Por EMIR SADER*
O papel dos BRICs na desdolarização da economia mundial
Os Estados Unidos saíram vitoriosos da Segunda Guerra Mundial. O dólar passou, naturalmente, a ser a moeda universal. Conforme a economia norte-americana se consolidou como a mais forte ao longo das décadas seguintes, a dolarização da economia se fortaleceu.
A situação mais recente do mundo voltou a questionar a ideia de dolarização da economia global. Lula e os próprios Brics passaram a propor a utilização das moedas locais para intercâmbios entre os vários países, libertando-se assim do uso do dólar.
“Eu acho que o mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar”, disse Lula. “Ninguém determinou que o dólar é seja a moeda padrão”
Segundo ele, a substituição do dólar no comércio internacional “é uma coisa que não tem volta, vai acontecer até que seja consolidada”. Uma proposta é amplamente defendida pelos Brics, inclusive pela Rússia.
Vladimir Putin, na mensagem que dirigiu à reunião dos Brics realizada no Brasil, defendeu o uso das moedas locais nos intercâmbios diretos entre dois países.
Donald Trump, por sua vez, acusou o golpe, pois se trata de um dos temas que mais o incomodam. Ele afirmou que os países que se alinharem ao que chamou de “políticas anti-norteamericanas” dos Brics, pagarão uma tarifa adicional de 10%.
Por sua vez, Dilma Rousseff, presidenta dos Bancos dos Brics, afirmou que há sinais de ampliação do uso das moedas em transações comerciais. Ela argumentou que a hegemonia do dólar não implica no fornecimento de moedas para o restante do mundo.
“Como você fornece dólar para o resto do mundo”, disse Dilma Rousseff. “Você incorre em déficit em conta corrente. E ao incorrer em déficit em conta corrente, você fornece dólar para o resto do mundo e tem um benefício. Qual é o benefício? Você financia a custo bastante baixo seus déficits, em conta corrente e no déficit fiscal. Mas você se torna um país, como os Estados Unidos se tornaram, desindustrializado. Você perde a sua indústria”, conclui ela.
“Estou vendo também uma busca de segurança”, prossegue Dilma Rousseff. “Ninguém querendo sofrer as consequências do lado errado”. “Há um movimento dos países de valorizarem as transações comerciais em moedas próprias”.
Este é o caminho até chegar a uma desdolarização plena, o que significaria a criação de uma moeda própria, alternativa ao dólar. O que teria que se dar em uma outra comunidade, neste caso, os Brics.
Os Brics têm como uma das suas bandeiras exatamente reduzir a hegemonia do dólar como moeda quase oficial nos intercâmbios comerciais. Foi no momento da conclusão da reunião realizada em julho passado no Rio de Janeiro que Lula fez essa declaração.
*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]
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