Negacionismos – obscurantistas, políticos e ordinários

Imagem: Artem Podrez

Por WALDIR BEIVIDAS*

As múltiplas modulações negacionistas que assolam o país

A pandemia que assola o mundo e este Brasil tem caráter tão enigmático e sombrio que nos pede constante atenção, precaução e vigilância em todas as atitudes da vida: atitudes pragmáticas, das nossas ações cotidianas, cognitivas, dos nossos pensamentos constantes, psíquicas, dos nossos desejos prementes. Esta a premissa maior do texto aqui posto.

Sem grandes pretensões psicológicas ou psicanalíticas, e dirigida a público amplo e não especialista, acadêmico ou não, quero neste texto ilustrar e refletir sobre múltiplas modulações negacionistas que assolam acentuadamente a mente de muitas pessoas em nosso país no presente momento.

O pioneiro da psicanálise, Sigmund Freud, exímio escrutador da alma humana, em algum de seus raciocínios dizia que quando a realidade se nos afigura muito cruel e indesejável, temos forte tendência a negar o que está ocorrendo e emitir uma espécie de julgamento (inconsciente): isso não é verdade, não está acontecendo, não quero ver isso, não quero saber de nada disso, e outras tantas formas negacionistas ou denegacionistas, dois termos que concorrem para a ideia. Nessa direção convoco também outras mentes do campo psi para que ajudem a estender a paleta negacionista, haja vista que isso é seu cotidiano nas clínicas, sob as mais singulares estratégias enunciativas das queixas dos pacientes. Há que se debelar toda forma de negacionismo.

Os negacionismos obscurantistas irromperam sobretudo a partir do advento do bolsonarismo-olavista ou olavismo-bolsonarista, não importa bem a ordem das palavras. Eles nos atingiram em cheio, e na pior hora, perante a tragédia que se abateu no mundo em fins de 2019 com a chegada desse atroz e enigmático emissário da morte: o vírus-covid e suas cepas algozes. Tais negacionismos ocuparam rapidamente os conteúdos da internet (blogs, twitters, instagram, face-book e tutti quanti)

Um dia, num texto qualquer que cito de memória, Umberto Eco parece ter dito que a internet “deu voz a imbecis”. Não conferi o raciocínio e me desculpo antecipadamente perante os seus conhecedores mais abalizados. A frase é bastante infeliz, pois acaba reverberando grande elitismo: teriam direito à voz somente grandes intelectuais e grandes jornalistas ? Talvez uma melhor frase devesse corrigir o elitismo: “a internet deu voz a muitos imbecis”. Mesmo porque a grande mídia, a grande Justiça brasileira, grandes intelectuais, sobretudo das áreas tecnológicas, empresariais e médicas, se revelaram covardemente imbecis em toda a saga que foi o mensalão, ovo da serpente que chocou a lava-jato, o golpe contra a Dilma, o apoio a Bolsonaro, a expulsão dos médicos cubanos (que falta fazem na tragédia-covid!), paro por aqui a lista, senão esta pequena reflexão sobre negacionismos não terá espaço…Imaginem um Brasil em que nada disso tivesse ocorrido! Se não éramos mais felizes antes de tudo isso, éramos ao menos mais decentes.

Eu corrijo ainda mais a frase de Umberto Eco, que pretensão!: a internet (os blogs, faces-book, twitters, instagram…) deu voz ao esgoto! a raciocínios dos mais espúrios, a sentimentos dos mais abjetos, a agressividades das mais covardes, a falácias e mentiras das mais irresponsáveis (vulgo fake-news, palavra certamente mais popular na mente dos brasileiros do que “espúrio”, “abjeto”, e outras tantas, preciosas, do nosso rico idioma, curvado que ficou pela ideologia canhestra norte-americana que invade subrepticiamente a mente do mundo, em particular muita mente intelectual brasileira).

