TIP – antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo

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Por GASPAR PAZ*

Considerações sobre a peça teatral, em cartaz na cidade do Rio de Janeiro

“Olha será que é uma estrela/ Será que é mentira/ Será que é comédia/ Será que é divina / A vida da atriz / Se ela um dia despencar do céu / E se os pagantes exigirem bis/ E se um arcanjo passar o chapéu…” (Edu Lobo e Chico Buarque).

1.

Um dos papéis do teatro é fazer ver o que se oculta no claro-escuro. É expor contradições históricas, perscrutando experiências-limite e flagrando as mutações do tempo. É desvelar o que está por trás das coisas que se normalizam acriticamente em nosso cotidiano. Milla Fernandez, na peça TIP, acende um fósforo incendiário contra as ilusões que persistem nos tempos sequestrados em que vivemos.

A atriz instalou no palco aberto do Teatro Sérgio Porto (no Rio de Janeiro) a encenação de uma sala virtual, um ciberespaço com características de uma rede integrada e digital, onde os espectadores assumem o papel de internautas… usuários jogando com seu poder de acumulação e suas investidas desejantes.

A inquietação-provocação e a mise-en-scène giram em torno de como fazer do teatro o seu lugar ao sol, o seu ganha-pão. Ora, viver do teatro é sempre desafiador, como já demonstrava aquela trupe de atuadores de Théophile Gautier no filme dirigido por Ettore Scola (A viagem do Capitão Tornado). Mas a tarefa se agiganta quando se está diante de uma pandemia (Covid-19) e todas as pessoas que trabalham com as artes e a cultura são lançadas nos estertores do vazio.

Duplo e incomensurável desafio quando se é uma mulher, gênero sistematicamente violado e queimado nas fogueiras das especulações capitalistas. É por isso que estão no horizonte desse enfrentamento – da atriz em busca de seu teatro –, a condição de um tempo de fragilidade e uberização do trabalho (no seio da furiosa ambição neoliberal), e os ilusionismos que se expressam em disfarces tecnológicos.

Ou seja, estão em pauta as relações sociais nas redes de entretenimento e a sobrevivência num tempo de degradação do trabalho, quando a mais-valia assume nomes empresariais (induzindo o protagonismo dos “empresários de si”). O caso brasileiro é emblemático, como lembra Vladimir Safatle, pois em 2017 Michel Temer agudizou essa precarização: “conseguiu aprovar uma reforma trabalhista que representou a maior derrota da história da classe trabalhadora brasileira. Direitos consolidados foram apagados do mapa. Mulheres grávidas podiam agora ser obrigadas a trabalhar em lugares insalubres, e as jornadas de trabalho podiam chegar a doze horas por dia. Regras de demissão, descanso e férias foram radicalmente flexibilizadas. Tornou-se possível negociar entre sindicatos e empresas condições de trabalho diferentes das previstas em lei, mesmo que prejudicassem os trabalhadores e as trabalhadoras. Caso estes perdessem ações contra seus empregadores, deveriam pagar os custos do processo e os honorários advocatícios da parte contrária”.[i]

2.

Nos anos que se seguiram, a extrema direita brasileira aprofundou ainda mais essa situação. Na mesma linha, a violência dos conglomerados de tecnologia operou o achatamento das intuições espaço-temporais (intuições fundamentais para a compreensão da realidade). O espaço se perdendo na atopia (o não-lugar) e o tempo se retraindo ao instante (o agora). Esse novo expediente favorece as relações de poder e de controle sobre as ações dos usuários.

