Mulheres no pensamento social brasileiro

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Por MARIANA CHAGURI & BÁRBARA LUISA PIRES*

As mulheres foram atravessadas por questões intelectuais de seus tempos sociais e históricos, oferecendo interpretações originais e criativas sobre a sociedade

Ao nos perguntarmos sobre obras e intelectuais notáveis do pensamento brasileiro, é comum que uma infinidade de nomes masculinos desponte com facilidade e naturalidade surpreendentes. No entanto, é possível também indagar quais histórias intelectuais do pensamento brasileiro emergiriam caso tomássemos os problemas teóricos e empíricos, bem como as seleções temáticas para estudos sobre a sociedade levados a cabo por diferentes mulheres intelectuais. Seríamos apresentados a objetos, temáticas e opções metodológicas diferentes das que habitualmente conhecemos? Se sim, como explicaremos tais diferenças?

Responder a tais questões nos coloca diante da dinâmica muitas vezes paradoxal das intersecções entre gênero, cultura e produção das ideias. Uma dinâmica que nos exige reconhecer a dimensão coletiva da produção das ideias, observando que ela também é fruto das relações sociais que a fazem possível (Connell, 1997; Heilbron, 2022). Ou seja, tomar o pensamento social como prática e produto coletivo implica observar que ele é composto por variadas histórias institucionais e intelectuais, sendo fundamental investigar a pluralidade constitutiva de cada uma delas, bem como suas implicações mútuas.

Como é possível notar, num primeiro momento, a inflexão de gênero nos coloca diante da necessidade de alargar noções correntes sobre contextos sociais, políticos, culturais e intelectuais. Como consequência, passamos a reconhecer com maior facilidade a pluralidade de vozes que integram um mesmo contexto. O reconhecimento gradual promovido, em grande parte, pelo movimento atual de resgate de obras de autoria feminina no pensamento social tensiona as representações e tradições de pensamento não marcadas pela diferença.

Para além de uma importante e necessária política de representação na história das ideias e no pensamento social, observamos, também, que as mediações entre gênero e produção do conhecimento apenas podem ser compreendidas quando articuladas às dinâmicas institucionais das disciplinas, aos processos de sistematização do conhecimento por meio da seleção de temas e métodos de pesquisa e aos mecanismos de consagração intelectual que ajudam a configurar os variados campos e áreas do conhecimento.

O esforço teórico-metodológico de incorporar a diferença de gênero como elemento constitutivo das dinâmicas intelectuais e institucionais nos permite, então, avançar sobre uma política de presença de mulheres intelectuais no pensamento social, posicionando trajetórias, ideias e obras em seus respectivos contextos, mas também como analisar seus legados, sem deixar de considerar as oscilações que os processos de reconhecimento de mulheres intelectuais sofrem ao longo do tempo.

Refletindo sobre o caso da sociologia, Patricia Lengermann e Gillian Niebrugge (2019: 20) observam que a despeito dos variados percursos da disciplina pelo mundo, “todas as tradições nacionais excluíram as mulheres de seus cânones”, uma exclusão que, no argumento das autoras, “distorce e reduz a compreensão sobre o que é a Sociologia e sobre o que ela faz”, pois “uma das maneiras pelas quais uma disciplina ou profissão socializa seus novos membros é contando sua história como uma releitura dos textos, descobertas, pensadores e ideias reconhecidas (…)”.

Como aponta Karl Mannheim (1972), os esforços de descrição e avaliação em Sociologia estão bastante interconectados, ou seja, as distinções e discordâncias empíricas, teóricas e ideológicas que permitem aos sociólogos operacionalizarem proposições de diferentes modos, emergem – também – desse processo contínuo de debate, reinterpretação e controvérsia. Connell (1997), por exemplo, sustenta que a sociologia seria marcada por uma “pedagogia dos textos clássicos”, isto é, um conjunto privilegiado de textos cujas interpretações e reinterpretações ajudam a caracterizar a disciplina e a conferir identidade profissional a seus praticantes.

Enfrentando algumas questões semelhantes, Cynthia Hamlin, Raquel Weiss e Simone Brito (2023) observam que uma obra não se torna clássica ou canônica apenas pelo decreto de alguém: trata-se de um processo coletivo, aberto e de longo prazo que “supõe encontrar um ambiente cultural disposto a lê-lo e a ser provocado por suas palavras, garantindo, ainda, a transmissão a gerações posteriores” (p. 45). Seguindo no argumento das autoras, para que o valor interno de uma obra possa ser reconhecido, “é preciso, primeiro, que ela tenha chance de ser lida” (p. 44).

Ter a chance de ser lida, acrescentamos, é fundamental para a “política de presença”, pois permite avaliar criticamente o pertencimento intelectual e cultural de autoras a seus contextos, nos afastando dos terrenos movediços marcados pela ambiguidade de apagamentos progressivos por um lado e, por outro, de construções a posteriori como mulheres excepcionais que, ao estarem à frente de seu tempo, também acabaram por estar fora dele. Os mecanismos e processos de construção – cultural, política e intelectual – da excepcionalidade feminina compartilham um ponto em comum: o decantamento das disputas, controvérsias e diálogos que tais mulheres travaram em vida.

Já os apagamentos costumam se intensificar conforme as dinâmicas de atribuição de prestígio ou de institucionalização se aprofundam, fazendo com que inúmeras e diversas mulheres passem, na melhor das hipóteses, a terem suas existências registradas como notas mais ou menos fugidias.

Menos do que heroínas solitárias, presenças incômodas na pilha de obras masculinas, ou meras companheiras coadjuvantes de intelectuais proeminentes, defendemos que as mulheres foram atravessadas por questões intelectuais de seus tempos sociais e históricos, oferecendo interpretações originais e criativas sobre a sociedade, muitas vezes de um ponto de vista menos dual e mais aberto à heterogeneidade do mundo social. Por isso, torna-se relevante compreender de qual lugar social e de quais experiências elas se valeram para interpelar o passado, e de que forma seus prognósticos nos ajudam a repensar o presente.

As dificuldades de posicionar e analisar a obra e a trajetória de mulheres intelectuais em seus respectivos contextos, compreendendo suas escolhas e opções teórico-metodológicas, bem como inserindo seus argumentos na teia mais ampla de debates e disputas que elas buscaram integrar, acaba por diminuir não apenas sua presença na história das ideias e do pensamento social, como também dificulta a avaliação de seus legados.

De volta às perguntas com as quais abrimos o texto, apontamos que quaisquer respostas que busquemos exigem o reconhecimento de que obras e trajetórias de mulheres intelectuais devem compor o processo de aprendizado entre as gerações de cientistas sociais – sendo, por exemplo, ensinadas em disciplinas de graduação e pós-graduação, ganhando espaço nos debates e publicações acadêmicas, tendo suas obras reeditadas. Tal aprendizado é condição indispensável para que possamos não apenas conhecer e representar vozes, mas refazer histórias intelectuais que não ignorem a presença de autoras e de suas ideias.

*Mariana Chaguri é professora do Departamento de Sociologia da Unicamp.

*Bárbara Luisa Pires é doutoranda em sociologia na Unicamp.

Publicado originalmente Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social.


Referências

CONNELL, Raewyn W. (1997). Why is classical theory classical? American Journal of Sociology, v. 102, n. 6, p. 1511-1557. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.1086/231125.

HAMLIN, Cynthia Lins & WEISS, Raquel A. & BRITO, Simone M. Por uma Sociologia polifônica: introduzindo vozes femininas no cânone sociológico. Sociologias, vol. 24, p. 26-59, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1590/18070337-125407-PT.

HEILBRON, Johan. (2022). O nascimento da Sociologia. São Paulo: Edusp..

LENGERMANN, Patricia & NIEBRUGGE, Gillian. (2019). Fundadoras de la sociología y la teoría social 1830-1930. Centro de Investigaciones Sociológicas.

MANNHEIM, Karl. (1972). Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar.


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