Viva, Bolsonaro!

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Por JEAN MARC VON DER WEID*

A sobrevivência de Bolsonaro mantém a direita refém de seu próprio mito, travando qualquer projeto de sucessão que não passe pela família e impedindo a construção de uma alternativa viável para 2026

1.

Quem olhar o título distraidamente vai começar a catar pedras para fulminar este autor. Os amigos balançarão tristemente a cabeça e comentarão: “coitado, deve ser Alzheimer”. Antes que isto ocorra chamo a atenção para a vírgula estratégica que dá outro sentido a um aparente aplauso ao energúmeno.

Sim, para todos que odeiam o nefando personagem que nos presidiu durante quatro anos de tragédias, muitos dos quais gostariam que tivéssemos pena de morte no Brasil para vê-lo rastejar para o cadafalso eu repito, que Jair Bolsonaro é melhor vivo do que morto.

No meio de acessos de soluços e de vômitos originados, segundo seus médicos, pelas consequências da fakeada de Juiz de Fora, a saúde do pseudo “cavalão” está declinando, abrindo a possiblidade de que ele se afogue em dejetos ou arrebente a caixa toráxica e parta desta para a pior.

Imagino que os candidatos a presidente da direita e até a própria famiglia estejam torcendo por este desenlace. Jair Bolsonaro morto seria imediatamente promovido de mito a mártir e podemos antecipar a frenética atividade dos algoritmos acusando Lula, Xandão e a esquerda de algozes do golpista mor.

Em uma só tacada a extrema direita ganharia uma bandeira emotiva para mobilizar sua base fanática e atrair os sentimentais da direita e do centro sensibilizados pelo “martírio” do personagem. Podemos esperar o surgimento de uma carta de despedida fake, com uma plataforma política exprimindo as posições regressivas do bolsonarismo e a abrindo a porta para um culto ao mito.

Como todo mundo já ouviu alguma vez, a história se repete, de tragédia transformada em farsa. Tragédia foi o suicídio de Getúlio Vargas, que o transformou, da noite para o dia, de um presidente isolado em uma herança política permanente. O mesmo, mutatis mutandis, foi a morte de Evita Perón. Os exemplos são muitos na história recente ou antiga (Cristo, Cesar, outros).

2.

Jair Bolsonaro vivo mantém a extrema direita dividida entre o foco em salvar seu líder da prisão e a necessidade de seguir adiante na busca de um candidato que possa carrear os 15 a 20% do voto bonsonarista “raiz” e atrair o voto da direita não bolsonarista (Centrão e outras denominações) para enfrentar Lula em 2026.

Jair Bolsonaro está bloqueando as articulações eleitorais e se recusa a designar um “sucessor”, sobretudo um sucessor que não seja ele mesmo ou alguém da famiglia. Enquanto o mito não aceitar que está fora do jogo político direto as candidaturas deste amplo e dividido campo não conseguem vingar.

O candidato in pectore da Faria Lima e do Agronegócio, entre outros da nossa podrida elite econômica, é o governador Tarcísio de Freitas, mas ele morre de medo de ser bombardeado por Jair Bolsonaro e sua família. Tarcísio de Freitas teme uma candidatura puro sangue do bolsonarismo extremista que repita a aventura de Pablo Marçal em São Paulo, que quase derrubou o prefeito incumbente na capital, mesmo com o apoio (molenga, é verdade) de Jair Bolsonaro.

As pesquisas mostram Tarcísio de Freitas como o candidato mais quotado para enfrentar Lula, mas se ele tiver que enfrentar Michelle no primeiro turno (Eduardo deve estar fora do jogo fritando hamburguer no frio americano e os irmãos não têm a mesma tração dentro da bolha) ele pode ficar em terceiro, até porque Ciro Gomes aparece bem quotado e crescendo nas pesquisas.

Jair Bolsonaro não tem cacoete de articulador e estrategista político. Fora de palanques e motociatas, onde ele expressa em linguagem xula o seu pobre conteúdo de extremo reacionarismo, ele é um trapalhão, um vacilão e um teimosão. Waldemar Costa Neto, presidente do PL, está cortando um dobrado para evitar as burradas do mito e a política kamikaze de Eduardo.

Ele está louco para Jair Bolsonaro sair do caminho para ele pôr em prática a sua estratégia, menos voltada para ganhar as presidenciais e mais para aumentar as bancadas do partido na Câmara e no Senado, acumulando forças para negociar com o novo presidente, seja quem for.

O Centrão tem o mesmo problema. Sabe que precisa do voto bolsonarista, mas também sabe que só isso não garante a vitória, sobretudo se a atual recuperação da popularidade de Lula se consolidar. Tarcísio de Freitas, por sua vez, já vestiu a roupagem de bolsonarista raiz para garantir o voto da bolha, mas com isso perdeu espaço na direita tradicional. O Centrão já está procurando um substituto, mas os autoproclamados candidatos (Ratinho, Caiado e Zema) não aparecem como viáveis, por enquanto.

