Do século norte-americano ao século asiático

Imagem: Will Goodman
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Por EMIR SADER*

Enquanto o Ocidente se fecha, a China tece uma nova rota para o futuro. A mudança histórica que devolve o centro do mundo à Ásia

1.

A transformação histórica que estamos vivendo, tanto por suas dimensões, como por sua natureza, é uma mudança similar à que se viveu nas décadas posteriores ao cruzamento do Atlântico por Cristóvão Colombo, que abriu uma nova rota para o comércio marítimo entre a Europa e o Oceano Indico, o sul da Ásia e mais além.

Estabeleceu-se, assim, um deslocamento espetacular do centro de gravidade econômico e politico do mundo, deslocamento que, pela primeira vez na história, colocou a Europa Ocidental no coração das rotas do comércio mundial. Agora ocorre algo similar, mas na direção oposta. A Ásia e as Rotas da Seda estão ascendendo com rapidez. Por isso, no Oriente existe esperança e otimismo, enquanto no Ocidente reina a ansiedade, com a consciência cada vez mais clara de que o Ocidente se encontra em uma encruzilhada.

O Brexit e a eleição de Donald Trump foram momentos de afirmação do isolacionismo do Ocidente nas duas potências que conduziram o bloco ocidental ao longo de mais de um século. O que contrasta de forma evidente com as tendências ao longo da Rota da Seda, a região que une o Pacífico ao Mediterrâneo.

Nessa região, ao contrário, o que se afirma é um processo de consolidação de formas mais eficazes de cooperação. O mundo parece estar assim se movendo, e em duas direções diferentes: uma tende à desagregação e ao avanço solitário, enquanto a outra tende a estreitar os vínculos e potencializar a trabalho coordenado.

Segundo Peter Frankopan: “São muitos os fatores que estimulam a mudança no século XXI, desde a demografia até o deslocamento do poder econômico, desde o papel que desempenham as tecnologias digitais até o cambio climático. As Rotas da Seda ascendem de forma vertiginosa porque tudo isso as move para a ação. O que acontece no coração do mundo nos próximos anos dará forma ao mundo nos próximos cem”.

Participam atualmente dos projetos da Rota da Seda mais de oitenta países, incluindo as repúblicas da Ásia Central, os países do sul e do sudeste da Ásia, aos do Oriente Próximo, a Turquia e os países da Europa Oriental, assim como a diversos estados da África e do Caribe. No total, tem uma população de quatro bilhões de habitantes, constituindo já mais de 63% da população mundial e uma produção de 21 bilhões de dólares, 29% do total mundial.

As Rotas da Seda se encontram em todos os lugares, não apenas na Ásia Central, mas em toda a Ásia, na África, na Europa e nas Américas. A China está abrindo as portas em um momento em que o Ocidente se está fechando. “Antes todos os caminhos costumavam levar a Roma. Na atualidade, todos levam a Pequim”, segundo Peter Frankopan.

2.

Com tudo isso, a China acabou dominando o pensamento estratégico norte-americano, tornando-se no maior desafio para a segurança nacional dos Estados Unidos, provavelmente ao longo de todo este século. A decadência econômica e política do Ocidente coloca também em questão as bases da democracia liberal.

Esta havia conseguido se identificar com a própria ideia de democracia, como se fosse a única e não houvesse outras formas de democracia. Da mesma forma que, depois de difundir que a economia neoliberal também seria a única possível, baseada no pensamento único e no consenso de Washington, vê esse modelo fracassar e não ser capaz de fazer com que as economias voltem a crescer.

O Brexit, a eleição de Donald Trump, a invasão do Capitólio, são momentos expressivos do isolacionismo predominante no Ocidente, ao mesmo tempo que os pilares da democracia ocidental nos Estados Unidos se veem questionados. Ao mesmo tempo que as duas crises internacionais do modelo neoliberal neste século, em 2008 e em 2020, permitem prever uma economia estagnada por muito tempo no novo século.

O então ministro de relação exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, afirmou: “Na atualidade a China parece ser o único país do mundo com uma ideia geoestratégica verdadeiramente global”. A concorrência com a China e a Rússia, por sua vez, vai dando formam, de maneira crescente à política externa norte-americana.

Também nos temas fundamentais do século XXI da inteligência artificial, a China vai superando claramente os Estados Unidos. O investimento chinês em inteligência artificial, que representava 11,3% em 2016, um ano depois já tinha chegado a quase 50%. Calcula-se que atualmente 90% dos computadores produzidos no mundo são fabricados na China, assim como ¾ de todos os telefones celulares, o que dá ideia dos avanços tecnológicos chineses.

O conjunto das transformações vividas pelo mundo nas últimas décadas fazem parte de um período de transição de um mundo unipolar a um mundo multipolar.

De um século norte-americano – o século XX –, passamos para a um século asiático – o século XXI. A era em que o Ocidente dava forma ao mundo ficou para trás há bastante tempo. Enquanto as Rotas da Seda estão em ascensão, e seguirão estando, a forma em que se desenvolvem e evoluem darão forma ao mundo do futuro. Porque isso é o que sempre representaram as rotas.

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]


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