O caminho de Vladimir Putin para a paz

image_pdf

Por ANDREW KORYBKO*

A maior contradição de uma possível moderação para a paz não é territorial, mas humana: o que fazer com os cidadãos russos (por declaração de Putin) que permaneceriam sob controle ucraniano? A solução hipotética exigiria um acordo sobre seu status, potencialmente envolvendo realocação, criando um dilema humanitário e político complexo

1.

A reportagem do portal RT sobre a afirmação de Steve Witkoff de que a Rússia fez “algumas concessões” em questões territoriais, que sinalizam uma mudança “significativa” em direção à “moderação”, provocou discussões sobre se Vladimir Putin pode legalmente parar sua Operação Especial sem primeiro controlar todo o território disputado que Moscou reivindica como seu.

Ele próprio exigiu, em junho de 2024, que as Forças Armadas Ucranianas “devem ser retiradas de todo o território dessas regiões, dentro de suas fronteiras administrativas na época em que faziam parte da Ucrânia.”.

Além disso, os acordos sob os quais Donetsk, Lugansk, Zaporozhye e Kherson se juntaram à Rússia descrevem suas fronteiras administrativas como aquelas que existiam “no dia de sua formação”, sugerindo assim que a totalidade de suas regiões é de fato legalmente considerada pela Rússia como sua. Putin também declarou, durante a assinatura desses tratados no final de setembro de 2022, que “as pessoas que vivem [lá] se tornaram nossos cidadãos, para sempre” e que “a Rússia não trairá [sua escolha de se juntar a ela]”.

No entanto, Vladimir Putin ainda poderia hipoteticamente “moderar” essa demanda. O Artigo 67.2.1 da Constituição Russa, que entrou em vigor após o referendo constitucional de 2020, estipula que “ações (exceto delimitação, demarcação e remarcação da fronteira estatal da Federação Russa com estados adjacentes) que visem alienar parte do território da Federação Russa, bem como apelos para tais ações, não são permitidas”. “Moderação” poderia, portanto, hipoteticamente ser uma “exceção”.

Para ser absolutamente claro, esta análise não faz nenhum apelo para que a Rússia “ceda” qualquer território que considere seu, nem nenhuma autoridade russa deu qualquer crédito à afirmação de Steve Witkoff.

2.

Dito isso, se Vladimir Putin concluir, por qualquer motivo, que os interesses nacionais da Rússia são agora melhor atendidos pela “moderação” de suas reivindicações territoriais depois de tudo o que aconteceu desde os referendos de setembro de 2022, então qualquer proposta de “remarcação da fronteira estatal” provavelmente exigiria a aprovação do Tribunal Constitucional.

Ele é advogado de formação, então faria sentido que ele os solicitasse proativamente que se pronunciassem sobre a legalidade dessa hipotética solução para o conflito ucraniano. Mesmo que ele hipoteticamente propusesse manter as reivindicações territoriais de seu país, mas congelasse a fase militar do conflito e apenas promovesse essas reivindicações por meios políticos, ele provavelmente ainda buscaria o julgamento deles. Eles são a autoridade final em questões constitucionais e esses cenários exigem sua expertise, devido à sua conexão com o Artigo 67.2.1.

Se, hipoteticamente, decidirem a seu favor, surgirá a questão sobre o destino daqueles que vivem nas partes controladas pela Ucrânia dessas regiões, que, segundo Vladimir Putin, “se tornaram nossos cidadãos para sempre”. Eles podem decidir que aqueles que não participaram dos referendos, como os moradores da cidade de Zaporozhye, não são cidadãos russos.

Aqueles que participaram, mas depois caíram sob controle ucraniano, como os moradores da cidade de Kherson, podem ser considerados cidadãos que podem se mudar para a Rússia se a Ucrânia permitir, como parte de um acordo.

Para lembrar o leitor, nenhuma autoridade russa, no momento da publicação desta análise, deu qualquer crédito à afirmação de Steve Witkoff de que a Rússia fez “algumas concessões” em questões territoriais, portanto, por enquanto, permanece apenas um cenário hipotético.

Mesmo assim, Vladimir Putin poderia hipoteticamente concluir que tal “moderação” é a melhor maneira de promover os interesses nacionais da Rússia no contexto atual (como parte de um grande compromisso), caso em que o Tribunal Constitucional provavelmente teria que se pronunciar sobre sua legalidade.

*Andrew Korybko é mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]

Tradução: Artur Scavone.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
4
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
5
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
6
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
7
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
8
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
9
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
10
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
11
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
12
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
13
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
14
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
15
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES