Por ERIVELTO DA ROCHA CARVALHO*
Comentário sobre a novela de Yuri Herrera
Desde o início dos anos 2000, Yuri Herrera vem se destacando no panorama da ficção mexicana. Seu reconhecimento no âmbito da prosa escrita em língua espanhola deu-se primeiro com a novela Los trabajos del reino (2003), obra que lhe confere notoriedade tanto nacional quanto internacional.
Desde então, o autor vem construindo uma trajetória consolidada como ficcionista, com destaque para sua produção novelística e a publicação de contos que abordam desde ângulos inusitados, tópicos latentes relativos à sociedade mexicana – sem, contudo, se limitar a ela. Em obras como Señales que precederán al fin del mundo (2009) e La transmigración de los cuerpos (2013), Yuri Herrera demonstra sua capacidade de tratar, com inventividade e apuro formal, uma diversidade significativa de temas e problemas, qualidade igualmente perceptível em sua novela mais recente, La estación del pántano (2022).
Esta última novela, objeto de análise sumária neste comentário, parte de uma proposição muito simples: “reconstituir” ficcionalmente o período em que o prócere Benito Juárez esteve exilado nos Estados Unidos, mais precisamente em New Orleans, antes de regressar ao seu país para promover a queda da ditadura de Santa Anna e se tornar o governante mexicano com o maior período no poder (se desconsiderarmos o regime de Porfírio Díaz) ficando notabilizado pelas reformas liberais que caracterizaram seus mandatos presidenciais e por atos notáveis como a nacionalização dos bens do clero e a liderança da guerra contra o invasor europeu, que tece como consequência o fuzilamento do Imperador Maximiliano da Áustria, marco que entre outros cristaliza a irreversibilidade dos processos de independência da América Latina no século XIX.
Advogado de origem zapoteca, Benito Juárez figura até hoje em monumentos e nas principais vias das cidades mexicanas, sendo ainda recordado como pai da pátria. Do mesmo modo aparece o grupo de exilados que chega com ele anonimamente à Luisiana de meados do século XIX e é retratado desde um ponto de vista estritamente novelístico em La estación del pántano.
Como dito, a hipótese de trabalho de Yuri Herrera é bastante simples e é apresentada no brevíssimo prólogo que antecede os nove capítulos da trama: o que teria ocorrido nos quase dezoito meses em que o líder político mexicano permaneceu nos Estados Unidos, enquanto esperava a oportunidade de voltar ao seu país e libertá-lo de um regime venal e de um líder que escarnecia do povo e dos valores republicanos que animavam os liberais mexicanos, sobretudo dos exilados?
A “reconstituição” operada na novela não se limita à fórmula clássica do romance histórico, mas parte de uma indagação sobre a linguagem literária para chegar a um amplo quadro que problematiza a forma como o autor e os leitores podem chegar a perceber um episódio acerca do qual não existem maiores registros históricos disponíveis, ou seja, onde quase tudo é lacuna ou pântano informativo.
Autobiografia em terceira pessoa
Pode-se afirmar, sem incorrer em contradição, que La estación del pántano reconstrói uma parte da biografia de Benito Juárez a partir de uma dupla cronologia. O relato das peripécias do desconhecido Benito em New Orleans revela, simultaneamente, a ordem das preocupações insinuadas ao longo da trama da novela compondo uma paisagem cultural que pode ser atribuída ao próprio Yuri Herrera, que de fato vive e trabalha na Universidade de Tulane e cujo narrador, por tanto, está tratando da história cultural americana com certa proximidade ao do cidadão de origem mexicana radicado na Luisiana.
Como informado entre os dados de edição da obra, o escritor (que atua como docente em Tulane) desenvolveu parte da novela com apoio de um programa de pesquisa. Assim, é evidente que o seu livro não só reconstrói um episódio nacional mexicano, mas também buscar iluminar as transposições temporais e culturais que La estación del pántano explora.
Ao se deparar com o vasto caldeirão cultural de New Orleans, Yuri Herrera não apenas questiona a história mexicana, mas também projeta um olhar que avança sobre as contradições do capitalismo nos Estados Unidos, procurando assim compreender essa história a partir de uma nova perspectiva. História mexicana e capitalismo americano são vias de mão dupla na sua peculiar aproximação narrativa.
