Jean-Paul Sartre em São Paulo

Imagem: Marlon Griffith
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Por BENTO PRADO JR.*

Reminiscência da visita do filósofo francês à capital paulista em 1960

Quando Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir estavam para chegar a São Paulo, acompanhados por Jorge Amado, o hoje psicanalista Luís Meyer me procurou para ver se era possível fazer uma entrevista com os dois escritores na televisão. Procurou-me porque sabia de minha amizade com Manoel Carlos, que então estava trabalhando na TV Excelsior.

Após contato com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que concordaram com a idéia, nos encontramos pela primeira vez na televisão na hora da entrevista. Além de mim, entre os entrevistadores estavam presentes Ruy Coelho, Fernando Henrique Cardoso e o próprio Luís Meyer.

Depois desse primeiro contato passamos a nos ver praticamente durante todos os dias em que durou a estadia do casal em São Paulo. No mais das vezes, na casa do Fernando Henrique, onde quase sempre estavam presentes os membros do seminário sobre o capital: Ruth Cardoso, José Arthur Giannotti, Paul Singer, Roberto Schwarz e outros.

Jean-Paul Sartre era sempre extremamente simpático e generoso. Chegou a nos oferecer todos os textos da revista Temps modernes, que poderíamos republicá-los livremente numa revista que cogitávamos e que nunca se tornou realidade.

Simone era obrigada a controlar um pouco Sartre, desde o consumo de álcool até o tempo gasto conosco. Lembro-me de Sartre pedindo um terceiro uísque e da intervenção em contrário de Simone. Sartre dizia: “Só mais um!”. Ela respondia: “Não”. Mas ele chegava a um acordo, pedindo: “Só meia dose?”. Do mesmo modo, ao fim da noite, ele nos perguntava a que horas nos encontraríamos no dia seguinte e sugeria “nove horas”. Simone dizia: “Dez horas”. O mesmo esquema do uísque funcionava: “Nove e meia?”.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir lembra-se de nossos encontros numa frase rápida, quando fala de “jovens universitários muito cultos”. Jovens, pois tudo isso se passou em meados de 1960.

São Paulo, à época, foi tomada por uma “epidemia Sartre”. Houve várias conferências, todas elas com um público enorme. Lembro-me, para dar um exemplo, de que estava entre nós o filósofo Gilles-Gaston Granger, dedicado à epistemologia e muito distante do universo intelectual de Jean-Paul Sartre. Pois bem, até ele me disse: “Acho que Sartre é o maior filósofo contemporâneo, pois as últimas coisas do Heidegger…”.

Se não me falha a memória, o poeta Mário Chamie (que, no entanto, apreciava desde meados da década de 1950 o livro O que é a literatura?) passou, justamente por ocasião da presença de Jean-Paul Sartre, do estrito concretismo à sua “poesia práxis”.

O que aconteceu na TV Excelsior, na verdade foi uma pseudo-entrevista. Antes de entrarmos no palco, Sartre e Simone nos comunicaram as perguntas que gostariam de responder. Todas eram orientadas na direção da defesa da Argélia (em guerra com a França) e de Cuba.

Lembro que foi aqui no Brasil, por essa ocasião, que Jean-Paul Sartre assinou o famoso Manifesto dos 121, em defesa dos rebeldes argelinos, que tanto ruído provocou na França (de retorno à França, Jean-Paul Sartre não foi preso porque, segundo o general Charles de Gaulle, “não se prende Voltaire”).

O divertido é que me coube a seguinte pergunta, endereçada a Simone de Beauvoir: “Cuba é uma ditadura?”. Ela respondeu pela negativa e com tanta violência que fez um espectador na platéia perguntar a meu amigo Jorge da Cunha Lima: “Quem é esse rapazinho reacionário?”. Meu amigo teve de explicar-lhe o contexto, livrando-me da desagradável qualificação.

A entrevista teve três horas de duração, para espanto de Jean-Paul Sartre, que perguntava como era possível que uma empresa capitalista perdesse tanto dinheiro (suspendendo seus programas durante esse horário) para dar lugar a uma pura propaganda do socialismo.

Sartre filósofo midiático? Sim e não. Não, porque antes de se empenhar no seu “engajamento” político, sua obra extraordinária (filosofia e literatura) atingia apenas o público diretamente interessado, mais ou menos cinco mil pessoas na França, segundo o próprio Jean-Paul Sartre. Logo no imediato pós-guerra, tudo mudou. Jean-Paul Sartre começou a escrever para jornais (Heidegger, com inveja de tanto sucesso, chamou-o de mero jornalista, depois de tê-lo qualificado de extraordinário) e mesmo a agir por meio de um programa radiofônico.

Mas Jean-Paul Sartre viveu essa metamorfose como uma catástrofe. Dizia ser muito penoso conviver e dividir sua intimidade com esse outro insuportável – o Jean-Paul Sartre famoso. De resto, sua entrevista na televisão em São Paulo foi a primeira que aceitou fazer. Até então, sempre recusava convites dessa natureza. Mais que midiático, Jean-Paul Sartre era um filósofo essencialmente ativo politicamente. O filósofo midiático posterior é aquele que se identifica narcisicamente com esse outro produzido socialmente, “como uma mercadoria”.

De Jean-Paul Sartre ficou o exemplo de um grande filósofo, tão raro em nossos dias, em que predomina a filosofia escolar. Hoje, até mesmo no campo extremamente técnico das ciências cognitivas, há uma espécie de retorno generalizado à fenomenologia em geral e até mesmo aos escritos de Jean-Paul Sartre. Seguramente sua obra não é “coisa do passado”.

Sua obra literária é desigual. Para mim, Os caminhos da liberdade parecem pouco interessantes. Muito mais significativo é A náusea e, sobretudo, os contos reunidos em O muro, que são extraordinários. Além, é claro, de sua grande obra teatral.

*Bento Prado Jr. (1937-2007) foi professor titular de filosofia na Universidade Federal de São Carlos. Autor, entre outros livros, de Erro, ilusão, loucura: ensaios (Editora 34).

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 12 de junho de 2005.

 

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