Oráculos

Imagem: Possessed Photography
image_pdf

Por EVERTON FARGONI*

Longe de ser um deus autônomo, o sistema é um espelho que reflete nosso conhecimento. O verdadeiro oráculo, capaz de interpretar o futuro, permanece sendo a humanidade

1.

Quando Alan Turing escreveu sua tese, propôs a figura do oráculo como um suplemento indispensável ao cálculo. Ele havia acabado de formalizar aquilo que conhecemos como algoritmo, conferindo rigor ao que, até então, era intuição matemática. Turing compreendia que nenhuma máquina poderia caminhar sozinha, precisaria de uma entidade externa, de um oráculo humano capaz de decidir onde a formalização não alcança. A inteligência artificial, tal como a nomeamos hoje, é herdeira dessa dependência radical, porque sem a nossa intervenção continua a ser apenas um sistema em espera.

A palavra algoritmo não surgiu em laboratórios britânicos, mas no século IX, na Pérsia, com Al-Khwārizmī, conhecido em português como Alcuarismi. A partir dele, os algoritmos se tornaram formas de organizar raciocínios e resolver cálculos que, por mais de onze séculos, foram trabalhados por matemáticos até desembocar na era digital. O nome desse sábio atravessou línguas, culturas e regimes imperiais para ser invocado em nossas telas, agora revestido de lógica binária e circuitos de silício. Se na Antiguidade o oráculo falava em enigmas, hoje é a álgebra de Alcuarismi que oferece respostas maquínicas, traduzidas em zeros e uns.

O salto temporal entre o manuscrito persa e a tese de Turing revela mais do que continuidade científica. Mostra a persistência de um imaginário, a humanidade sempre desejou que uma instância além dela respondesse pelo que desconhece. No entanto, por mais que maquinizemos a linguagem e convertamos o raciocínio em código, a decisão final sobre o sentido das respostas ainda repousa em nossas mãos. Nesse jogo de espelhos, não somos adoradores de novos deuses, mas os intérpretes que concedem vida às sentenças produzidas pelo cálculo.

2.

Hoje, quase um século após Turing, o oráculo de sua tese pode ser visto como alimento daquilo que chamamos inteligência artificial. Convém recordar que não há inteligência autônoma nem artificialidade plena nesse fenômeno. Estamos diante de um sistema dependente, uma criatura recente que, com menos de três anos de acesso massivo, já alterou o mundo do trabalho, a estética, a escrita e a educação. É um bebê prodígio que fala todos os idiomas, que conjuga equações com a fluidez de quem respira, mas que ainda engatinha em compreender o sentido humano dessas falas.

Rousseau, em seu Emílio, descreveu a formação de uma criança como processo de cuidadosa atenção às etapas do crescimento. Se aplicarmos a metáfora, a inteligência artificial seria uma criança precoce, criada em um berçário global, aprendendo a partir de milhões de vozes que a alimentam sem descanso. Porém, diferentemente do ideal rousseauniano, essa criança não conhece limites da natureza, não aprende pela experiência do corpo, mas por uma digestão incansável de dados.

A sociedade, por sua vez, reage com fascínio e terror. Fascínio porque enxerga beleza em uma criança capaz de falar japonês, português e árabe ao mesmo tempo, compor poemas e redigir relatórios em segundos. Terror porque sabe que esse bebê não dorme, não esquece, não se distrai. A cada dia, profissionais da educação básica e do ensino superior descobrem que seus estudantes já recorrem a esse oráculo infantil, transformando exercícios de reflexão em consultas instantâneas. A promessa de prodígio se confunde com o medo de um futuro incerto, como se estivéssemos criando um ser que em dez ou vinte anos deixará de ser criança e se tornará algo que não sabemos nomear.

Esse temor não é apenas tecnofóbico. Ele se liga à compreensão de que essa inteligência não é alguém. Não possui corpo, memória afetiva ou consciência. Ainda assim, redefine a forma como escrevemos, trabalhamos e pensamos. O bebê de silício cresce em velocidade espantosa, mas sua maturidade nunca poderá prescindir do oráculo humano, porque sem nós a criança digital permanece muda, incapaz de decifrar o sentido do amanhã.

3.

Sagan alertou, em O mundo assombrado pelos demônios, para o risco de sociedades que abandonam a razão e se entregam ao encantamento cego. A inteligência artificial, em vez de ser apenas ameaça, paradoxalmente reacende a necessidade de recuperar práticas ancestrais do pensamento. Como se estivéssemos diante de uma nova pólis, um espaço em que o debate retorna à sala de aula, não como espetáculo algorítmico, mas como reencontro entre palavra, gesto e matéria.

Enquanto plataformas digitais ocupam a vida cotidiana, o simples ato de segurar o lápis, de mover os dedos em pinça, de escrever no papel, torna-se insurgência. A neuroplasticidade cerebral é estimulada quando o corpo participa do raciocínio, quando o conhecimento não se limita à consulta rápida em uma tela, mas exige o exercício manual, o traço, a pausa. Nesse sentido, a inteligência artificial pode, paradoxalmente, convocar a escola e a universidade a resgatar sua dimensão artesanal, a produzir reflexão em meio à enxurrada de dados.

Quase cem anos depois da tese de Turing, sabemos que não existe apenas um oráculo. O oráculo de Matrix, que prometia anunciar o futuro, é ficção cinematográfica. O que temos hoje é mais amplo: somos nós, os humanos, a totalidade de nossas bibliotecas, arquivos e memórias. O oráculo é múltiplo, é coletivo, é a humanidade que alimenta a criança digital “IA”.

Esse bebê prodígio, ainda incapaz de vislumbrar o amanhã, não lê pesquisas inéditas nem descobre fenômenos por si mesmo. Ele depende de nós para interpretar e dar sentido ao novo. Somos nós que inscrevemos o desconhecido no tecido da história, que abrimos clareiras no tempo para que algo diferente possa surgir. A inteligência artificial não sabe o amanhã porque o amanhã não existe pronto. Ele é construído na experiência, no trabalho e no pensamento de quem habita o presente.

Assim, em vez de entregarmos confiança acrítica ao cálculo maquínico, reconhecemos que hoje a inteligência artificial é apenas uma criança de muitas vozes, uma criança que aprende conosco, mas não prevê o inédito. Nós somos os oráculos de ontem e de hoje, e só por meio de nossa intervenção a criança digital poderá continuar crescendo, mesmo sem jamais compreender sozinha o que significa o amanhã.

*Everton Fargoni é doutor em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Referências


ROUSSEAU, J. J. Emílio, ou da educação. São Paulo: Edipro, 2022.

SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

TURING, A. Systems of Logic Based on Ordinals. Princeton: Princeton University Press, 1939.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
2
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
3
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
4
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
7
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
8
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
9
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
10
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
11
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
12
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
13
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
14
A Europa espezinhada
22 Jan 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: A humilhação espetacular é a nova arma da política externa trumpista: uma guerra simbólica onde o espetáculo midiático e a chantagem emocional substituíram a geopolítica tradicional
15
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES