque a luta da vida contra a morte é o amor… Não há como não se apaixonar pela jornada do homem na Terra…Porque é uma coisa espetacular, e é perigoso porque você se apaixona”.

*Carlos Alves Müller, jornalista, é doutor em ciências sociais pela UnB.

Referência


Fabián Restivo. Palavras para depois: conversas com Pepe Mujica. Tradução de Rogério Tomaz Jr. Porto Alegre, Editora Coragem, 2024, 278 págs. [https://amzn.to/436PZXo]


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