Babygirl

Frame de "Babygirl" dirigido por Halina Reijn/ Divulgação
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Por SAULO DOURADO*

Comentário sobre o filme de Halina Reijn, em exibição nos cinemas

O sonho americano ganhou elementos: além da ascensão individual até o sucesso, possível em uma terra da liberdade, é preciso assumir compromissos de responsabilidade social, como equidade e promoção a diversidades. Não basta chegar ao topo, interessa mostrar como se está aberto a incluir subalternizados em sua aventura.

Somente assim haverá uma jornada do herói verdadeiro, ganhar e incluir, em que a vida pública espelha uma vida privada de exemplos. No filme Babygirl, a protagonista terá que assimilar mais uma camada, que é a vida íntima incontrolável. Conseguirá colocar mais essa camada como uma conquista de território, como uma força de progresso?

A CEO de uma empresa de robótica, Romy (Nicole Kidmann), é a figura em questão, que pretende equilibrar as duas facetas da América em uma só pessoa: alguém que atua pela família e pertence à tradição norte-americana de fotos com marido e filhas durante o Natal, como também alguém que adota as virtudes próprias do mundo corporativo, isto é, a alta produtividade, competitividade, a demonstração de força e o cuidado com a imagem de poder.

Já há uma alusão ótima em seu nome. Quando questionada por uma funcionária de onde teria surgido uma alcunha de batismo assim tão diferente, se seria de um país europeu, Romy disse que havia sido criada em uma comunidade alternativa. Podemos imaginar os pais trajados em estilo esotérico, nos anos 1960, homenageando a pequenina com algo espiritualista e oriental.

E agora ela é uma CEO de inteligências artificiais. Nada mal. É o pitaco mesmo de figuras como Mark Fisher em Os fantasmas da minha vida: os desejos da contracultura foram capturados e distorcidos pelo neoliberalismo, em que o indivíduo se expande plenamente, sem mais nada para privá-lo ou mesmo um Estado para contrapor-se a seu espírito. O episódio final da série Mad Men (2007-2015, de Matthew Weiner) bem nos apontava… Ela é uma mad woman, uma self made woman.

O neoliberalismo permite de fato que mulheres ganhem posição de poder, como o feminismo dos anos 1960 defendia e que a mãe de Romy provavelmente tratou em sua fazenda, talvez indo em protestos em San Francisco. Não seria a filha a realização daquela demanda? Factualmente, sim, mas há uma conquista cínica em todo esse painel. A superestrutura combatida nos anos 1970 se intensificou, em que cai o autoritarismo do Estado, mas também a sua proteção de bem-estar social, por aproveitamento, e agora todos estão incluídos para a livre competição pelo capital e pelo poder, e ao indivíduo não há mais fronteiras desde que ganhe o suficiente para a sua expansão.

Há só um território sem possibilidade de conquista por moeda de troca: a pulsão, o desejo íntimo. No fundo da alma ainda pode residir aquilo que não é representado por convenções, por hierarquias e mesmo por pautas justas. Em Romy há uma vontade nunca atendida de gozar da forma mais baixa, de transar como uma cadela. Por que não?

De um lado, ela é uma mulher respeitada, mãe de duas filhas crescidas e tem um companheiro amoroso que é também um pai atento e uma figura de destaque em sua área, modelo para outras mulheres em disputa de ascensão. Por outro lado, ela tem um limite, que é não conseguir satisfazer o seu desejo mais primário, uma devassidão interna que lhe acompanha por toda a vida.

Então surge o estagiário, Samuel (Harris Dickinson), um rapaz audacioso, ousado, mas sem o teor clássico da ambição. Ele é um meigo anárquico: faz amizade com todos, relaciona-se bem com os patrões, mas possui também um espírito de quem não se conecta de verdade com as instituições. Samuel é capaz de exigir direitos, de acreditar que as leis devem ser cumpridas, ao mesmo tempo, não vê sentido em etiquetas e em um cultivo formal de imagem pública.

Poderia ser um representante da Gen Z que o Vale do Silício tenta compreender com afinco: aquele que é capaz de se entregar a um trabalho sem acreditar e doar sua alma a ele. A flexibilidade é um mote tão forte que cada empresa pode ser uma porta a se abrir temporariamente. Não há laços definitivos, não há raízes a serem criadas.

Por essa brecha de presença, Samuel se sente à vontade para atender os desejos tais como são, sem as convenções fixas, e assim realizará de maneira bastante heterodoxa com Romy. O nome remete ao profeta Samuel, o último antes da monarquia definitiva de Israel (e qual será a “monarquia” contemporânea que ele anuncia?) Enquanto Jacob (Antonio Banderas), o marido de Romy é o representante da família e apenas está no início de todo o processo que criará Israel… “Sua visão é ultrapassada”, diz Samuel a Jacob em um dos momentos altos do filme, quando o triângulo amoroso se confronta.

No filme Teorema (1968), do diretor italiano Pier Paolo Pasolini, um jovem aparece em uma casa burguesa e seduz cada membro da casa, a ponto de destruí-la enquanto lar. A mãe se divorcia do casamento, o filho se torna artista, o pai abandona os negócios… Ou seja, o magnetismo da sedução chega para dinamitar toda a convenção da sociedade aristocrática. Seria Samuel um herdeiro de tamanho sedução? Seria de novo o desejo reprimido uma força capaz de colocar abaixo a moralidade de verniz e o acúmulo de riquezas como único fim?

A sagacidade da roteirista e diretora de Babygirl, Halina Reijn, está também em transmitir o espírito de nosso tempo. Não há um maio de 68 latente entre nós, como havia para o destemido rapaz em Milão. Talvez haja em Samuel a semente de anarquia que se pode se manifestar em uma grande revanche, como um Coringa ou Parasita, ou como o realíssimo Luigi Mangione, que assassinou um CEO da indústria de saúde no fim de 2024.

Não à toa a saída do personagem da trama, contada casualmente por Romy, seja em uma viagem para Tóquio, para trabalhar na Kawazaki, onde por simbologia pode se aludir tanto a total flexibilidade dessa nova figura de trabalho que é Samuel, quanto à longa espera por uma revanche, o espírito de vingança por vezes tão bem representado em ficções japonesas.

Romy não será aquela que destruirá a estrutura em troca de seu desejo, ela será aquela que é capaz ainda de assimilar ainda mais este desejo, porque sua jornada é uma progressão sem limites. A crise não dinamita sua casa, a crise é fagocitada para dentro dos mecanismos que lhe permitam ainda ser a mulher de sucesso e de referência com uma família modelar.

Se há uma vida pública a atender e uma vida privada a ser exemplo, em que até mesmo o erotismo precisa atender ou às convenções pré-1968 ou às pautas de justiça social pós-1968, ainda há uma terceira camada: a vida íntima, a imaginação. Que seja o desejo nosso animal de estimação, enquanto as forças sutis de peças computacionais, para não dizer engrenagens, prossigam em pleno funcionamento.

O realismo capitalista, que persevera na conclusão do filme, passa por se colocar sob jugo uma vida íntima como um subconjunto da vida privada, já aliada à vida pública. As estruturas se mantêm com avanços internos, complementados pela imaginação e pelo gozo do poder. “If I wanna be humiliated I’m gonna pay someone to do it” (Se eu quiser ser humilhado, vou pagar alguém para fazer isso). A frase de Romy pode se tornar um emblema para o capitalismo tardio que prossegue sem perdas de fôlego ao fim do primeiro quarto do século XXI.

Eis o paradoxo, em que a liberdade total pode ser atingida, até mesmo a liberdade de degradar-se, desde que se pague bem. As pulsões, próprias do território inconsciente, ainda não foram conquistadas em ações e mercado, e nem podem ser, mas há atravessadores e terceirizados para satisfação.

*Saulo Dourado é professor de filosofia do Instituto Federal da Bahia – campus Irecê. Autor, entre outros livros, de Mailon, o cão que late para o espelho (Caramurê Produções).

Referência


Babygirl
EUA, 2024, 114 minutos
Direção e roteiro: Halina Reijn.
Elenco: Nicole Kidmann, Harris Dickinson, Antonio Banderas


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