As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

No Equador

Foto de Hamilton Grimaldi
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por EMIR SADER*

Erros da derrota da esquerda equatoriana que toda a esquerda latino-americana tem de aprender, valorizando ainda mais sua unidade interna e a centralidade do enfrentamento ao neoliberalismo

A esquerda equatoriana ficou profundamente dividida no segundo turno eleitoral presidencial. Os três candidatos (três antineoliberais) obtiveram 66% dos votos: Arauz 32%, Yaku 19%, Xavier 15%. No segundo turno, Arauz subiu apenas 17 pontos, chegando a 47%. Os demais candidatos não apoiaram formalmente ninguém, mas em vez disso concentraram suas críticas em Arauz, que consideravam o principal inimigo.

Enquanto isso,  Lasso tinha 19% no primeiro turno, mas subiu 33% no segundo turno – quase igual à soma dos votos de Yaku e Xavier: 34%. O certo é que a esquerda, com essa transferência de votos, perdeu a maioria do primeiro turno, sendo derrotada no segundo. A análise das regiões de concentração de votos da Conae aponta para onde Lasso acaba ‘conquistando’ mais votos no segundo turno.

Assim, a esquerda, majoritária no país, terminou perdendo a eleição. E a direita, claramente minoria no primeiro turno (19%), por causa da divisão da esquerda, acabou elegendo o seu candidato.

Por que isso se deu? Em primeiro lugar, é claro, pela falta do sentido de unidade dos candidatos de esquerda, Yaku e Xavier. Porque eles privilegiaram contradições secundárias privilegiadas com o governo de Rafael Correa – conflitos com o movimento indígena, questões de preservação ambiental – em face da contradição fundamental de nosso período histórico, aquele entre o neoliberalismo e pós-neoliberalismo. A Conae propôs um estranho “voto nulo ideológico”. Esse fluxo de votos -1.600,00, que no segundo turno de 2017 foram 980.000 –  teve peso decisivo no resultado final, pois Lasso acabou vencendo por cerca de 400.000 votos.

A esquerda majoritária no partido não conseguiu restaurar a unidade de seu campo no segundo turno e foi derrotada. Também tem a ver com a forma como o governo de Rafael Correa – o mais importante da história do Equador – abordou as questões de divergência no campo popular.

A oposição, tanto de direita quanto de esquerda, explorou, de forma priorizada, o ‘anticorreismo’. De forma consciente, pela direita. De forma irresponsável por setores da esquerda, que acabaram fazendo dessa questão a central na campanha, justificando o jogo que acabaram fazendo e que decidiu o resultado final da eleição a favor da direita.

Às vezes confessavam que preferiam Lasso – o maior banqueiro do país, um neoliberal ortodoxo -, às vezes de má-fé, favorecendo-o, erigindo o retorno do correismo como seu inimigo fundamental.

O problema da falta de unidade da esquerda e da ascensão de Lasso vem já da eleição presidencial anterior, em 2017. Lenin Moreno, escolhido pelas eleições internas da Aliança País como o candidato da continuidade da Revolução Cidadã, de Rafael Correa, venceu com apenas pouco mais de dois pontos a Guillermo Lasso, após 10 anos do governo que fez mais transformações na história do Equador. Algo estava errado. Mas não foram feitas as análises correspondentes. A esquerda costuma aprender mais com as derrotas do que com as vitórias.

Decisiva pela divisão do campo correista foi a traição de Lenin Moreno, que acabou praticamente liquidando com Aliança País, o partido da Revolução Cidadã e enfraquecendo esse campo, pelo desconcerto que provocou, mas também pela repressão direta dos dirigentes do correismo e do próprio Rafael Correa, que precisou pedir asilo para não ser preso, por meio de um processo de judicialização, característico da direita latino-americano contemporânea.

Enquanto isso, setores do movimento indígena consolidaram-se como um campo político próprio –  a Conae e Pachakutik -, com forte oposição ao correismo. Outros setores da esquerda – como a candidatura de Xavier – também contribuíram para essa posição.

Ao contrário da Bolívia, onde, apesar de alguns conflitos com o movimento indígena, o governo do Evo continuou contando com o apoio massivo desse movimento, que acabou sendo decisivo na grande vitória do MAS no primeiro turno das últimas eleições. A Aliança País e o governo de Rafael Correa tiveram muitos conflitos com o movimento indígena, que se autonomizou e passou a se opor, na sua grande maioria, ao governo. O MAS reunificou todo o campo popular e se reafirmou como a força hegemônica, mantendo no seu interior, as diferenças e conflitos dentro do campo da esquerda.

O conjunto desses fenômenos levou à incapacidade do correismo de restabelecer a unidade da esquerda e se afirmar como força hegemônica no campo popular, fez com que uma esquerda majoritária no Equador fosse derrotada por uma direita minoritária, que irá governar o país pelos próximos quatro anos, restabelecendo seu modelo neoliberal, que recomeça com a privatização do Banco Central do Equador.

A esquerda equatoriana e toda a esquerda latino-americana têm que aprender com essa dolorosa derrota, valorizando ainda mais sua unidade interna e a centralidade do enfrentamento ao neoliberalismo.

*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A Vingança na história (Boitempo).

Publicado originalmente no portal Brasil 247.

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Salem Nasser José Machado Moita Neto José Micaelson Lacerda Morais Leda Maria Paulani Renato Dagnino Tadeu Valadares Francisco de Oliveira Barros Júnior Alexandre de Lima Castro Tranjan Liszt Vieira Vladimir Safatle Ricardo Fabbrini Atilio A. Boron Bernardo Ricupero Jorge Branco Marilia Pacheco Fiorillo Mário Maestri Luiz Werneck Vianna Dênis de Moraes Marcus Ianoni Luis Felipe Miguel Lincoln Secco Ronald Rocha Gilberto Maringoni Manchetômetro Henri Acselrad José Dirceu Ari Marcelo Solon Everaldo de Oliveira Andrade Antonio Martins Daniel Costa Roberto Bueno Eugênio Trivinho Airton Paschoa Plínio de Arruda Sampaio Jr. Maria Rita Kehl Érico Andrade Caio Bugiato Tarso Genro Slavoj Žižek Eugênio Bucci Daniel Afonso da Silva Fábio Konder Comparato Rubens Pinto Lyra José Raimundo Trindade João Carlos Salles José Geraldo Couto Boaventura de Sousa Santos Priscila Figueiredo Ricardo Abramovay Thomas Piketty Paulo Martins Luiz Marques Marilena Chauí Carlos Tautz Jean Marc Von Der Weid Osvaldo Coggiola Sergio Amadeu da Silveira Eleutério F. S. Prado Claudio Katz Ladislau Dowbor Ricardo Musse José Costa Júnior Antônio Sales Rios Neto Ricardo Antunes Gilberto Lopes Annateresa Fabris Roberto Noritomi Paulo Nogueira Batista Jr Bruno Fabricio Alcebino da Silva Rafael R. Ioris Bruno Machado Luís Fernando Vitagliano Luciano Nascimento João Feres Júnior Afrânio Catani Lucas Fiaschetti Estevez Alexandre Aragão de Albuquerque Tales Ab'Sáber Luiz Bernardo Pericás André Márcio Neves Soares Celso Favaretto Valério Arcary Marjorie C. Marona Anderson Alves Esteves Chico Whitaker Gabriel Cohn Elias Jabbour Bento Prado Jr. Juarez Guimarães Ronaldo Tadeu de Souza Flávio Aguiar Marcos Aurélio da Silva Anselm Jappe Denilson Cordeiro Henry Burnett Jorge Luiz Souto Maior Francisco Fernandes Ladeira Paulo Sérgio Pinheiro Ronald León Núñez Daniel Brazil Remy José Fontana Fernão Pessoa Ramos Eduardo Borges Michael Roberts Gerson Almeida João Lanari Bo André Singer Vinício Carrilho Martinez Sandra Bitencourt Valerio Arcary Jean Pierre Chauvin Luiz Renato Martins Paulo Capel Narvai Kátia Gerab Baggio Berenice Bento João Paulo Ayub Fonseca Walnice Nogueira Galvão Luiz Eduardo Soares Leonardo Avritzer Otaviano Helene João Carlos Loebens Julian Rodrigues José Luís Fiori Michael Löwy Antonino Infranca Alexandre de Freitas Barbosa João Sette Whitaker Ferreira Chico Alencar Leonardo Sacramento Luiz Roberto Alves Yuri Martins-Fontes Vanderlei Tenório Lorenzo Vitral Carla Teixeira Leonardo Boff Luiz Costa Lima João Adolfo Hansen Igor Felippe Santos Paulo Fernandes Silveira Mariarosaria Fabris Marcos Silva Milton Pinheiro Flávio R. Kothe Marcelo Módolo Eliziário Andrade Alysson Leandro Mascaro Marcelo Guimarães Lima Armando Boito Eleonora Albano Manuel Domingos Neto Heraldo Campos Luiz Carlos Bresser-Pereira Celso Frederico Samuel Kilsztajn Francisco Pereira de Farias Dennis Oliveira Fernando Nogueira da Costa Andrew Korybko Rodrigo de Faria Benicio Viero Schmidt

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada