Bahia: inquisição e sociedade

Imagem: Roger Hilton (1960)
image_pdf

Por RONALDO VAINFAS*

Comentário sobre o livro de Luiz Mott

Luiz Mott é antropólogo por formação e historiador por vocação. Uma ambivalência excelente, como atesta a sua vasta obra histórica, sempre original, documentada e pioneira.

Bahia: Inquisição e sociedade é mais uma demonstração de sua consistência enquanto historiador e, mais que isso, da desenvoltura com que se move nos diversos domínios da história. Reunindo estudos baseados em fontes inquisitoriais – mas não somente nelas – o livro resgata a história colonial baiana pelas margens, enfocando temas ausentes de qualquer história da Bahia, por assim dizer, mais canônica.

A escolha de alguns temas abordados no livro parece inspirada no que escreveu o jesuíta italiano, Jorge Benci, em fins do século XVII: “Oh, se pudessem falar as ruas e becos das cidades e povoações do Brasil! Quantos pecados publicariam, que encobre a noite e não descobre o dia… e a que a pena treme e pasma de os escrever”. A pena do jesuíta tremia só de pensar nos pecados da Bahia de Todos os Santos. O teclado de Luiz Mott, pelo contrário, é dedilhado com entusiasmo e sofreguidão incontidas.

Isto vale, antes de tudo, para os textos relacionados à sexualidade e à feitiçaria. “Desventuras de um degredado sodomita na Bahia seiscentista” é um primor de micro-biografia, cruzando história cultural e social, tudo temperado por cópulas, beijos e afagos entre o personagem e seus parceiros.

“Um dominicano feiticeiro em Salvador Colonial” nos conta a história espantosa de frei Alberto de Santo Tomás, religioso que combatia o diabo recorrendo a curandeirismos e benzeduras. Seus pacientes, assegurava o frade, expeliam o mal por meio de imundícies variegadas, desde alfinetes até “bichos, cabelo de sovaco e cabelo de negro”.

“Quatro mandigueiros do sertão de Jacobina” oferece valiosa evidência da religiosidade africana, bem como da ação inquisitorial contra escravos, coisa não usual naquele tempo. Mais usual, pelo contrário, era a violência senhorial contra os escravos, assunto de “Tortura de escravos e heresias na Casa da Torre”, estudo clássico de Mott sobre as crueldades perpetradas por Garcia d’Ávila Pereira de Aragão, o maior latifundiário do Brasil no século XVIII.

A versatilidade de Luiz Mott enquanto historiador aparece, com nitidez, em dois textos de história institucional, “A inquisição em Ilhéus” e “O Cônego João Calmon, comissário do Santo Ofício na Bahia”, ambos voltados para as relações entre a máquina inquisitorial na Bahia e a sociedade colonial. O livro se encerra com um estudo de história total, na longa duração (1740-1854), englobando demografia, economia e sociedade. Mas o assunto é de inspiração etno-histórica: a população indígena do sul da Bahia. Luiz Mott trata desses temas mais convencionais com a mesma perícia revelada no tratamento dos temas picantes. O mesmo rigor heurístico. Quase a mesma paixão…

As primeiras palavras do livro revelam o perfil de intelectual engajado de Luiz Mott, ao condenar, a propósito da história inquisitorial, “qualquer tipo de intolerância” e fundamentalismo sectário. As palavras finais da obra retomam o espírito idealista: “que índios, negros e brancos construamos uma nova sociedade baseada na igualdade de direitos de todos os cidadãos, independentemente de sua raça, sexo ou orientação sexual”. Assino embaixo das palavras de Luiz Mott, historiador que, sem prejuízo do rigor científico, produz uma história sensível, solidária e humanista.

*Ronaldo Vainfas é professor aposentado de história da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil Colonial (Companhia das Letras).

Publicado originalmente no Jornal de Resenhas no. 10, novembro de 2010.

 

Referência


Luiz Mott. Bahia: inquisição e sociedade. Salvador, EDUFBA, 294 págs.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
5
O pior país do mundo
20 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Israel é um estado genocida e terrorista cuja existência é agora colocada em xeque; já os EUA não operam como uma democracia, mas sim como uma plutocracia, uma cleptocracia e uma kakistocracia
6
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
7
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
8
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
9
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
10
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
11
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
12
O cruzado, o imperador, e seu ataque aos persas
21 Mar 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: Da hesitação de Trump à resposta surpreendente dos persas, o que se anuncia não é uma vitória rápida, mas uma nova ordem forjada à força, onde o risco nuclear vira moeda corrente e a soberania se redefine pela capacidade de resistir ao arbítrio
13
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
14
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
15
Formação territorial do Brasil
20 Mar 2026 Por LARISSA ALVES DE LIRA: A compreensão da formação territorial brasileira exige distinguir as intenções econômicas das intenções políticas que, embora sobrepostas, obedeceram a lógicas distintas
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES