Paulo Freire – o legado humanista

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Por FERNANDO DE LA CUADRA*

Um educador comprometido com seu tempo, que lutou com inegável paixão ao longo de sua vida para elaborar uma pedagogia humanista e libertária

“Ninguém conhece tudo nem ninguém desconhece tudo; ninguém educa ninguém, ninguém educa-se a si mesmo, os homens educam-se uns aos outros mediados pelo mundo” (Paulo Freire, Pedagogia do oprimido).

Em 19 de setembro de 1921 nasceu Paulo Freire, o pensador brasileiro que mais influenciou o desenvolvimento das humanidades e da educação em nível mundial. Ao longo de sua frutífera vida, Freire foi um ator e autor de enorme coerência, dedicando-se à luta para construir um método pedagógico que ajudasse a gerar as condições para a emancipação das pessoas e simultaneamente ajudasse a transformar o mundo.

Desde o início, como idealizador do Programa Nacional de Alfabetização do governo de João Goulart, este ilustre pernambucano pôs em prática sua concepção de um tipo de alfabetização que recuperasse o saber dos sujeitos alfabetizados num contexto histórico concreto. Sua pedagogia baseava-se numa crítica aos dispositivos de dominação que existem nas sociedades para perpetuar e consolidar o poder e os privilégios de uma minoria que detém os recursos econômicos, políticos, culturais, ideológicos e educativos.

Sua perspectiva contestadora das formas de reprodução do poder através de mecanismos educativos levou-o a conceber a pedagogia como uma prática emancipatória vinculada ao fato de serem os próprios sujeitos que empreendem o processo de sua formação, tomando consciência de seu lugar no mundo e de uma realidade compartilhada com outros que se encontram na mesma situação de subordinação.

Todos sabemos algo

Para Freire, então, o ofício pedagógico representa um caminho de autodescoberta, em que ensinar não significa simplesmente transferir conhecimentos daqueles que os detêm para aqueles que não os possuem. Muito pelo contrário, na verdade: ensinar em Freire implica gerar as possibilidades para a produção e construção do saber de uma forma conjunta e colaborativa.

Isso pressupõe a necessidade de situar o processo pedagógico em cada contexto particular e de retirar dessa realidade as potencialidades libertadoras dos educandos numa perspectiva de transformação das condições de vida dos grupos subalternos, a fim de superar o que ele chamava de “relação entre colonizadores e colonizados”. Em outras palavras, o “oprimido” descobre na ação pedagógica dialética qual é a realidade em que está inserido e quais são as condições que lhe permitirão transformar esse contexto social.

Aqui a reflexão de Freire aponta para uma compreensão estrutural da relação de dominação que foi estabelecida através de mecanismos pedagógicos sacralizados presentes no sistema escolar que envolvem uma transferência ou “depósito” (modelo de educação bancária) daqueles que historicamente se apropriaram do saber para aqueles que foram excluídos ou que não possuem qualquer conhecimento.

Esta modalidade única do ofício educativo foi consagrada ao longo da história, e opera como instrumento de dominação de classe. Desta maneira, a educação torna-se um ato de depositar, e a única margem de ação oferecida aos educandos é a de receber estes depósitos, guardá-los e arquivá-los, fazendo da ação educativa um mero processo acrítico de transferência de saberes, de valores e da visão de mundo das classes dominantes.

Na implantação de sua proposta educativa alternativa, Paulo Freire introduziu elementos eminentemente inovadores do ofício pedagógico e das formas por meio das quais é possível articular o ensino com as condições concretas de vida e de trabalho dos jovens e adultos que participam no processo de aprendizagem. Freire reconhece e assume que os adultos analfabetos possuem um conhecimento e uma cultura própria, que podem e devem ser considerados como o ponto de partida para qualquer processo de ensino.

Por isso, a análise do fenômeno educativo proposta por Freire pressupõe a tomada de consciência dos educandos para que, a partir desta compreensão da posição que ocuparam estruturalmente dentro do processo educativo, superem a visão desencantada e desmobilizadora que os “formataram” para incorporar uma perspectiva crítica que lhes permita constituir-se sujeitos ativos do processo educativo, como uma práxis de busca compartilhada e, consequentemente, emancipatória e transformadora.

São os próprios educandos que devem abrir suas consciências para lutar contra a dominação, a opressão e a injustiça. Isso significa descobrir por que estou na condição em que estou e como posso superar esta situação através de um projeto coletivo. “Ler o mundo para poder transformá-lo”: aí reside o caráter “subversivo” da proposta freiriana e a razão pela qual esta tem sido sistematicamente atacada pelos porta-vozes do establishment.

Há uma ideia tão simples como central na concepção freiriana: ninguém educa-se sozinho. As pessoas educam-se mutuamente mediadas pelo mundo e, na realização deste propósito, os educadores populares são atores fundamentais – embora não exclusivos –, uma vez que o desafio educativo requer a participação de todos os envolvidos. Naturalmente, o educador deve dominar a metodologia. Mas o processo pedagógico é, acima de tudo, um esforço colaborativo.

Todos ignoramos algo

Com a experiência acumulada na educação de adultos nas zonas rurais, Freire escreveu um notável livro, intitulado Extensão ou comunicação?, no qual começa questionando o conceito de “extensão” – tradicionalmente utilizado em projetos de intervenção no setor agrícola – e o revela como uma forma de “invasão cultural”, precisamente porque na visão clássica assume-se que o conhecimento deve ser uma extensão a partir de um saber legitimado pela ciência, que é introjetado ou inoculado entre os camponeses que não o possuem.