Nesse contexto de esgoto, nascedouro dos negacionismos obscurantistas (terra plana, a epidemia não existe, o vírus foi inventado na China, a vacina não funciona, sobretudo a chinesa, tem um chip dentro dela, vira jacaré, por favor segurem o vômito!), quero deixar de lado o lado sujo deles, já muito comentados em todos os lugares, e me voltar aos negacionismos políticos que se escondem nos governos e nas instituições e, por fim, aos negacionismos ordinários que atacam o cidadão comum, menos informado, menos preparado  e vitimado pelos anteriores, negacionismos da vida cotidiana, perante a pandemia.

Sem me estender muito sobre negacionismos políticos dos governos, pouco diferindo os nacionais dos estaduais, os mais nefastos, é fácil encontrar a mola do seu “desejo” negacionista: ambos militam politicamente bem mais para seus ganhos eleitorais, e bem menos para a preservação da saúde da população, trabalhadores, estudantes das classes fundamentais, básicas, médias e universitárias. A bem da prudência ponderada, jamais as escolas poderiam voltar presencialmente perante as mil mortes diárias que ocorrem atualmente (não contabilizadas as subnotificações e alterações em registros da causa mortis). Conseguiremos quantificar tudo, e corretamente, algum dia?

Esse negacionismo, politicamente arquitetado, vem inadvertidamente reverberado no interior das instituições educacionais sob o argumento (também negacionista) que leva o título de “o custo pedagógico de um não retorno presencial”. Por certo, o custo psico-pedagógico de um não retorno presencial é grande, muito grande, imenso mesmo, para as crianças e adolescentes deste país. Mas jamais se compara  ao custo da supressão da vida de uma criança quando ela for teu filho(a), filho(a) do Diretor(a) da escola, do professor(a), do pai e da mãe, neta de um avô ou avó, ou supressão da vida desses pais e avós, pela ida e contaminação da criança na escola.

Onde pega esse negacionismo: o custo pedagógico é tão “indesejável” – relembro Freud – que vale a pena arriscar… chamo-o negacionismo psico-pedagógico. Se bombas tivessem destruído as escolas, esse retorno presencial não seria pautado. Esquece-se (nega-se implicitamente) que o vírus é bomba mais letal, apenas sem barulho, sorrateiro, mais fácil de “negar”. E esse negacionismo impede que surjam e se dê espaço a criatividades outras, alternativas outras que possam minimizar tais custos e nos fazer aprender a conviver com a pandemia até quando ela dure.

Outro exemplo de negacionismo político-acadêmico, mescla de cumplicidade política com governo estadual, sob o manto do prejuízo acadêmico, é o que ocorre na USP: em meados de 2021 uma portaria da Reitoria determinava o retorno presencial no auge das mortes por covid, num contexto, inventemos o termo, heroico-“rambolesco” (de Rambo): a USP não pode parar, era o lema. Outra portaria em fins de 2021 e mais uma em inícios de 2022, já dentro da cruel evolução da covid-ómicron mostram que nas esferas decisórias da USP vedam-se os olhos para não enxergar os riscos do trânsito físico das centenas de milhares de estudantes dentro e fora do campus, no trajeto do ônibus, na cantina, no restaurante, nos corredores, nas salas. O forte “desejo” – ressalto a palavra, de que retornemos ao normal é tão grande que obnubila (denega) a cruel realidade da vida pandêmica.

Um dia de final do ano passado, num evento presencial de alguma inauguração, ouvi por vídeo, de um locutor institucional, frase mais ou menos como esta: que bom podermos estar aqui novamente, após essa pandemia que nos atingiu, isso mesmo, verbo no pretérito perfeito. O ato falho, desde Freud, é falho na fala consciente, mas muito exitoso a trair desejos inconscientes. O “desejo” de que tudo tivesse terminado, obnubila (denega), dentro da sala do evento, a realidade gritante lá fora. Esse negacionismo institucional perdura ainda, porquanto as poucas e insuficientes ações de infraestrutura nas salas e nos prédios para a recepção presencial dos alunos até agora pouco saíram do papel ou das falas das reuniões para andar em passos de tartaruga. Tudo vai sendo empurrado para mais adiante numa espécie de “aposta” (aqui o negacionismo) de que a coisa vá melhorar rapidamente e prescindir dessas ações: o forte desejo do retorno obnubila a completa imprudência da inércia.