Resta o outsider Ciro Gomes, em sua roupagem mais à direita em todas as eleições em que participou, mas seria uma surpresa se ele for ungido como candidato da frente que já se aglutinou em apoio a Tarcísio de Freitas. O personagem não é exatamente confiável dado o seu caráter explosivo e as muitas reviravoltas políticas da sua vida. Só vai emplacar se tiver um ascenso vigoroso nas pesquisas e se tornar um concorrente incontornável para a direita e o centro direita, podendo ainda sofrer a concorrência de um candidato bolsonarista raiz no primeiro turno e até um voto nulo extremista da bolha no segundo, prometido por Eduardo “Bananinha”, para manter a tribo sob controle.

Com este quadro de insegurança total a direita navega às cegas, esperando que a esfinge fale e defina seu apoio e a participação da famiglia na chapa. Um dia Jair Bolsonaro admite a candidatura de Tarcísio de Freitas com Michele na vice. No outro o vice é Fábio. No dia seguinte ele volta a insistir na luta por sua anistia, embora esta pareça devidamente enterrada (na Câmara ressabiada com sua rejeição nas pesquisas, no Senado querendo ficar bem na fita, no STF e, sobretudo nas ruas), sem direito a extrema unção.

3.

Enquanto a direita se estraçalha neste impasse, assegurado pela política de avestruz de Jair Bolsonaro, que adia a sua saída do palco, Lula nada de braçada em um revival inesperado para quem viu sua popularidade e a avaliação de seu governo derreter no primeiro trimestre deste ano.

O tarifaço de Donald Trump jogou no colo de Lula a bandeira da defesa da soberania; o voto pelo PL da impunidade (ou da impunidade da bandidagem) e o da urgência da anistia para os golpistas foi repudiado pela grande maioria em todas as pesquisas de opinião; as grandes manifestações de massa de setembro acuaram o Congresso e o bolsonarismo; a condenação dos golpistas pelo STF, bem avaliada nas pesquisas, colocou a direita parlamentar e o bolsonarismo na defensiva.

Tudo isto abriu caminho para o governo conseguir votar o PL do imposto de renda, habilmente defendido por Lula e a esquerda como o PL dos pobres contra os ricos. Por outro lado, o brilhante discurso de Lula na ONU rendeu dividendos eleitorais, sobretudo pelo contraste com o pífio discurso de Donald Trump.

Há e haverá problemas e desgastes no caminho de Lula até outubro do ano que vem. O primeiro vai ser a COP 30, que tem tudo para ser um desastre ou, no mínimo, um fiasco. Mas o mais perigoso é a tentativa do governo de se acomodar com o Congresso, na esperança de aprovar uma longa série de projetos de lei que podem render dividendos no ano que vem.

A troca de favores, via liberação de emendas parlamentares é um perigo enorme, já que a aposta do bolsonarismo e do fisiologismo é a derrama de dinheiro em 2026, irrigando as bases de deputados e senadores em busca da reeleição, superar a rejeição de suas excelências.

Continua faltando ao governo um projeto estratégico que enfrente as mazelas do país. A um ano das eleições é mais importante o governo se demarcar da maioria parlamentar de direita e fisiológica do que se desgastar negociando projetos que serão derrotados ou desfigurados pelo Congresso. Como apelar para um voto demolidor em 2026 contra este parlamento malvisto pelo eleitorado se o governo e os partidos ditos progressistas se lambuzam em concessões à vala comum do bolsonarismo e do Centrão?

É preciso levantar bandeiras e programas voltados para o futuro do povo e do país e deixar o desgaste de rejeitá-los no colo da maioria direitista, demarcando terrenos para as próximas eleições. O governo segue com sua estratégia de distribuir benesses no varejo e concessões no atacado, apostando em uma melhora do nível de vida (emprego, renda, consumo) da população. O governo esquece que a precarização dos serviços públicos (saúde, educação, saneamento), herança histórica muito piorada pelo governo Bolsonaro e pela COVID, pesa na imagem de Lula para o ano que vem.

É claro que um programa estratégico de desenvolvimento inclusivo não é uma panaceia para um candidato incumbente, já que o eleitor sempre pode se perguntar por que tal programa não foi aplicado nos quatro anos de governo. A resposta óbvia é jogar a culpa no Congresso que, de fato, travaria qualquer projeto mais consequente, mas a busca de acordos com a maioria parlamentar ofusca este discurso. Para o eleitor a diferença entre a esquerda e o resto do Congresso se diluiu, com a rara exceção do voto pela isenção dos mais pobres no imposto de renda e mesmo neste caso o governo perdeu uma oportunidade de mostrar quem é quem, com Lula dividindo os louros da vitória com seus algozes da direita.

Apostar em uma eleição repetindo os contornos da última é um risco enorme. Em 2022 a luta era pela defesa da democracia e do Estado de Direito, contra o golpismo do bolsonarismo no poder. Deu certo, mas por muito pouco. Em 2026 temas mais colados na vida das pessoas devem prevalecer, se forem capazes de superar a derrama de dinheiro das emendas.  

A direita, travada nas suas articulações pela burrice e imediatismo de Jair Bolsonaro, entra na arena em posição desfavorável. Rezemos para que o mito continue vivo e teimosamente disruptivo até as eleições. Mas lembremos que nestas eleições, mais do que nunca, o que importa é uma vitória na eleição presidencial combinada com uma limpeza das “cavalariças de Áugias” do Congresso.[1]

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

Nota


[1] A limpeza das cavalariças de Áugias foi um dos Doze Trabalhos de Hércules. Vide o livro de Monteiro Lobato.


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