É nesse sentido que Marilena Chaui chama atenção para as interpretações de Laymert Garcia dos Santos, autor do livro Politizar as tecnologias. Segundo Chaui, o autor ressalta que “o capital global privatiza as telecomunicações, coloniza a rede e faz o loteamento do campo eletromagnético, visando controlar o acesso ao chamado ciberespaço, não sob a forma da relação de compra e venda com seus clientes, e sim de fornecimento e uso. Trata-se, portanto, de um novo tipo de mercado em que o cliente, ou melhor, o usuário, é transformado em mercadoria porque a estratégia de venda não consiste mais em vender um produto para o maior número de clientes, mas em vender no ciberespaço o maior número de clientes para uma empresa”.[ii]

Como manter o bom humor diante desse panorama? Como representar comicamente esses impasses? O ponto de partida para Milla Fernandez é que rir é um modo de compreender. A atriz performatiza nesse limiar entre o grave e o risível, entre a compreensão da realidade política e a ironia subjacente aos acontecimentos. Embora essas questões acima (do trabalho e da tecnologia) não sejam tratadas explicitamente na peça, elas são potenciais às leituras dos espectadores e, dessa forma, vão ganhando espaço de reflexão.

Não há qualquer moralismo na estética do espetáculo TIP, não há uma crítica política panfletária, mas não há tampouco qualquer consentimento fatalista a esse estado de coisas. Tudo se passa com uma atriz em perfeito domínio de seu corpo e sua voz, que burla os dispositivos tecnológicos, performatizando sentimentos, ironizando falsas relações, tensionando a violência que a atinge. Por vezes, faz uso dessa violência a contrapelo, tendo em vista uma alternativa à atuação que lhe é ceifada. Milla Fernandez em cena, como o poeta Fernando Pessoa, “finge tão profundamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.

3.

A sinopse da peça anuncia que estamos diante de uma autoficção, uma atriz que para obter renda e sobreviver num período pandêmico passa a atuar como camgirl, ganhando a gorjeta ou a dica (TIP) para atuar em performances sensuais e eróticas. Desafia, portanto, os tabus do sexo, as relações familiares tradicionais, o estado de capital cultural que artistas frequentemente são impelidos a representar.

E é talvez por isso que a crítica existencial da atriz se projete justamente nesse limiar da ação cômica e trágica: o limiar entre a ironia e o estupor, o riso e o semblante que se desfaz na desilusão. Milla Fernandez ri da ilusão, embora sem perdê-la de vista e da ação cênica, mas ri sobretudo da desilusão que chega ao espectador tardiamente. É que essa “fala de si”, essa autoficção é, em realidade, uma fala que engolfa todos os espectadores que se aventuram nesse impressionante espetáculo.

É uma narrativa que, queiramos ou não, nos diz respeito. É com esse encontro inadiável que o espectador precisa lidar ao assistir TIP. Como disse Alain Badiou “o teatro é o lugar exato para esses cruzamentos em que continuamos o adiamento deleitoso de toda a representação”.[iii]

A característica do encontro e não do solilóquio é o que faz com que TIP seja também uma peça composta por várias mãos, com uma equipe de produção coesa e competente. A sensível direção está a cargo do experiente e reconhecido diretor de teatro Rodrigo Portella. Rodrigo Portella é também companheiro de Milla Fernandez, e os dois artistas vivem há 7 anos em Barcelona (Espanha), local onde o diretor distribui sua premiada produção internacional.

Vale sublinhar que Rodrigo Portella dirigiu a peça (ainda em cartaz) Ficções, com a exuberante atuação de Vera Holtz, e a peça Ensaio sobre a cegueira, baseada na obra de José Saramago, em montagem com o Grupo Galpão. Rodrigo Portella fará ainda a direção (já em fase de preparação) de Fim de jogo, de Samuel Beckett, com Marco Nanine no elenco.

Essa rápida lista de títulos corrobora a atuação estético-política do diretor, que articula em seus trabalhos temas cruciais como a opressão e a desigualdade no campo, como na peça Tom na Fazenda, que teve temporada bem-sucedida na França.

Essas questões se completam com as problematizações existenciais de Ficções e a denúncia de uma fome tamanha que em Ensaio sobre a cegueira, como observa André Queiroz, revela o cinismo de uma cegueira social que se equilibra na conveniência. Nota-se a configuração e a importância dos temas flagrados e trabalhados pelo diretor.

Além da excelente sonorização/sonoplastia (de Virgínia Bravo), da iluminação e cenário (de Rodrigo Portella), do figurino (de Karen Brusttolin) e da produção de Ártemis Produções Artísticas, outro ponto de destaque é a música de Federico Puppi e Leo Bandeira, que imprime ao espetáculo, nada mais nada menos, que a unidade entre texto e cena.

