Reificação ou coisificação?

Imagem: Simone Hutsch
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Por GIOVANNI ALVES*

Mais que um erro de percepção, o capitalismo opera uma mutação ontológica: primeiro transforma relações em Sachen (coisas sociais reificadas) e depois as naturaliza como Dinge (coisas materiais). Desvendar essa armadilha semântica é decifrar a lógica que nos torna tanto vítimas quanto agentes do fetichismo

O presente artigo examina, a partir da contribuição de Tomonaga Tairako, a importante diferença conceitual entreSache e Ding no idioma alemão e sua centralidade na crítica da economia política de Karl Marx e na crítica do metabolismo social do capital. Essa distinção serve de fundamento para a elaboração dos conceitos de reificação [Versachlichung] e coisificação [Verdinglichung] enquanto momentos articulados do processo de mistificação das relações sociais no capitalismo.

O artigo visa fazer uma introdução à análise das formas fenomenais do capital e da “naturalização” das relações sociais, evidenciando como o metabolismo social do capital se constitui como um sistema estranhado e fetichizado.

Desde a publicação de O capital, a crítica da economia política de Karl Marx revelou que a especificidade do capitalismo reside não apenas na exploração econômica, mas também na forma social peculiar em que as relações entre pessoas se apresentam ou aparecem [erscheinen] como relações entre coisas. Este fenômeno, que Marx denomina “fetichismo da mercadoria”, está na base de uma estrutura de dominação impessoal, mediada pela forma-mercadoria e pela autonomização das abstrações sociais, como o dinheiro e o capital.

O fetichismo é uma consciência invertida vítima da reificação e da coisificação. Esse fetichismo [Fetichismus] representa a consciência dos produtores e outros agentes econômicos “que aceitam” o fetiche como um fato social evidente. O fetichismo é uma aparência social objetiva e diz respeito à consciência invertida: ele faz com que as relações sociais pareçam relações entre coisas (mercadorias).

Por outro lado, a coisificação é um efeito da estrutura da produção capitalista, que de fato transforma os sujeitos sociais em coisas, como na organização do trabalho. Portanto, podemos dizer que o fetichismo é “a forma de aparência” da coisificação no plano da circulação. A coisificação, por sua vez, é a condição material e estrutural do ser socialque torna possível o fetichismo.

Dentro desse quadro teórico, Tomonaga Tairako oferece uma contribuição singular ao destacar a importância da diferenciação semântica entre Sache e Ding para compreender os processos de reificação [Versachlichung] e coisificação [Verdinglichung], isto é, as mutações que ocorrem na condição material e estrutural do ser social do capital principalmente por conta do desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital.

Como iremos ver esta nova estrutura da produção capitalista altera qualitativamente a relação sujeito-objeto e se manifesta num novo “modo de aparecer” [Erscheinungsform] da objetividade social. Este artigo busca sistematizar essa distinção – reificação e coisificação – e aprofundar suas implicações para a análise da sociabilidade capitalista a partir da diferença conceitual entre Sache e Ding no idioma alemão e sua centralidade na crítica da economia política de Karl Marx e na crítica do metabolismo social do capital. A diferença entre Sache e Ding representa uma “transformação fenomenal”da mistificação do capital com implicações no metabolismo social.

György Lukács, em História e consciência de classe amplia a reflexão marxiana ao conceituar a “coisificação” – mal-traduzida como “reificação” – como a universalização da forma mercadoria para todas as esferas da vida social (Lukács, 2003).  O capítulo em que ele trata disso é o capítulo 4 que se intitula no original: Die Verdinglichung und das Bewusstsein des Proletetariats. Tanto na edição portuguesa do Brasil (da editora Martins Fontes, de 2003, com tradução de Rodnei Nascimento) quanto na edição portuguesa de Portugal (da editora Elfos, de 1989, com tradução de Telma Costa), o título do capítulo do livro é traduzido como “A reificação e a consciência do proletariado”. Verdinglichung é traduzido como “reificação”. Eles seguem a edição francesa de 1960 da Les Éditions du Minuit com tradução de Kostas Axelos e Jacqueline Bois: La réification et la conscioence du prolétariet.

Por outro lado, na edição espanhola da Grijalbo (1969) com tradução de Manuel Sacristan, o capítulo se intitulou – de forma correta – La coisificación y la consciencia del proletariado. Nesse caso, Verdinglichung foi traduzido por Manuel Sacristan como coisificación. Iremos ver adiante que existem importantes diferenças conceituais entre Verdinglichung e Versachelichung.

