A questão parda – uma resposta

Imagem: Lisa
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por WANDERSON CHAVES*

Reintroduzir a miscigenação como tópico de luta antirracista não ajuda na disputa dos sentidos da negritude

Eberval Gadelha Figueiredo Jr., no artigo “A questão parda”, publicado no site A Terra é Redonda, levanta – a exemplo do que vem fazendo também a ativista e pesquisadora Beatriz Bueno, ambos, integrantes de uma tendência emergente – alguns temas do movimento da “parditude”.

Há o levantamento de pautas relevantes e pendentes: poder e direitos aos não-brancos sub-representados, em particular, os descendentes de indígenas não “indianizados”; e as condições de realização – em mérito e critérios de julgamento – das comissões de heteroidentificação das bancas julgadoras de cotas raciais. A fundamentação dos argumentos, interessantes à primeira vista, porém, são problemáticos – e, é o que tento sugerir – para o desenvolvimento da própria luta antirracista.

Trata-se de um programa político. A opus O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, em suas belas formulações utópicas sobre uma civilização mestiça brasileira farol do mundo, é uma fonte de inspiração explícita. Dessa obra, também provém – na parte que interessa a este argumento – uma fragilidade argumentativa: as premissas analíticas são a de uma célebre visão de história comparada, na qual o Brasil se sobressai sempre como o antagonista (negativo ou positivo) da América.

Um recuado e sugestivo antecedente dessa tendência remonta à escravidão nos dois países (e à disputa sobre seus legados). O debate bilateral neste tema geralmente atualiza uma conhecida tradição: Brasil e EUA se constroem como opostos, para, nessa operação, estabelecer – ou, principalmente propor e naturalizar – os princípios de sua própria identidade, e da formação da cidadania em seus países.[i] O argumento em jogo é o da superioridade moral, mas, Brasil e EUA nem sempre (infelizmente) são tão diferentes em matéria racial como se pressupõe, ou como se desejaria. Há mais indícios de diferenças de grau que de padrão separando as nações.[ii]

Beatriz Bueno, em seu artigo “Impedidos de entrar em Wakanda”[iii], parece, à primeira observação, propor uma altercação, questionando a hegemonia norte-americana no campo das ideias; porém, a sua argumentação contra a subsunção e apagamento do “pardo” é uma aplicação do “colorismo”, justamente, uma tendência estadunidense das últimas décadas. O que é chamado de “colorismo”, é bem verdade, é um tema antigo no Brasil, consagrado na nossa secular noção classificatória de “gradiente de cores”, na qual se catalogava e, por suposto, se hierarquizava uma infinidade de termos de raça, cor e origem.

Esse gradiente, até muito recentemente, continha todo o repertório brasileiro de termos raciais, rico em formas que sublinhavam a nossa variedade de “mestiços” brancos, que, nessa grade de estratificação humana, formavam um afastamento do polo em que estavam os “mestiços” mais escuros. De fato, o movimento negro contemporâneo logrou uma transformação: em face a esse gradiente, subsumiu os “pardos” e aproximou-os do polo político negro.[iv]

Assim, parece haver pouca inovação na aplicação da perspectiva colorista ao Brasil. Aliás, um fato a respeito: ela chega direto ao coração de profundas tradições nacionais. Ela recoloca a mestiçagem no centro ético-moral das nossas noções de vida comum e ambições culturais, transportando para a cena da vida privada, para a sexualidade e para a formação da família, o terreno de discussão de problemas de natureza pública, pendentes de solução.

A promessa da mestiçagem seria harmonizar, na vida privada, o que na vida pública e social seria caos e conflito. Aliás, não há nada que a mestiçagem possa fazer contra o conflito constituinte da esfera pública que não seja lhe pacificar; postulação que sequer é uma proposta original brasileira, mas, entre tantos exemplos, a aposta do nacionalismo latino-americano em geral, cuja palavra de ordem (e, inclusive do seu racismo miscigenacionista), desde o século XIX, sempre foi pacificação.[v] Portanto, que conflitos se pretende pacificar?

Minha impressão (quem sabe, de centavos) é de que se fala – nessa tradução do debate colorista, de ressentimento e rivalidade. Fala-se da indisponibilidade em disputar os sentidos da negritude, em compor-se na aliança a esse bloco político. E a razão mais forte – a partir do artigo de Beatriz Bueno, ao menos – é salvaguardar o conteúdo das alianças familiares dos lares “mestiços”; que essa vida da intimidade não seja destruída pelas contradições e imposições externas a ela, e, vislumbra-se, que os fundamentos ético-morais dessa ordem familiar “mestiça” e a ordem pública possam se harmonizar e se espelhar.

Outra razão é a expectativa de que a superioridade demográfica “parda” sobre a dos “pretos” corresponda a possibilidades proporcionais de poder, liderança e direitos. Implicitamente, responde-se a um sentimento de humilhação, de se verem os “pardos” excluídos de algo que a eles também caberia, inclusive em termos de liderança e legitimidade, humilhação, aliás, que – para alguns – pareceria piorada porque não são excluídos por brancos, mas, por negros.

O antirracismo sofre dificuldades para tornar-se uma verdadeira filosofia de libertação. Fundamentalmente, não conseguiria sair do registro da resistência e vitimização e ingressar no da insurgência e da recriação do mundo. Até o momento, não fui convencido de que reintroduzir a miscigenação como tópico de luta antirracista nos enderece para esse novo caminho.[vi] Aliás, tornar a mestiçagem uma “não-questão”, que ela seja apenas um fenômeno aberto da liberdade individual (como, historicamente, não tem sido) e não uma espécie de graça redentora ou opróbio moral, nos faria enorme bem.

*Wanderson Chaves é historiador com pós-doutorado no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de A questão negra: a Fundação Ford e a Guerra Fria (Appris). [https://amzn.to/3VlndjC]

Notas


[i] Ao longo dos últimos séculos, Brasil e EUA tem oscilado entre os polos do inferno e do paraíso racial, intercambiando-se. Para uma história das primeiras elaborações do Brasil como paraíso racial, no interior do abolicionismo internacional no século XIX, ver: AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Abolicionismo – Estados Unidos e Brasil, uma história comparada: São Paulo: Annablume, 2003.

[ii] O antropólogo Peter Fry, um conhecido freyriano, faz uma avaliação contrária à clássica atribuição de Oracy Nogueira de um “racismo de marca” ao Brasil e um “racismo de origem” aos Estados Unidos – e, neste sentido, contra a opinião do próprio Gilberto Freyre sobre as diferenças entre os países. Para Fry, as relações sociais no Brasil seriam estruturadas mais na tensão entre duas taxonomias – a primeira sendo a do gradiente de cores e a segunda a da diferença binária entre brancos e negros, que na oposição entre elas. Para ele, algo semelhante poderia ser dito dos EUA, mas, com o privilégio da taxonomia binária. Vide: FRY, Peter. A persistência da raça: ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África Austral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, especialmente cap. 7.

[iii] BUENO, Beatriz e SAINT CLAIR, Ericson. Impedidos de entrar em Wakanda – Reflexões sobre parditude, manifestações midiáticas e desafios de pertencimento. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 4 a 9/10/2021.

[iv] Detalho essa transformação temática em: CHAVES, Wanderson. Entre Mendel e Lamarck: o discurso acadêmico sobre raça e polemica em torno do gradiente de cor. Brasil (1990-2005). Dissertação de Mestrado. Brasília: UnB / CEPPAC, 2007.

[v] Sobre a nossa tradição de pensamento político, cheia de fortes paralelos com uma literatura novelesca e folhetinesca marcada pelo esforço de tradução de alianças sexuais e matrimoniais em expectativas de alianças sociais e de conciliação política, ver: SOMMER, Doris. Ficções de fundação: os romances nacionais da América Latina. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

[vi] É conhecida a opinião freyriana de que a “mestiçagem” é um motor “desracializante” da sociedade. Peter Fry, por exemplo, levará essa ideia adiante e dirá que a mestiçagem, por essa razão, criaria o ambiente mais adequado à promoção das liberdades e direitos do liberalismo porque suscita o surgimento de indivíduos plenos (vide nota 2). Neste particular, sigo, na ausência de argumento mais convincente, a posição do historiador e filósofo Pierre-André Taguieff, para quem a miscigenação, alçada à condição de ideologia e filosofia política (e não apenas como uma qualidade descritiva da demografia humana) é uma potente força de racialização das sociedades. Vide: The Force of Prejudice: On Racism and Its Doubles. Minneapolis and London: University of Minnesota Press, 2001.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Ronald Rocha Ricardo Antunes Leonardo Avritzer João Adolfo Hansen Marcus Ianoni Henry Burnett Elias Jabbour Thomas Piketty Matheus Silveira de Souza Marilia Pacheco Fiorillo Gilberto Lopes Dennis Oliveira Carlos Tautz Tadeu Valadares Michael Löwy Michel Goulart da Silva Valerio Arcary Jorge Branco Manuel Domingos Neto Rubens Pinto Lyra Eliziário Andrade Gerson Almeida Salem Nasser Ricardo Musse Luciano Nascimento Luiz Bernardo Pericás Andrés del Río Milton Pinheiro João Paulo Ayub Fonseca Fernão Pessoa Ramos Atilio A. Boron Denilson Cordeiro Marilena Chauí Gabriel Cohn Bento Prado Jr. José Geraldo Couto Carla Teixeira Manchetômetro Yuri Martins-Fontes Celso Frederico Mário Maestri Daniel Brazil Priscila Figueiredo Alysson Leandro Mascaro Liszt Vieira Mariarosaria Fabris João Carlos Salles Chico Whitaker Paulo Martins Luiz Werneck Vianna Osvaldo Coggiola Ladislau Dowbor Julian Rodrigues Vladimir Safatle Tarso Genro José Micaelson Lacerda Morais Kátia Gerab Baggio Fernando Nogueira da Costa Luis Felipe Miguel Bruno Machado Afrânio Catani Ricardo Abramovay Armando Boito Luiz Eduardo Soares Ricardo Fabbrini Rafael R. Ioris Bruno Fabricio Alcebino da Silva Paulo Sérgio Pinheiro José Raimundo Trindade Daniel Afonso da Silva Lincoln Secco Sandra Bitencourt Lorenzo Vitral Michael Roberts Anderson Alves Esteves Francisco Fernandes Ladeira Henri Acselrad Vinício Carrilho Martinez Jean Marc Von Der Weid Eleonora Albano Bernardo Ricupero Leda Maria Paulani Marcelo Guimarães Lima Antônio Sales Rios Neto Otaviano Helene Eleutério F. S. Prado Celso Favaretto Paulo Capel Narvai Fábio Konder Comparato Marcelo Módolo Juarez Guimarães Jean Pierre Chauvin Antonio Martins Francisco Pereira de Farias Eugênio Trivinho Luiz Marques Chico Alencar Rodrigo de Faria Tales Ab'Sáber Luiz Carlos Bresser-Pereira Luís Fernando Vitagliano Airton Paschoa Anselm Jappe Renato Dagnino Ronaldo Tadeu de Souza Marcos Silva Andrew Korybko Sergio Amadeu da Silveira João Sette Whitaker Ferreira Igor Felippe Santos André Singer Paulo Nogueira Batista Jr Daniel Costa Alexandre de Lima Castro Tranjan Alexandre Aragão de Albuquerque Érico Andrade Dênis de Moraes Marjorie C. Marona José Costa Júnior Boaventura de Sousa Santos Benicio Viero Schmidt Antonino Infranca Leonardo Boff José Luís Fiori Ronald León Núñez Luiz Roberto Alves Vanderlei Tenório José Dirceu Eduardo Borges João Feres Júnior Ari Marcelo Solon Eugênio Bucci Slavoj Žižek Heraldo Campos João Carlos Loebens Marcos Aurélio da Silva Jorge Luiz Souto Maior Caio Bugiato Remy José Fontana Berenice Bento Claudio Katz Francisco de Oliveira Barros Júnior Everaldo de Oliveira Andrade Lucas Fiaschetti Estevez Samuel Kilsztajn João Lanari Bo Paulo Fernandes Silveira Valerio Arcary André Márcio Neves Soares Gilberto Maringoni Luiz Renato Martins Maria Rita Kehl Leonardo Sacramento Plínio de Arruda Sampaio Jr. José Machado Moita Neto Walnice Nogueira Galvão Alexandre de Freitas Barbosa Flávio R. Kothe Flávio Aguiar Annateresa Fabris

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada