Por DANIEL AARÃO REIS*
A agressão como método revela a crise da ordem internacional e a fragilidade das respostas ao sul do continente
1.
Ao contrário do que diz a grande mídia, o presidente/ditador da Venezuela não foi capturado, mas sequestrado, num ato de clara violência, uma agressão às normas, aos tratados e às instituições que regem a convivência entre estados e sociedades no mundo, uma violação do princípio consagrado da autodeterminação dos povos. Não é possível naturalizar ou minimizar o que aconteceu, mas, além de denunciada com a indispensável veemência, a ação truculenta precisa ser explicada e interpretada.
O fato de a Venezuela ser uma ditadura não justifica em hipótese alguma a agressão externa. Se todos os países que vivem sob ditadura fossem objeto de agressão, o mundo viveria numa guerra permanente de todos contra todos. Suportar ou derrubar a ditadura na Venezuela é uma decisão que cabe apenas ao povo venezuelano. O mesmo se pode dizer de Cuba, da Nicarágua, ou de qualquer outra ditadura existente no mundo, como o Irã, a Arábia Saudita, o Egito, a Turquia, a Rússia, a China e tantos outros (a lista é grande).
De mais a mais, na longa entrevista concedida por Donald Trump e seus cúmplices após a agressão, não houve uma palavra sequer em defesa das liberdades democráticas e da democracia em geral. Em suma, os próprios agressores não justificaram a agressão em nome de valores políticos ou morais que tivessem alguma ligação, mesmo remota, com a democracia.
Fundamentaram a intervenção e desnudaram o sequestro, sem nenhum pejo ou restrição, como expressão de interesses econômicos e geoestratégicos. Trata-se de ressarcir as empresas estadunidenses dos prejuízos provocados pelas políticas nacionalistas de vários governos que se sucederam em Caracas desde os anos 1970 até fins do século passado quando, pouco a pouco, as companhias petrolíferas norte-americanas foram nacionalizadas.
Além disso, e mais importante, afirmar a vontade de poder dos EUA no continente americano, intimidando governos ao sul do Rio Grande e potências rivais: a América é cosa nostra, dos Estados Unidos, fórmula sacramentada em texto sobre uma nova doutrina de segurança nacional, publicada no início de dezembro do ano passado e que delineia as grandes linhas das ambições internacionais do projeto que elegeu Donald Trump, o MAGA/Make American Great Again/Fazer a América Grande de novo.
Ao contrário da tradição intervencionista das grandes potências, que encobria intervenções/agressões com a roupagem de altos princípios e valores reconhecidos e compartilhados desde a vitória sobre o nazismo, a operação militar especial (termo consagrado na invasão da Ucrânia por uma outra ditadura, a russa) que sequestrou Nicolás Maduro e a mulher, Cilia Flores, foi explicada à maneira dos gangsters que exibem sem nenhuma vergonha o direito da força: faço porque posso, porque tenho força para fazê-lo.
2.
Como explicar, compreender e combater o fenômeno?
Comecemos pelo contexto global. A agressão à Venezuela, assim como a invasão da Ucrânia, o massacre na faixa de Gaza e demais bombardeios “cirúrgicos” em várias partes do mundo, devem ser compreendidos como indícios de uma mudança de época histórica, como observou Claudio Sergio Ingerflom em artigo recente, publicado no site A Terra é Redonda.
Num contexto de profunda instabilidade hegemônica, a tentativa de estabelecer uma “partilha do mundo” se desenha com o chamado corolário Trump (doutrina Donroe), em detrimento dos acordos, pactos e instituições internacionais construídos no pós-Segunda Guerra Mundial.
Para se tornar efetiva, entretanto, vai depender de como reajam as grandes potências nucleares (Rússia, China) e outros atores, também importantes (alguns, nucleares) que, até o momento, encontram-se embrulhados em profunda crise de identidade (principais estados europeus) ou numa condição de participantes marginais, como algumas “potências regionais” (Índia, Paquistão, Indonésia, Irã, Israel, Egito, África do Sul, Brasil, entre outros). Nunca seria demais sublinhar que a “força” das grandes potências não é invencível e pode ser relativizada por crises internas de legitimidade, que se aguçam no contexto de guerras ou aventuras militares.
Se esta avaliação tem um grão de verdade, ainda decorrerá algum tempo antes que possamos ver com clareza como se configurarão os novos padrões dominantes de relações internacionais. Neste quadro, prevalecerá a atual instabilidade hegemônica, suscitando de modo descontrolado todo o tipo de guerras, ataques, agressões, invasões protagonizados pelas grandes potências ou por potências regionais.
Consideremos agora o impacto destas novas tendências na América ao sul do Rio Grande.
O subcontinente encontra-se num momento difícil. Fragmentado, do ponto de vista político, com vários estados dirigidos por líderes de direita, dispostos a demonstrar a mais ostensiva subserviência ao Grande Irmão do Norte. As estruturas de articulação internacional criadas em décadas passadas encontram-se desativadas ou impotentes. Assim, o cenário não poderia ser mais desfavorável à articulação de uma frente de estados nacionais com uma política unificada de defesa dos interesses comuns.
Além disso, mesmo no interior de Estados governados, em tese, por lideranças altivas e autônomas (casos da Colômbia, Brasil ou México), divisões políticas internas, incentivadas pela presença de forças consideráveis de extrema-direita, dificultam a formulação e a definição de políticas de defesa dos próprios interesses.
É neste quadro que vem se desdobrando a política agressiva do atual governo dos EUA. A agressão à Venezuela, a intimidação do Panamá, as ambições dirigidas à Groenlândia, o cerco e a radicalização do bloqueio à Cuba, as ameaças à Colômbia e ao México, as práticas dos tarifaços unilaterais perpetrados pelo presidente dos EUA, afetando inclusive o Brasil, têm imposto recuos e atitudes conciliatórias inaceitáveis.
3.
Não se trata de propor fanfarronadas nem de exigir enfrentamentos inviáveis. Sabemos bem que apenas nas fábulas infantis o rato consegue vencer o gato. Negociar é uma imposição das circunstâncias, o que não significa subserviência. É urgente que os governos das Américas ao sul do Rio Grande encarem com seriedade e sentido de urgência a necessidade de se prepararem para situações de crise que podem acontecer a qualquer momento no contexto da “diplomacia coercitiva” adotada pelos EUA.
É preciso alertar e mobilizar a opinião pública, propor resoluções de crítica e protesto no âmbito das instituições internacionais, mobilizar aliados efetivos e potenciais, sobretudo no campo das democracias, enfim, manter um mínimo de respeito próprio e de senso de dignidade face a ameaças descabidas do governo dos EUA.
As conversas da atual presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, e de seus aliados políticos com Chris Wright, enviado especial do governo dos EUA, em 13 de fevereiro passado, depois do sequestro de Nicolás Maduro e do bloqueio imposto pelos navios de guerra estadunidenses à Venezuela, é uma manifestação de baixeza raramente vista nos anais internacionais.
Uma potência estrangeira (no caso, os EUA) sequestra o presidente do país, assume o controle da sua economia, sem nenhum argumento a não ser o uso (e o abuso) da força, e, diante disso, os dirigentes políticos e militares venezuelanos curvam-se ao diktat e se permitem cumprimentar, sorrindo, os representantes da potência agressora.
Do mesmo modo, a viagem do presidente colombiano a Washington, depois dos insultos desferidos contra ele por Donald Trump é um ato surpreendente, considerando o histórico de altivez e de autonomia do líder da Colômbia. Mesmo os governos de México e Brasil assumem uma atitude tímida, dando a impressão de que estamos vivendo um período de normalidade, contribuindo para naturalizar a agressão que não pode – e não deve – ser igualada a divergências políticas e diplomáticas usuais.
A passividade das lideranças latino-americanas e das esquerdas em geral diante do cerco que os EUA empreendem neste momento contra Cuba é uma outra expressão questionável de conciliação. Uma atitude de avestruz. Um surpreendente negacionismo. Imaginam conjurar o perigo com pedidos de clemência e gestos conciliatórios?
É preciso resgatar as tradições históricas de resistência. Na própria América Latina, a revolução cubana nos anos 1960, enfrentou com dignidade e coragem as ameaças e as intervenções dos EUA. Na África, a revolução argelina e a saga da luta antirracista de um Mandela na África do Sul são exemplos de luta que pareciam desesperadas e que, afinal, pela persistência, venceram.
Na Ásia, a luta do povo do Vietnã é um outro exemplo. Na atualidade, é bela a resistência do povo ucraniano à invasão russa. É certo que a conjuntura internacional hoje é muito distinta em seus principais aspectos, mas não devem ser esquecidos princípios básicos, políticos e éticos.
O que se depreende de todos os referidos exemplos é que os jogos de poder nem sempre se resolvem a favor dos mais fortes. E que atitudes e políticas de apaziguamento e conciliação nunca foram ou serão capazes de persuadir governos e políticas de agressão.
O que está em jogo, definitivamente, é nada menos do que a sobrevivência política e a dignidade dos estados e das sociedades ao sul do Rio Grande.
*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo: Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]






















