Gente e bicho… é tudo a mesma coisa

Imagem: Engin Akyurt
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Por SAMUEL KILSZTAJN*

A quase totalidade dos judeus israelenses e da diáspora apoia a existência de um país artificial que, desde antes de sua criação, oprime e extermina a população natural da Palestina

Nise da Silveira, pouco antes de partir, sentada em cadeira de rodas no seu apartamento em Botafogo, curvada pela idade, olhou fixo para nós, com seus olhos penetrantes, apontou o dedo para o pequeno grupo ali reunido e disse que queria que lembrássemos que “gente, cachorro, gato… é tudo a mesma coisa”.

Os chineses se alimentam de gatos e cachorros, para horror dos ocidentais, que poupam estes amigos, mas consomem outros primos. Para ficar mais fácil sacrificá-los, os ingleses (e norte-americanos) resolveram o mal pela raiz (da palavra). Os ingleses comem chicken, lamb, pork and beef; mas hen, sheep, pig or cow, nem pensar. Se você perguntar para um norte-americano se ele come pig ele vai ficar horrorizado, pois ele só se alimenta de pork. Contudo, o sangue destes analfabetos, ingerido pelos humanos, certamente se manifesta no comportamento de quem se alimenta de animais sacrificados.

Quando se quer degradar uma pessoa, é comum referir-se a ela como “um animal” ou como “um cachorro” (coitado, a alcunha tinha mesmo que sobrar para nosso pobre e fiel amigo, não é?!). A desumanização de pessoas e povos também é usada para facilitar o seu extermínio. Leonardo da Vinci, Liev Tolstoy, Mahatma Gandhi e Isaac Bashevis Singer consideravam que, enquanto houver abatedouros, haverá guerras.

A degradação do povo palestino, “esses animais”, faz parte da tática do Estado de Israel na atual guerra em Gaza, que está longe de ser uma guerra, é mais propriamente uma carnificina que compreende o extermínio da população civil em massa, mutilação, destruição de edificações e instituições, aviltamentos que serão traduzidos em traumas que acompanharão os palestinos por gerações. Alimentado pelos governos dos Estados Unidos e da Europa, o assimétrico poder bélico de Israel em relação ao povo palestino determina quanto vale cada vida, quem são os humanos e quem são os animais. “Israel, necropoder e desumanização”, assinado por Lincoln Veloso, enfatiza a manipulação política e ideológica, o processo de desumanização do povo palestino que está na base do massacre em curso.

Muitas pessoas continuam assistindo impassíveis à carnificina em Gaza. Não gostam, em sua zona de conforto –  já bastam os problemas que as cercam no dia a dia –, de se preocupar com desgraças alheias. Sentadas em seus sofás, assistindo ao massacre em tempo real e em cores como se fosse entretenimento, em consonância com a grande mídia, há pessoas que justificam a sua inação responsabilizando a sorte dos palestinos pelos seus próprios pecados, sem se preocuparem minimamente em entender a desgraça que se abateu sobre eles desde o início do século XX.

Em 1917, com a Declaração Balfour, a Inglaterra, então dona do mundo, ofereceu aos judeus as terras habitadas por uma indiscutível maioria palestina (92% da população). O detalhado estudo do historiador palestino Rashid Khalidi, Palestina: um século de guerra e resistência (1917-2017), assim como as pesquisas dos novos historiadores israelenses, desautorizam a versão oficial do Estado de Israel.

A esquerda sionista, hipócrita, iludindo os palestinos, abriu o caminho para a direita franca terminar o trabalho. Nas palavras de Khalidi, “Jabotinsky e seus seguidores estavam entre os poucos francos o bastante para admitir publicamente e sem rodeios a dura realidade que seria inevitável enfrentar na implantação de uma sociedade colonial num lugar com uma população existente… Ele [Jabotinsky] escreveu em 1923: ‘Toda população nativa no mundo resiste à colonização enquanto tiver a mínima esperança de ser capaz de se livrar do perigo de ser colonizada. É isso que os árabes na Palestina estão fazendo, e continuarão a fazer enquanto existir uma solitária faísca de esperança de que serão capazes de evitar a transformação da Palestina na Terra de Israel.’” 

Além de massacrar os palestinos, os sionistas resolveram também se apossar e deter a patente dos vocábulos genocídio e antifascista. Os judeus, vítimas por excelência de genocídio pelo fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, seriam antifascistas por definição. Essa assertiva talvez possa ainda causar efeito na geração do pós-guerra que cresceu sob o impacto do Holocausto, mas não nas novas gerações, para as quais o testemunho do atual massacre do povo palestino fala mais alto.

Até há pouco tempo, o genocídio dos judeus era sempre utilizado como referência por outros povos e camadas sociais vitimizados. Entretanto, dado o apoio incondicional quase absoluto dos judeus ao Estado de Israel, eles estão deixando de ser citados nas manifestações em que se mencionam os povos indígenas, negros, ciganos, arménios etc.

Meus pais, judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, que perderam seus avós, pais, irmãos, primos e sobrinhos, nove a cada dez parentes sentenciados como subumanos, vermes, perderam suas casas, cidades e pátria, imigraram em 1948 para Israel e abandonaram a “Terra Prometida” em 1953.

Eu nasci em Jaffa, uma cidade eminentemente árabe, que até as Nações Unidas, em seu plano de partilha de 1947, haviam reservado aos palestinos. Contudo, para evitar o enclave, mesmo antes da criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, os sionistas se encarregaram de jogar no mar 45 mil árabes de Jaffa, que ancoraram no Líbano.

A quase totalidade dos judeus israelenses e da diáspora apoia a existência de um país artificial que, desde antes de sua criação, oprime e extermina a população natural da Palestina. Mas eu, que herdei dos meus pais valores humanistas, pacifistas e internacionalistas, não me reconheço, não me sinto e não quero fazer parte deste grupo de opressores. Então fico dividido entre continuar dissidente e mudar a minha identidade para palestino budista.

Algumas pessoas já se adiantaram para me assegurar que os antissemitas não vão referendar minha mudança de identidade. Outras me advertiram que não serei aceito entre os palestinos, como é que um palestino poderia confiar em um judeu? Mas não é isto que me importa. Não estou buscando escapar ao referendo antissemita, nem ser aceito pelos palestinos. Minha crise de identidade é o que me mantém íntegro.

* Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Jaffa [amz.run/7C8V].


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