Escrita a partir de fragmentos e de forma sincopada, a narração presente no livro de Yuri Herrera apresenta de forma direta a estadia de Benito Juárez desde sua chegada ao porto de New Orleans até o seu regresso ao México e ao Estado de Oaxaca, em lances em que o narrador se posta como se estivesse ao lado do seu “biografado” tratando-o por “ele”, com raros momentos em que se refere a este “ele” como “Benito”. Embora aparentemente se limite a descrever de forma realista o que passa, sua estratégia narrativa introduz abruptamente uma série de cenas, lances e imagens que vão compondo o fundo da história de Juárez em Luisiana.
A novela é minuciosa ao inferir urbanisticamente os quadrantes tradicionais que compõem a cidade de New Orleans, oferecendo fidedignamente a dimensão do “pântano” que representa a cidade (o termo inclusive poderia ser tomado tanto literal como metaforicamente, no caso). No entanto, o que mais se destaca no conjunto dos fragmentos que compõe a sequência de capítulos é o tipo de aprendizagem de Juárez sobre a necessidade de escutar a “música de dentro” que está presente em todos os momentos na cidade-encruzilhada, e da qual ele vai se dando conta paulatinamente (junto com os leitores) na medida em que convive com seus compatriotas, os habitantes da cidade e, principalmente, com a personagem Thisbee.
Atravessando a temporada da Yellow Jack, integrando-se progressivamente à malha da vida urbana e observando a atividade de comerciantes de escravos, policiais e trapaceiros nos Estados Unidos, Benito Juárez vai tomando fôlego para suportar a espera que o impede de voltar ao seu país. Ao mesmo tempo, começa a se dar conta do mundo que lhe é descortinado pela figura de Thisbee, uma hospedeira negra e livre que auxilia a outros escravizados fugidos.
Dito contexto evidencia relações raciais e jurídicas entre distintas nacionalidades que não parecem ser muito melhores do que as que vemos hoje (especialmente com a ascensão recente do ultranacionalismo neotecnofascista por todo mundo, em especial nos Estados Unidos).
Anônimo, desacreditado mesmo entre seus pares exilados e contando unicamente com a possibilidade de trabalhar numa fábrica de charutos, o protagonista vai avançando em meio às incertezas e a um cenário estranho e nada animador, com milhares de mortes causadas no verão pela pandemia que assola um território hostil (será mera coincidência que o relato se volte sobre uma pandemia depois do que passamos nos últimos anos?).
A forma fragmentária do relato de Yuri Herrera leva a uma já longa tradição da novela mexicana que vai da própria literatura da Revolução até a forte inflexão marcada por Juan Rulfo ou então a muito do que vem a partir daí. Seja como queiramos situá-lo no panorama das letras latino-americanas, uma das marcas relevantes em seu relato é justamente sair dos espaços cômodos e bem situados para procurar indagar sobre determinados problemas sem cair em obviedades nem recorrer ao exotismo.
A sua configuração da New Orleans vivida por Benito Juárez põe em jogo uma dinâmica muito rica, que se dá fora e dentro do seu relato, entre aquilo que é chamado em uma passagem do seu relato de textos vivos e mortos (que pode ser ampliada para a relação da linguagem literária da novela com a linguagem pragmática dos jornais e da mídia contemporânea). Juárez lê as notícias de New Orleans e do México assim como lemos a novela de Yuri Herrera ou como indagamos sobre as notícias dos Estados Unidos para saber para onde nos movermos enquanto o pântano não se transforma ou desaparece.
New Orleans e as contradições do capitalismo
“O mercado nunca se detém”, diz um financista nova-iorquino ligado ao mercado de Gravier, o comércio de “mãos” apresentado na novela de Iury Herrera. O mercado de “mãos” é o mercado de escravizados que faz com que os liberais mexicanos fiquem impressionados com tamanha avidez por dinheiro e pela brutalidade dos senhores norte-americanos.
Há uma passagem do livro em que se descreve num fragmento a alegria de um homem por comprar uma escravizada adolescente e ainda virgem, o que faz o homem saltar de alegria porque finalmente irá poder produzir ele mesmo novos escravizados que poderão garantir a prosperidade da sua família. “- Uma oportunidade, uma oportunidade”, ele diz. O leiloeiro diz que é uma “ocasião de win-win”.
Em outra passagen, discute-se a ideia dos liberais sobre a necessidade de estudar a sociedade para poder transformá-la ou então apresenta-se o papel jurídico assumido por cada franja de cor numa sociedade em que para alguns a distância entre a escravidão formal e a informal parece reduzir-se a uma simples nuance que, contudo, revela-se determinante em vários momentos.