O violoncelista Puppi (diretor musical de TIP) é também o responsável pela música de Ficções e Ensaio sobre a cegueira, nutrindo uma conectada parceria com Rodrigo Portella.

4.

Ousaria dizer que essa atmosfera abre espaço peculiar para que Milla Fernandez se inscreva na linhagem de atuação teatral de Vera Holtz. A vivência de Vera Holtz no teatro, no cinema e na televisão, além de seu trânsito pela música e pelas artes plásticas mostram uma maturidade artística das grandes atrizes brasileiras.

Em Ficções, a expressão corporal, o domínio gestual (nomadizado em cada um dos personagens que ela mesma encena), a afinação e a tessitura vocal, os diferentes sotaques (que reativam as pulsações culturais brasileiras), os sentimentos que pululam de cena em cena criando o enovelamento ficção-confissão-realidade, são também elementos presentes na singular atuação de Milla Fernandez.

No caso da peça TIP, Milla Fernandez ainda esbanja a elasticidade das ações físicas, canta, dança, fala inglês-espanhol-português, toca saxofone, pisa e repisa (como se pisasse numa incógnita) os tapetes vermelhos disposto no chão do palco em formato de X, um dos poucos objetos que compõem o cenário beckettiano de TIP, onde a atriz caminha às vezes em direção ao êxito e, outras vezes, aos percalços e tropeços que a vida apresenta.

Na abertura do espetáculo, um saxofone tocado pela atriz reverbera algumas notas que se dispersam na sala de teatro. Essa frase incrustada, esse acorde suspenso cria a sensação de um leitmotiv que será recobrado pela atriz em outros momentos da performance. Na parede de fundo do palco, projeta-se uma tela de computador, onde a atriz escreve trechos do roteiro como se o jogo de cena se criasse naquele momento.

Cada flash de iluminação, cada onomatopeia sonora, cada canção, são comandadas por ela, como se operasse um dispositivo “alexiado”, embora sem o impacto da magia tecnológica. As várias vozes que se pluralizam na performance da atriz e o ritmo de movimento empregados em cena dão a tônica da apresentação e fazem com que a ação se reconecte a cada intervalo de movimento.

A cada abertura de refletores, nos variados pontos do palco, nosso foco entra numa espécie de vertigem para acompanhar o ritmo de movimento e encadeamento das cenas. De um ângulo a outro em que as luzes se acendem e se apagam se recria um sentimento, uma cena, um acontecimento…

Milla Fernandez e seus parceiros em TIP se antecipam às chamas e incendeiam nossa imaginação com reflexões, problemas, perguntas e ações. Tudo isso nos faz acompanhar o ponto exato em que a representação nos chega e nos transforma, nos faz compreender, nos choca, nos pletora, nos faz sentir o acerto e o fluxo da errância.

Como disse o poeta Paulo Roberto Sodré: “Cair em si mesmo / é belo como um girassol olhando Hélio / Mas é queda”[iv]. Esse cair em si após o salto, o tropeço, a queda, nos faz retomar as reticências da epígrafe deste escrito. É que quando o espectador entra na vida cênica da atriz, depara-se ao mesmo tempo com os meandros de sua própria vida, pois se vê, de repente, projetado na ficção do teatro.

*Gaspar Pazé professor Departamento de Teoria da Arte e Música da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autor, entre outros livros, de Interpretações de linguagens artísticas em Gerd Bornheim (Edufes).

Notas


[i] Vladimir Safatle. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 11. [https://amzn.to/4bxWM2j]

[ii] Marilena Chaui. Filosofia, um modo de vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 108. [https://amzn.to/4teuXlX]

[iii] Alain Badiou. Pequeno Panteão portátil. São Paulo: Martins Fontes, 2017, p. 91. [https://amzn.to/4kl9ZOo]

[iv] Paulo Roberto Sodré. “Embaraço”. Poemas de pó, poalha e poeira. Vitória: Secult, 2009, p. 32.

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