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Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*

Compreender o papel das métricas e da financeirização não é um exercício teórico qualquer. É um ato de sobrevivência. É a chave para entender por que estamos doentes, por que estamos tristes, por que estamos exaustos

1.

Vivemos em uma sociedade que coloca todos os aspectos da existência, de forma transparente, sem véus e sem meias palavras, sem modéstia, à lógica cristalina dos mercados financeiros. Vida, emoções, conexões, trabalho, educação, até nossas neuroses mais recônditas agora estão sujeitas à regra do capital fictício.

Todos precisamos saber o que isso significa, pois não é um termo técnico ou algum tipo de ideia abstrata que encontramos em nossos velhos livros de economia. Capital fictício não é um conceito abstrato; não é algo intangível ou imaginário, nem algo elusivo ou complexo.

É uma entidade genuinamente concreta, algo que podemos verdadeiramente ver, tocar e perceber, uma força que permeia nossos hábitos, polui nossos desejos, sequestra nossos sonhos e disciplina nossos cálculos futuros mais privados.

Ninguém escapa. Ninguém está seguro. E entender esse mecanismo não é apenas um exercício intelectual: é uma necessidade crucial, uma emergência existencial e política.

Pode-se afirmar categoricamente e precisamente que o capital fictício é um título de propriedade (um papel, um contrato, um ativo financeiro), que dá ao seu proprietário o direito a uma parte do valor que foi, mas ainda não está, produzido. Esse algo quantificável, o colchão futuro de renda e capital que um dia pode existir, entra em existência hoje na forma de uma promessa: juros, dividendos, retornos futuros.

O que flutua não é riqueza existente de fato, não é o fruto do trabalho atual, não são bens reais. O que circula não é o oxigênio que a morte demanda, mas a expectativa da morte transmutada em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida, negociada nos mercados financeiros ao redor do globo.

Karl Marx, com a clareza impressionante que fala a todas as gerações, já nos ensinou particularmente no terceiro volume de O capital que o capital fictício é a expressão mais abstrata da autonomia do capital financeiro em relação à produção que podemos alcançar.

Uma autonomia que não corta totalmente o vínculo com o mundo real – já que alguém terá que trabalhar, algum dia, para que esse valor futuro seja realmente alcançado – mas que suspende temporariamente a necessidade desse trabalho, funcionando como uma espécie de magia econômica: valor é produzido sem trabalho imediato, e sem a produção de bens materiais.

E é por isso que dizemos que o capital fictício é ficção real. Uma ficção, pois separa o processo direto de produção de mercadorias da vida concreta dos trabalhadores. Mas é real – e brutalmente real – porque é uma realidade material: decide os caminhos dos países, captura orçamentos públicos, condiciona políticas sociais, asfixia as universidades, transforma a vida das pessoas em um inferno, devora territórios, escraviza a democracia às vontades impessoais dos mercados.

Quando bolsas de valores, fundos de investimento, títulos públicos, papéis com a face de empresas, dívidas, prédios, florestas, rios, dados e até futuros imaginados são os objetos do olhar de um certo poder, estamos testemunhando o movimento de uma máquina que funciona com um valor que ainda não existe, mas que pelo seu próprio aparato age como se esse valor já existisse, age como se seu devido, sua demanda, já estivesse garantida. Tudo é mercadoria: saúde, educação, água, conhecimento, tempo, sonhos, o planeta.

2.

Essa lógica implacável é o que nos mostra a natureza predatória do capitalismo, que tem sido desvelada cada vez mais plenamente pelo capitalismo contemporâneo: subordina tudo, trabalho, ciência, natureza, vida, às exigências do aumento dos ativos financeiros. A produção de mercadorias e serviços, supostamente para corresponder às necessidades humanas, torna-se uma ferramenta subordinada ao propósito superior da rentabilidade dos papéis, da multiplicação dos dividendos e da satisfação do apetite insaciável dos rentistas.

Este é o mundo em que vivemos. E é uma questão urgente que conheçamos isso não apenas intelectualmente, mas como uma necessidade. Pois é somente ao entender essa maquinaria que podemos sonhar – e lutar – por uma vida não hipotecada para sempre aos senhores do capital fictício.

Diante deste quadro há que se perguntar se a universidade pública brasileira o trabalho do professor e o conhecimento produzido sofrem as consequências das dimensões da economia mundial, no centro porque somos países dependentes.

Para um país ser dependente, é reconhecer que sua economia, seu processo de criação de riqueza, até mesmo o caráter de sua organização social, estão profundamente subordinados às regras, necessidades e interesses dos países mais ricos, aqueles que controlam o centro do sistema capitalista global.

Em termos reais, isso significa que esses países dependentes tendem a ocupar uma posição fixa e desconfortável no mercado global: a da especialização econômica em atividades mais simples, que geram menos dinheiro, como a exportação de produtos primários (soja, petróleo, minerais) e, ao mesmo tempo, sua forte necessidade de importar tecnologia, maquinário, patentes e produtos de alto valor.