Esse é o ambiente imediatamente anterior ao da Guerra de Secessão. Juárez não passa incólume: em determinado momento, é confundido pelo policial que o vigia com um dos escravizados que circulam pela cidade do jazz. A partir desse retrato difuso de uma cidade em ebulição vão se superpondo progressivamente elementos como a música, a vida dos bairros baixos, os coffee-shops, os cabaretse a rua, essa tomada ora como sinal de convivência, ora como local da sobrevivência dos exilados enquanto esperam a passagem de um tempo que teima em permanecer estagnado.
Fica difícil não traçar aqui um evidente paralelo com o recente período da pandemia de covid-19, mas pode ser que essa impressão decorra simplesmente de outra justaposição simples de épocas distintas dentro de uma mesmo painel multicultural. O fato é que, se pensamos na New Orleans de Benito Juárez, teremos que pensar também nos Estados Unidos dos estrangeiros mexicanos e, por que não dizer, dos imigrantes latino-americanos que permeiam as cidades americanas atualmente.
Essa autobiografia em terceira pessoa, a de um narrador que perscruta a consciência e os atos do liberal exilado não deixa de ser também um relato sobre as dificuldades de nossa época, colocando em questão os limites dos valores ligados ao capitalismo novecentista mas também incidindo sobre a falácia do todo-poderoso e autorregulado mercado do século XXI, que embora se proteja na hora de defender os interesses comerciais de uma nação, se alia ao final com o pior que a humanidade produziu em termos de qualquer tipo de entendimento sobre o que seria o valor da dignidade mínima, seja de homens ou mulheres.
Ao expor em perspectiva as contradições do mundo do capitalismo novecentista, Herrera consegue ao mesmo tempo chamar a atenção para o futuro a que chegamos a partir desse mesmo tipo de sociedade fundada sobre a exploração e o desrespeito à diversidade.
A pretensa biografia de Juárez é só um meio para provocar os leitores diante de um mar de espera, de uma espera que pode não levar a nada, a não ser que o leitor se mova no sentido de perceber a “música de dentro” que aflora seja através do Carnaval, do funk ou do movimento contagiante da canaille, da massa de indivíduos que lutam pelo direito à alegria e à sobrevivência. Assim como ressoam, na oficina onde Benito e seu companheiro Pepe se empregam inicialmente, os tipos usados pelo estrangeiro Cabañas na impressão de panfletos destinados à busca de “propriedades” fugidas, ecoam também os tambores por ruas e reclusos recantos ou se multiplicam as conversas em cafés esquecidos onde se reúnem e confabulam os supernumerários mexicanos e outros personagens vários (como, por exemplo, o do intermediador de armas, o cubano Pedro Santa Cecilia).
Em busca do ritmo interno da narrativa
Em meio à passagem do tempo que transcorre de verão a verão, no período em que a narrativa de Yuri Herrera se desenvolve, o “ele” do protagonista percebe muitas coisas e estando por se despedir de New Orleans (num capítulo final que se diferencia de todos os demais por ser um único relato unitário), se pergunta se de fato ele tem ali uma “história clara” para ser contada sobre esse episódio da sua vida. Primeiro, pensa que sim. Depois, acha que não.
A busca de Juarez por uma biografia própria é como a busca do livro como um todo, que se quer como sendo a história “verdadeira” de Juárez mesmo sendo tão somente um relato de ficção (tão desconfiável como o falso Hotel Cincinatti em que Juárez se hospeda quando chega). Isso explica porque de fato La estación del pántanoconfia na capacidade da narrativa em transformar aquilo que toca, e neste sentido estamos diante não só de uma novela bem tramada, mas também frente a um exercício formal que se justifica por aquilo que é.
Inclusive ao deixar fios soltos, ações inconclusas e personagens que desfilam e se afogam em meio ao pântano de Luisiana, essa cidade que parece ter algo de Velho Oeste em plena Costa Leste. Na primeira cena do livro, Juárez vê um homem que luta com dois policiais por uma bússola, e só depois irá entender o porquê dessa atitude, da mesma forma que irá se familiarizar com as línguas do lugar através da canaille ou dos jornais que lê nos cafés para saber do México.
Logo irá ver alguém como esse homem, com o mesmo desenho do corpo se afogando no rio (o sankofa africano, reproduzido graficamente no livro, que lembra o anjo benjaminiano da história). Ele perambula pelos quadrantes de New Orleans, passeia pela Ilha Barataria de Jean Lafitte (a que leva o mesmo nome da governada pelo Sancho de Pança de Cervantes), escuta a Gotschalk enquanto dá razão do Plano de Ayutla e do ato Kansas-Nebraska sobre os “direitos” dos escravizados.
De maneira tutelar, Thisbee lhe confia de maneira simples e direta o significado do desenho-tatuagem do pássaro voltando-se para um lado e olhando para o outro: ela recorda ao mexicano que por ir adiante não se abandona o que veio antes, e é nesta perspectiva que pode-se enquadrar o que chamamos aqui de dupla cronologia presente no relato de Herrera, autobiografia em terceira pessoa de Juárez e em primeira pessoa daquilo que a pesquisa do novelista (e de seu narrador) vê no México e no mundo contemporâneo a partir de New Orleans.
Longe da pretensão de construir um relato totalizante, mesmo assim Herrera constrói um relato significativo, ainda que mínimo. Para terminar com a parte do livro dedicada da pandemia da Yellow Jack, por exemplo, ele corta abruptamente a narração com a descrição de dois sonhos febris de Benito Juárez no meio da “temporada do vômito”.
Acamado, o protagonista sonha primeiro com um pêndulo cujo movimento ele consegue controlar e, logo em seguida, com um ataque voraz de um caçador de vampiros socialista personificado na figura do liberal Melchor Ocampo, travestido de caçador de aristocratas.
Ambos sonhos dão certa cor de irrealidade à biografia de Benito, e têm logicamente certo efeito burlesco ao reverter os princípios moralizantes dos sueños de tipo quevedesco. Por tanto, nem tudo que se vê em La estación del pántanoremete ao real, pois os sujeitos das reformas sociais também estão tomados por suas fobias e seus desejos mais secretos.
Por fim, na última noite antes de tomar o seu barco de volta, o verdadeiramente patriota e fiel Juárez tem outra epifania de lupanar dançando com Thisbee, que lhe apresenta os segredos da mistura dos tambores com os violinos tocando em conjunto num salão (há de se recordar que as óperas passam pelo exilado a cada mês em Luisiana).
Não sem deixar de se render as cadeiras, “sultãs do cóxis”, Benito prevê mais um incêndio provocado na oficina de Borrego e liberta o rapaz que ali se encontra, um filho de Thisbee. E toma assim o vapor para alcançar Acapulco e depois voltar secretamente a Oaxaca, para poder então participar da história oficial que é contada a respeito do seu nome público.
Além de engenhoso, o livro de Yuri Herrera é muito sugestivo no que diz respeito a muitas pautas para serem refletidas, em diversos sentidos. Fica latente a distância dos liberais mexicanos da imagem mais comum que possa existir como dos “liberais” como protetores de direitos adquiridos no capitalismo. O deslocamento da dimensão histórica que seu relato produz é muito interessante nessa perspectiva. No México contemporâneo, por razão do giro da direção que se deu ao Estado nos últimos anos, existe um novo interesse por repensar as configurações do papel da nação não só em termos geopolíticos, mas também culturais.
Livros que se encontram em outros campos ou em outras searas (como Patria de Paco Ignacio Taibo II, por exemplo) também discutem o papel desses homens de ação que são ao mesmo tempo figuras críticas ao capitalismo entendido como única e última litania do possível. Se por formação já havia uma clara distância entre os liberais da América Latina e os seus congêneres estadunidenses em geral, é possível marcar também a distância do que pode significar uma política solidamente progressista diante do não tão novo consórcio entre pseudoliberais e tecnofascistas que governam os debates econômicos do mundo hoje.
Repensar, em perspectiva e com imaginação, a partir de figuras como Benito Juárez serve para estimular outras narrativas possíveis sobre histórias ainda não contadas, e é neste sentido que o livro de Yuri Herrera opera algo que só uma novela pode alcançar. La estación del pántanonão é, por tanto, apenas um discurso sobre um determinado estado de coisas, mas propõe uma forma de pensar múltiplas dimensões do que costuma se chamar de realidade – como, paradoxalmente, a vida em um mundo em que liberdade e escravidão, espera e movimento, silêncio e palavra se revelam como fenômenos interdependentes.
*Erivelto da Rocha Carvalho é professor da área de Literatura Espanhola e Hispano-Americana da Universidade de Brasília (UnB).
Referência

Yuri Herrera. La estación del pántano. Cáceres, Editorial Periférica, 2022, 192 págs. [https://amzn.to/492yjAv]





















