A guerra comercial de Donald Trump

Imagem: William Gevorg Urban
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Por DANIEL ARRUDA CORONEL & REISOLI BENDER FILHO*

Os impactos das medidas do governo norte-americano na economia brasileira

1.

O governo de Donald Trump completou mais de cem dias. Nesse processo, várias de suas políticas e ações estão reverberando por todo o planeta, visto que tem adotado uma postura implacável contra a comunidade LGBTQIAPN+, bem como contra os defensores dos direitos humanos, da educação e grupos sociais que criticam fortemente suas decisões. O exemplo mais latente e vergonhoso disso foi o congelamento de R$ 5,8 bilhões para a Universidade de Harvard, que se recusa a adotar a cartilha de cunho neofascista apregoada pelo mandatário norte-americano, assim como a expansão e reabertura de Alcatraz.

Os resultados dessas práticas lamentavelmente ecoam para os demais países, levando ao aumento do preconceito, da intolerância e do radicalismo. Consequentemente, várias das conquistas e lutas sociais que demoraram anos para obter resultados positivos estão sendo colocadas em xeque, justamente pelo país que se vangloriava da defesa permanente da liberdade política, cultural, religiosa e econômica.

Além disso, vem chamando atenção a escalada tarifária, principalmente em relação à China, demolindo teorias de cunho ortodoxo que apregoam o livre mercado e o multilateralismo. Vários dos manuais de economia, utilizados nas mais prestigiosas universidades do Brasil e do mundo, sempre defenderam doutrinas de cunho liberal, com axiomas como concorrência perfeita, mobilidade perfeita dos fatores de produção, livre movimentação do capital, dentre outros – o que, de forma alguma, determina as relações econômicas internacionais.

Observa-se, principalmente por parte dos países ricos, protecionismo, concorrência imperfeita, defesa permanente da produção interna e entraves às importações. O que o governo de Donald Trump está fazendo, lamentavelmente, sempre existiu; contudo, agora o governo norte-americano o faz sem pudor e sem recato, embora vários economistas ainda custem a enxergar.

Os efeitos dessas ações são imediatos tanto para os Estados Unidos como para outros países. Para a economia norte-americana, a despeito da redução da taxa de inflação dos primeiros meses, espera-se o aumento dos preços e do desemprego, a desaceleração econômica e a queda nos níveis de bem-estar com as sucessivas medidas tarifárias impostas pelo governo republicano.

Para os demais países, os resultados seguem a mesma direção, com a redução dos fluxos de comércio e consequente queda nas exportações para os Estados Unidos. O cenário internacional poderá mudar, com a busca de novos mercados e parceiros econômicos, o que ocasionará possíveis e importantes redirecionamentos comerciais.

2.

Nesse contexto, abre-se uma oportunidade para o Brasil, principalmente para o agronegócio, que, nos últimos tempos, se mostrou um ardoroso defensor do governo Trump e de suas ações e políticas. As relações econômicas entre Brasil e China tendem a aumentar, com o país buscando redirecionar, com maior pujança, as exportações de commodities para o país asiático, contribuindo para a geração de divisas e renda, bem como para a melhora do saldo da balança comercial.

Não obstante, os resultados da política tarifária de Donald Trump tendem a afastar, cada vez mais, o multilateralismo, já dificultado no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) e preterido por acordos regionais e bilaterais, e o diálogo entre os países, observando-se todo tipo de restrição e ação que dificulte o comércio. Os resultados disso são extremamente deletérios, e os riscos geopolíticos, extremamente altos, tendem a provocar o aumento da rivalidade, das disputas comerciais, afastando o diálogo e incentivando mecanismos de retaliação comercial.

A sociedade tem acompanhado atentamente os atos da guerra comercial deflagrada pelo governo do republicano Donald Trump, por territórios, mercados e canais de navegação, sob o pretexto “legítimo e republicano” de proteção econômica, de redução do déficit comercial e de segurança nacional. Portanto, é fundamental que as universidades, institutos, Congresso norte-americano e demais forças políticas contenham a “sanha” autoritária e perversa de Trump, visando à paz mundial e ao respeito ao multilateralismo e ao livre comércio entre os países.

*Daniel Arruda Coronel é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

*Reisoli Bender Filho é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


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