Em sua reflexão, Freire postula que o processo de extensão, analisado de um ponto de vista gnoseológico, não pode fazer mais do que mostrar a existência de uma informação nova. Por conseguinte, a construção do conhecimento deve ser concebida como um processo mútuo e interligado em que a presença curiosa das pessoas em relação ao que ocorre no mundo é fundamental. E neste ensaio procura lançar luz sobre um tema central de sua proposta pedagógica: toda ação educativa deve considerar que os homens – como sujeitos ativos e conscientes do conjunto do processo – trabalham essencialmente para sua própria realização humana. Assim, o conhecimento implica também uma ação transformadora da vida, uma invenção permanente e uma reinvenção da realidade.

Em Paulo Freire, encontra-se cristalizada a noção de que o fenômeno educativo procura a formação de uma consciência crítica e transformadora na qual os sujeitos incorporam a essência de um objetivo politicamente orientado e que assume o projeto pedagógico em sua totalidade, ou seja, como parte de um processo de mudança social e não como um mero adestramento destinado à aquisição de habilidades, competências e capacidades para melhor se inserirem na estrutura produtiva definida pela civilização do capital.

Um fator transcendental na sustentação da prática educativa consistiria no estabelecimento de um diálogo e de uma reflexão contínua entre educadores e educandos, fazendo destes últimos o centro da aprendizagem num quadro de respeito e generosidade. Para Freire, não há diálogo se não houver humildade suficiente para reconhecer que o outro pode nos oferecer muito a partir de sua experiência e de seu saber pessoal. Este reconhecimento de que sabemos algo, mas que também desconhecemos muitas coisas, faz parte de uma convicção fundamental do projeto educativo freiriano.

Para o pedagogo brasileiro, a liberdade consistia concretamente numa atividade exercida cotidianamente pelos sujeitos através da consciência do mundo e da encenação de um pensamento crítico como resultado da realização do princípio de ação-reflexão-ação. Assim, ao assumir o programa de alfabetização como parte de um projeto maior, aqueles que nele participam desenvolvem cada vez mais sua capacidade reflexiva por meio de um posicionamento crítico em torno da cultura que se tornou consciência histórica para transformar a realidade.

Por esta mesma razão, a relação entre conhecimento e ação está no centro da reflexão de Freire e tem seu correlato nos desdobramentos posteriores da pedagogia política e do processo dialético estabelecido entre a teoria e a prática revolucionária. Como Jorge Osorio argumenta, esta visão de mundo e o método de educação popular apoia-se conclusivamente em ferramentas epistemológicas que se relacionam com uma filosofia da ação transformadora, com sua propensão para a teorização, o que implica uma reflexão permanente sobre a ação e sua retroalimentação nas novas práticas pedagógicas.

Isso permitiu o enriquecimento constante dos postulados delineados até agora e seu diálogo proveitoso com outras perspectivas teóricas e âmbitos do conhecimento que vão desde a Teologia da Libertação até o pensamento decolonial (Pedagogias Decoloniais), passando pela educação comunitária, a pedagogia da alteridade, as teorias do cuidado e as Epistemologias do Sul. Estes movimentos e ideias são ainda mais relevantes num período em que se observa paralelamente a emergência de um pensamento reacionário e obscurantista em alguns redutos atrasados do planeta.

Por isso aprendemos sempre

Desde a época em que Paulo Freire trabalhava com a educação de adultos em Pernambuco, ele estava convencido de que, a rigor, não existem analfabetos no mundo, mas sim pessoas com diferentes leituras da realidade que, precisamente ao tomar consciência de sua condição de oprimidos, se tornam capazes de participar num projeto coletivo de aprendizagem e libertação.

Para ele, a autoconsciência da própria prática será sempre um campo fértil de pesquisa para compreender como os “homens” lêem o mundo e como podem compartilhar essa experiência cotidiana da vida para tentar transformar a realidade social. Seu método, que privilegiava o conhecimento que faz parte de todos os seres humanos, é ainda utilizado em milhares de experiências pedagógicas em todo o planeta, consagradas há muitos anos sob o nome de Educação Popular.

Este modelo de Educação Popular não tem estado livre de problemas e críticas, como demonstra o fato de que muitas vezes este recurso tem sido aplicado principalmente como fórmula de organização dos setores populares, perdendo nesse intento a dimensão pedagógica e crítica tal como concebida pelo pensador brasileiro. No entanto, a concepção emancipatória de Paulo Freire continua inspirando milhares de educadores nos cinco continentes, como um caminho válido para formar sujeitos conscientes e lúcidos sobre sua inserção e seu papel no mundo.

Essa é a essência de Paulo Freire: um educador comprometido com seu tempo, que lutou com inegável paixão ao longo de sua vida para elaborar uma pedagogia humanista e libertária que é hoje mais relevante do que nunca. Como ele próprio assinalou a um grupo de educadores populares numa de suas viagens pela América Latina: “Não vim aqui para trazer um discurso pedagógico, com ares de originalidade, mas para dize-lhes que me entrego de corpo inteiro às coisas que faço e em que participo. Não sou apenas mente, sou paixão, sou sentimento, sou medo, sou reticências. Sou perguntas, dúvidas, desejos e utopias… Sou um projeto”.

*Fernando De La Cuadra é professor de Sociologia na Universidade Católica do Maule (Chile).

Tradução: Fernando Lima das Neves

Publicado originalmente na revista Jacobin America Latina.

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