Mas a dependência não acaba aí. Ela também se expressa cruelmente na drenagem contínua de riqueza para as nações centrais. Isso ocorre, por exemplo, quando uma empresa multinacional, que está aqui, retira seus lucros do país; quando pagamos juros sobre a dívida externa; quando a economia é tomada pelos mercados financeiros, que lucram com nossos próprios problemas.

A teoria marxista da dependência, mais iluminada por Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Theotonio dos Santos, que vem sendo atualizada por Leda Paulani e Eleutério Prado nos ajuda a perceber que tal situação não é um evento fortuito, muito menos uma desordem temporária. Pelo contrário, está integrada à lógica do próprio capitalismo, à medida que opera no que chamamos de Sul Global.

Esta não é apenas uma fase da qual se sairá um dia. É uma premissa estrutural para manter países como o Brasil e muitos outros em uma condição permanente de subordinação e trabalho para o enriquecimento contínuo dos países no centro desse sistema.

3.

Para nós, cabe perguntar se o trabalho do professor pesquisador, a produção de conhecimentos e a universidade pública estão sob o domínio do capital fictício?

As universidades públicas foram notavelmente agravadas nas últimas décadas. Condições como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e fadiga crônica não são mais apenas exceções, mas tristemente fazem parte do cotidiano de uma parcela considerável da categoria.

A carga excessiva de tarefas, as exigências incessantes por produtividade, a invisibilidade institucional e as más condições de trabalho transformam o ato de ensinar em uma experiência de dor, esgotamento e desgaste que consome não apenas o corpo, mas também o desejo, a criatividade e o pertencimento à universidade.

O que estamos testemunhando aqui é, portanto, um sequestro da missão pública da universidade e, ao mesmo tempo, a colonização da subjetividade dos professores. Cada vez mais eles vivem sufocados por um tempo que passa rápido demais, desgastados pela fadiga e pela sensação de que nunca são suficientes. Quando o trabalho intelectual opera como capital fictício, é como uma corrida sem fim, onde o prêmio final nunca chega e nunca nos é permitido sentar.

No entanto, há a possibilidade de esperança. Cada sujeição apresenta suas brechas, e todas as dominações semeiam as sementes de alguma futura recusa. Este entendimento é também um chamado. Um apelo para que professores, estudantes e trabalhadores da educação em todo o país se unam para imaginar, demandar e concretizar um tipo diferente de universidade. Uma universidade que não se curva diante das ações, mas que se reconecta ao valor da vida, do conhecimento livre e da dignidade coletiva. Uma faculdade onde, sim, possamos respirar novamente.


Em meio a esse cenário, as métricas se tornam o idioma único que governa a universidade financeirizada. Elas atravessam tudo e todos. A lógica dos rankings, dos índices de produtividade, dos fatores de impacto e das avaliações quantitativas não se limita aos laboratórios, aos gabinetes ou às salas de aula.

Ela se infiltra nos corpos, nas rotinas, nos desejos e nas relações. Cada docente, cada pesquisador, cada técnico, cada estudante é, inevitavelmente, convertido em dado. É classificado, ranqueado, comparado e avaliado por sistemas que pouco se importam com o valor social do conhecimento, com a relevância das pesquisas, com a formação humana ou com a dignidade do trabalho.

O que poderia ser um instrumento de gestão democrática – se construído de forma coletiva, ética e voltado ao bem comum – se transforma em um dispositivo de controle, punição e domesticação. Ninguém escapa. Nem os professores, nem as professoras, nem os estudantes, nem as equipes administrativas, nem sequer os próprios gestores, que também se tornam peças de uma engrenagem que exige mais, mais rápido, com menos recursos, menos tempo e menos cuidado.

E é aqui que mora a tragédia silenciosa do nosso tempo: o adoecimento não é um desvio, não é colateral. É estrutural. É inexorável. Ele é a consequência direta de uma universidade que deixou de ser espaço de criação, de encontro e de transformação, para se tornar uma linha de montagem de resultados, de metas, de papéis, de relatórios. Uma universidade que fabrica exaustão. Que naturaliza o cansaço. Que institucionaliza o sofrimento. Que transforma o saber em mercadoria e o trabalho em dor.

Por isso, compreender o papel das métricas e da financeirização não é um exercício teórico qualquer. É um ato de sobrevivência. É a chave para entender por que estamos doentes, por que estamos tristes, por que estamos exaustos – e, mais do que isso, é a chave para começar a recusar essa lógica. Para sonhar e construir, juntos, uma universidade que volte a ser espaço de vida, de desejo, de pensamento e de futuro. Uma universidade onde os números não valham mais do que as pessoas. Onde o saber não seja mercadoria, e o trabalho, enfim, não seja sinônimo de sofrimento.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados). [https://amzn.to/4fLXTKP]


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