Exemplos de negacionismos, desta feita ordinários, se dão à escala do homem comum, do aluno comum, do professor comum no cotidiano ordinário de sua lide. Ele é mais subliminar: em reunião de chefes dos departamentos das Letras em que professores quebravam a cabeça para tentar encontrar meios prudentes de preparar alguma forma de retorno presencial, ainda que parcial, alunos levantaram o argumento de que “todas as outras escolas particulares e públicas já voltaram presencialmente, só a USP que não”. Onde a peça do negacionismo?: se aquelas escolas voltaram significa que não há mais pandemia impeditiva. Aqui também o forte desejo de tudo voltar ao normal denega que as decisões do retorno presencial das escolas públicas e privadas já foram acometidas previamente também elas de seu próprio negacionismo, eleitoral de um lado, financeiro do outro.

Outro exemplo de negacionismo ordinário: “muitos alunos já trabalham fora e pegam ônibus”, então podemos voltar às aulas presenciais. Também aqui se obnubila a prudência e precaução, duas virtudes pouco lembradas na pandemia: temos de evitar, sempre que possível, a propagação do vírus. Então vamos deixar alunos correrem um segundo risco, dentro da Universidade, já que eles correm um primeiro, no seu trabalho. Também aqui se obnubila um negacionismo prévio: os patrões das empresas privadas pouco se preocupam que seus funcionários possam contrair o vírus, miram primeiro a sustentação de seus negócios.

É de se perguntar se alguma empresa pública e/ou privada investiu forte em transportes especiais, sanitariamente controlados, para seus funcionários, vacinados, distanciados, com máscaras de qualidade distribuídas para eles. Não, deixaram seus trabalhadores ao Deus dará. Isso é papel dos governos, pensam eles, via de regra, e passam a borracha (negacionista) no resto do raciocínio: tais governos foram eleitos por seus fartos financiamentos, governos que, uma vez empossados, muitos pouco cuidam disso, quando não negam o fato pandêmico. Via de regra, empresários não gastam um níquel, mesmo quando se beneficiam de enormes renúncias fiscais, reduções de seus impostos, já pífios se comparados com o trabalhador comum, e sempre repassados ao consumidor, nos preços… Quantas vacinas, hospitais, leitos, médicos, enfermeiros, testes, máscaras não caberiam nos volumosos bilhões de renúncia fiscal que ficaram em seus bolsos nesses dois anos já escoados da pandemia!

Outro exemplo de negacionismo ordinário: “não aguento mais ficar em casa, tenho muitas saudades da minha mesa de escritório” (ouvido numa reunião na USP). Aqui, mais uma vez, se uma bomba tivesse destruído a sala do escritório, essas saudades não se colocaria? O que a prudência manda? Temos de suportar e de nos arranjar da melhor maneira possível para evitar o risco de nossas vidas e das vidas de quem eventualmente possamos contaminar. Há custo nisso? Sim, grande custo, imenso custo, mas nada comparável ao custo de uma vida, que pode ser a sua.

Vale para a nossa vida cotidiana, ordinária, frente a nossos mini-negacionismos, uma frase que Freud inventou para sua teoria e tratamento clínico: a psicanálise é justificadamente desconfiada. Desconfiemos sempre das tomadas de decisão, dos outros e mesmo das nossas: elas encerram a mola de um desejo que precisa sair das sombras, vir à luz, para ser ponderado e prudentemente equacionado.

Waldir Beividas é professor do Departamento de Linguística da USP.