Tomonaga Tairako oferece uma chave filológica e conceitual fundamental: a diferenciação entre Sache e Ding permite destrinchar os níveis de objetivação e mistificação das relações sociais. Sua proposta articula dialeticamente os dois momentos – reificação e coisificação – como fases necessárias da constituição da sociabilidade fetichista no capitalismo.

A distinção conceitual entre Sache e Ding[i]

Em alemão, Sache e Ding são ambos traduzíveis como “coisa”, mas possuem campos semânticos distintos: Sache designa uma coisa social, um caso, um assunto, uma questão – uma entidade cuja existência depende de mediações e construções sociais. Está relacionada a causas, negócios e objetos simbólicos.

Ding refere-se à coisa tangível, física, material, percebida como uma entidade natural e imediata. Portanto, a passagem da Sache ao Ding representa, no plano das formas sociais, a trajetória de uma relação social objetivada para uma coisa naturalizada — apagando-se sua gênese social.

O ponto de partida da análise do fetichismo é a constatação de que, na sociedade capitalista, as relações sociais entre os indivíduos — mediadas pelo trabalho — não aparecem como relações diretas entre pessoas, mas sim como relações entre coisas. Esse fenômeno que está na base do fetichismo não é um mero engano perceptivo ou uma ilusão cultural, mas uma forma objetiva de socialização inscrita nas própriascondições materiais de existência do capitalismo.

Quando Karl Marx afirma que “o caráter social dos trabalhos aparece como propriedades naturais das coisas” (Marx, 2013, p. 81), ele está descrevendo um processo no qual o trabalho, enquanto atividade social, precisa se objetivar, cristalizando-se na forma mercadoria.[ii] Isso significa que, sob o capitalismo, a sociabilidade não se estrutura a partir de vínculos interpessoais diretos, como ocorre nas sociedades pré-capitalistas, mas pela mediação de coisas – especificamente, das mercadorias.

Na produção de mercadorias, o trabalho privado só se torna socialmente válido se seus produtos forem reconhecidos como valores no mercado. Portanto, o caráter social do trabalho não se manifesta no ato da produção, mas na troca. Isso gera uma cisão radical entre a atividade humana concreta e sua validação social. O trabalho, que é sempre uma atividade humana concreta, só adquire significado social na medida em que seu produto se apresenta como uma mercadoria que porta valor.

Esse processo é a essência da reificação (Versachlichung). As relações sociais se objetivam: tornam-se Sachen, ou seja, coisas sociais, dotadas de uma existência objetiva e independente das vontades conscientes dos indivíduos. As mercadorias, como objetos sensíveis, ocultam dentro de si uma teia de relações sociais, condensadas na forma de valor.

Aqui reside uma peculiaridade ontológica do capitalismo: a realidade social adquire uma aparência material, objetiva, e se autonomiza em relação às ações individuais (oaparecer fetichizado [fetischisiert erscheinen]como uma forma de objetividade social). A mediação social ocorre por meio da circulação de objetos que codificam, de forma indireta e fetichizada, as relações de interdependência dos produtores privados.

Ao contrário das formações sociais anteriores, baseadas em relações diretas – seja na comunidade, na dominação pessoal ou na tradição –, o capitalismo substitui essas relações por vínculos mediados. O produtor não se relaciona diretamente com os outros produtores, mas com um sistema impessoal e objetivo: o mercado. Na medida em que a mediação entre os trabalhos privados ocorre por meio da troca de mercadorias, os próprios sujeitos tornam-se socialmente compreensíveis não como portadores de relações sociais, mas como portadores de objetos trocáveis: mercadorias, dinheiro, força de trabalho. Sua inserção na coletividade só se dá na medida em que possuem tais objetos – incluindo, eles próprios, como força de trabalho-mercadoria.

Embora o processo de reificação oculte a origem social das mercadorias, ele ainda preserva, teoricamente, a possibilidade de decifração. Isso porque, no estágio da Versachlichung, as coisas – enquanto Sachen – continuam sendo, na sua essência, expressões objetivadas de relações sociais. O próprio fato de que o valor depende da validação social na troca mostra que ele não é uma propriedade natural das coisas, mas uma determinação social objetivada. Portanto, permanece possível, mediante uma análise crítica, recuperar o vínculo entre o objeto-mercadoria e a rede de relações sociais que lhe dá origem.

É este o ponto em que a crítica da economia política se funda: desmontar a aparência fetichista ou a consciencia invertida, revelando que o valor não reside na coisa-objeto, mas na totalidade das relações sociais de trabalho abstrato cristalizadas na forma mercadoria.

O primeiro momento do fetichismo [ou a aparência como Sache] não é, portanto, um simples erro cognitivo, mas uma determinação ontológica da sociabilidade capitalista. A forma mercadoria não representa um véu que recobre uma essência social pura e não deformada. Pelo contrário, ela é a própria forma como a socialidade se constitui no capitalismo. As relações sociais existem como coisas sociais objetivas, exteriorizadas, dotadas de coerção real sobre os sujeitos.

Este fato – a reificação – diferencia radicalmente o capitalismo de outras sociedades históricas. Nas formações sociais pré-capitalistas, a socialidade se dá majoritariamente por relações pessoais – de parentesco, de dominação direta, de servidão, de comunidade. No capitalismo, essas relações são substituídas pela mediação abstrata do valor. As Sachen não são simples objetos; são formas sociais objetivas, portadoras de uma lógica que transcende as vontades individuais. O fetichismo é o modo do aparecer [Erscheinungsform] da socialidade reificada.

Entretanto, a reificação [Versachlichung], enquanto transformação das relações sociais em Sachen, contém em si uma tensão. Na medida em que a reprodução social depende do reconhecimento do valor das mercadorias, torna-se possível, ao menos teoricamente, desvelar sua natureza social.

Contudo, à medida que o sistema se complexifica – com a ascensão do dinheiro como equivalente geral e do capital como “sujeito automático” (Marx) –, a tendência é que essa mediação social se obscureça ainda mais, conduzindo ao “segundo momento do fetichismo” (a aparência como Ding): a coisificação [Verdinglichung], onde até mesmo o caráter de Sache – como coisa-objeto social – é obliterado, e as relações aparecem como propriedades naturais[das Dinge].

O “primeiro momento do fetichismo”, portanto, funda-se na reificação como mediação social objetiva, onde os produtos do trabalho se tornam Sachen, portadores de relações sociais codificadas como valor. Essa forma de objetivação é, ao mesmo tempo, condição da integração social capitalista e origem da alienação [Entfremdung]. Os sujeitos, ao invés de se reconhecerem mutuamente como participantes de uma totalidade social, reconhecem-se apenas como portadores de mercadorias, atravessados pela lógica impessoal do valor.

Contudo, esse momento ainda conserva, de forma latente, a possibilidade de decifração crítica. A economia política clássica e, mais radicalmente, a crítica marxiana revelam que, por trás da aparência objetiva das coisas, pulsa uma teia de relações sociais historicamente determinadas. Vejamos as modificações essenciais no sistema do capital que ocorrem por conta da passagem da subsunção formal à subsunção realdo trabalho ao capital – são tais mutações essenciais na base material do capital que explicam a passagem da reificação à coisificação e o aprofundamento dos fetichismos.

Coisificação – da Sache ao Ding

Se no primeiro momento do fetichismo – a reificação [Versachlichung] – as relações sociais aparecem objetivadas como Sachen, coisas sociais portadoras de valor, no segundo momento – a coisificação [Verdinglichung] – há um deslocamento qualitativo mais profundo: as Sachen se convertem em Dinge, coisas materiais que se apresentam fenomenicamente como dotadas de propriedades naturais, apagando por completo a referência às mediações sociais que lhes deram origem.

Essa transformação não é simplesmente uma intensificação da reificação, mas sua radicalização: uma verdadeiraontologização das formas sociais. O que antes ainda podia ser reconhecido, por meio de análise crítica, como uma construção social, agora aparece como uma qualidade imanente dos próprios objetos. As categorias sociais tornam-se categorias da natureza. As relações tornam-se coisas. E as coisas tornam-se sujeitos.

No plano econômico, esse segundo estágio do fetichismo se expressa na crença de que os próprios objetos ou fatores de produção possuem, por natureza, a capacidade de gerar valor. Trata-se de uma operação semântica e social na qual os Dinge – terra, dinheiro, máquinas – aparecem como entes autovalorizáveis, capazes de produzir renda, juros e lucros independentemente da relação de exploração do trabalho vivo.

A estrutura dessa ilusão

O dinheiro gera juros: O capital portador de juros aparece como se o próprio dinheiro, isoladamente, tivesse a capacidade de se multiplicar – pecunia pecuniam parit, o dinheiro gera dinheiro. A fórmula D–D’ (dinheiro gera mais dinheiro) resume essa aparência, que apaga totalmente o momento da produção e do trabalho. Na verdade, o juro nada mais é que uma parcela da mais-valia extraída na produção, mas essa mediação desaparece do horizonte fenomênico.

A terra produz renda fundiária: A terra, enquanto condição natural, aparece como dotada da capacidade própria de gerar renda. No entanto, na realidade, a renda fundiária é uma apropriação derivada do excedente produzido pelo trabalho humano, mediada pela propriedade privada da terra. A ilusão reside na percepção da terra como fonte “natural” de renda, obscurecendo sua base social na relação de propriedade e exploração.

Os meios de produção criam lucro: Máquinas, instalações e equipamentos aparecem como se gerassem valor autonomamente. Na lógica contábil empresarial, fala-se que “a máquina se paga” ou que “o investimento gera retorno”. No entanto, os meios de produção apenas transferem seu valor amortizado para o produto; eles não geram valor novo. O valor adicional – o lucro – provém exclusivamente do trabalho vivo, da exploração da força de trabalho. O apagamento dessa mediação é a quintessência do fetichismo.[iii]

O movimento da Verdinglichung culmina na inversão estrutural entre sujeito e objeto. As coisas assumem características subjetivas – trabalham, produzem, remuneram –, enquanto os sujeitos são reduzidos à condição de coisas: força de trabalho, recurso humano, capital humano, consumidores, perfis de dados. Esse é o ponto em que o capital se apresenta como “sujeito automático”[iv], ou seja, uma substância social autonomizada que se valoriza a si mesma, impondo sua lógica sobre indivíduos, instituições e até sobre o Estado.

Diz Marx: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas ao sugar trabalho vivo, e vive mais quanto mais trabalho suga” (Marx, O capital, Vol. I). Aqui, o estranhamento atinge seu grau máximo: as determinações sociais passam a se apresentar (ou aparecem) como naturais, inevitáveis e, portanto, inquestionáveis. Trata-se da consolidação de uma ontologia fetichista, na qual a economia – um constructo social e histórico – assume o status de uma segunda natureza. O capital passa a caminhar – objetivo e subjetivamente – “com suas próprias pernas”, invadindo todos os poros da vida social. É a subsunção realdo trabalho ao capital no modo de produção especificamente capitalista.

Nesta passagem do Capítulo VI (Inédito), na seção “Mistificação do capital, etc.”, Karl Marx deixa clara a diferença entre reificação e coisificação, vinculando-a à diferenciação entre subsunção formal e subsunção real. Vejamos como ele desenvolve o raciocínio. A longa transcrição torna-se necessária:

“A produtividade do capital, considerando-se a subsunção formal, consiste inicialmente apenas na coerção ao mais-trabalho; uma coerção que o modo de produção capitalista compartilha com os modos de produção anteriores, mas que exerce de uma forma mais favorável à produção. Mesmo considerando a relação puramente formal – a forma geral de produção capitalista, que compartilha seu modo menos desenvolvido com seu modo mais desenvolvido –, os meios de produção, as condições materiais de trabalho, não aparecem subsumidos ao trabalhador, mas este como subsumido a esses meios. O capital employs labor [emprega trabalho]. Mesmo essa relação em sua simplicidade é a personificação das coisas e a coisificação das pessoas (Marx, 2022: p. 123-124).

O que Marx nos revela, ao tratar da subsunção formal do trabalho ao capital, é que essa forma inicial da dominação capitalista – que “consiste inicialmente apenas na coerção ao mais-trabalho” – expressa uma relação social ainda “em sua simplicidade”, marcada, contudo, por um profundo processo de reificação: “a personificação das coisas e a coisificação das pessoas”.

Aqui se delineia, com clareza, o perfil do sociometabolismo do capital em sua forma embrionária – o metabolismo social mediado pelo trabalho assalariado, no qual o trabalhador não é apenas explorado, mas ontologicamente subsumido aos meios de produção e às condições materiais de reprodução do capital.

Este processo não é apenas técnico ou econômico, mas configura uma nova forma de dominação social, na qual o mundo objetivo – as mercadorias, os instrumentos, o dinheiro – adquire vida própria, enquanto os sujeitos são reduzidos à condição de portadores de funções, fragmentados e despossuídos de sua potência humana genérica. É neste quadro que se inaugura a forma histórica na qual as relações sociais se apresentam como relações entre coisas.

Contudo, Marx avança, no parágrafo seguinte, para destacar uma inflexão decisiva: a transição da subsunção formal para a subsunção real do trabalho ao capital. Enquanto determinação da essência do sistema, essa transição provoca a transformação fenomenal de Sache para Ding e, ao mesmo tempo, aprofunda e generaliza os fetichismos e estranhamentos.

Trata-se, aqui, de uma diferença qualitativamente nova. Já não estamos diante apenas de uma forma jurídica ou externa de dominação, mas de uma reorganização profunda da própria produção social da vida, em que o capital reconfigura tecnicamente os processos de trabalho, molda a ciência, subordina a subjetividade, reorganiza o tempo e o espaço.

A partir desse momento, o capital deixa de depender de formas herdadas – artesanais, manufatureiras, tradicionais – e passa a gerar sua própria base técnico-material, instaurando uma lógica totalizante e expansiva, que redefine o metabolismo social sob sua própria imagem. É nesse ponto que a barbárie deixa de ser uma patologia externa ao sistema e passa a constituir sua condição social interna e imanente.

A produção da riqueza converte-se, paradoxalmente, também em produção da miséria, da superfluidez humana, da devastação ecológica e da aceleração da entropia social. A reificação dá lugar à coisificação sistemática e à autonomização fetichista das formas sociais – o capital torna-se, nas palavras de Marx, um “sujeito automático”, que se movimenta como potência cega da história.

Diz Marx: “Contudo, a relação torna-se mais complicada e aparentemente mais misteriosa, pois, com o desenvolvimento do modo de produção especificamente capitalista, não apenas essas coisas – esses produtos do trabalho, tanto como valores de uso quanto como valores de troca – alçam-se diante do trabalhador e passam a confrontá-lo como “capital”, mas a forma social do trabalho se apresenta como formas de desenvolvimento do capital e, portanto, as forças produtivas do trabalho social assim desenvolvidas se apresentam como forças produtivas do capital. (Marx, 2022: p. 124).

Marx destaca que com a coisificação “a relação torna-se mais complicada e aparentemente mais misteriosa”, porque não se trata apenas da “inversão” verificada com a reificação (“a personificação das coisas e a coisificação das pessoas”). O que ocorre com o desenvolvimento do modo de produção especificamente capitalista caracterizado pela subsunção real do trabalho ao capital, é que “essas coisas – produtos do trabalho, tanto como valores de uso quanto como valores de troca – alçam-se diante do trabalhador e passam a “confrontá-lo” como capital. Essas coisas…ganham vida própria.

Mas não apenas isso: a forma social do trabalho, as forças produtivas do trabalho social se apresentam como forças produtivas do capital. Não se trata de mera inversão – como ocorria com a reificação, mas de “usurpação”: as forças produtivas do trabalho social – incluindo a ciência e a tecnologia – são “usurpadas” pelo capital, isto é, apresentam-se como sendo dele.

Esta é a característica da coisificação [Verdinglichung] como nova forma objetivo-subjetiva de sociometabolismo do capital. O capital passa a “capitalizar” a vida social – as forças sociais e o trabalho.

*Giovanni Alves é professor aposentado de sociologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Autor, entre outros livros, de Trabalho e valor: o novo (e precário) mundo do trabalho no século XXI (Projeto editorial Praxis). [https://amzn.to/3RxyWJh]

Este é um extrato do capítulo 2 intitulado “Sache, Ding e a mistificação do capital: reificação, coisificação e o metabolismo social estranhado do capital” publicado no livro recém-lançado Crítica do Capital: Pensando com Marx no Século XXI”, organizado por Giovanni Alves e Francisco Teixeira.

Referências


LUKÁCS, György. História e Consciência de Classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARX, Karl. O Capital. Vol. I. São Paulo: Boitempo, 2013.

TAIRAKO, Tomonaga. “Versachlichung and verdinglichung: basic categories of Marx’s theory of Reification and their logical construction”. Hitotsubash

ALVES, Giovanni e TEIXEIRA, Francisco (Org.) Critica do Capital: Pensando com Marx no Século XXI. Marília, Projeto editorial Praxis, 2025, 286 págs. [https://a.co/d/63SaKcc]

Notas


[i]Para uma discussão filológica detalhada sobre Sache e Ding, cf. TAIRAKO , Tomonaga. “Versachelichung and Verdinglichung: Basic categories of Marx´s theory of reification and their logical construction”. In: Hitotsubashi Journal of Social Studies 48 (2017), pp.1-26.

[ii] “O caráter enigmático da forma-mercadoria consiste no fato de que ela reflete aos homens os caracteres sociais do seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos próprios produtos do trabalho” (Marx, 2013, p. 81).

[iii] “O lucro, os juros e a renda fundiária aparecem como frutos naturais dos meios de produção, do dinheiro e da terra, ocultando sua verdadeira origem no trabalho não pago” (Marx, 2013).

[iv] Sobre o “sujeito automático”, cf. Marx (2013, p. 185): “O valor é, portanto, o sujeito automático de um processo no qual ele, enquanto valor, gera mais valor.”


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