Por CIDINHA SANTOS*
A defesa da soberania na América Latina é uma luta feminista e anti-imperialista, pois a invasão estrangeira intensifica o patriarcado colonial e a violência sobre os corpos e a autonomia das mulheres
1.
A soberania de uma nação não é um conceito abstrato restrito a gabinetes diplomáticos ou tratados internacionais; ela é a pele que reveste a autonomia de um povo e, para nós, mulheres inseridas nos movimentos sociais da América Latina, é o território fundamental onde nossas lutas ganham corpo.
A urgência deste debate se acentua diante do cenário global atual. Já nos primeiros dias do novo governo de Donald Trump, em 2025, testemunhamos ataques frontais e sistemáticos às questões de gênero e aos direitos sexuais e reprodutivos. Não é coincidência: a história nos ensina que, em quaisquer circunstâncias, as mulheres são as primeiras a perderem direitos sob regimes de face fascista. O autoritarismo necessita do controle sobre nossos corpos para se consolidar, utilizando a pauta moral como cortina de fumaça para o saque das soberanias nacionais.
Quando discutimos a hipótese do sequestro da autoridade máxima do presidente da Venezuela – ou qualquer tentativa de destituição forçada de um mandatário eleito na região – não estamos falando apenas de um jogo de xadrez geopolítico entre potências. Estamos falando da iminência de fratura social que recai, com violência desproporcional, sobre os ombros das mulheres.
A história do nosso continente é marcada por cicatrizes de intervenções externas que, sob o pretexto de “restaurar a democracia”, invariavelmente instauraram o caos, a militarização e o retrocesso de direitos duramente conquistados pelas bases populares.
O risco de invasão na América Latina, alimentado pela retórica de confronto e pela demonização das identidades diversas, projeta uma sombra autoritária que atinge primeiro as casas e o corpo das mulheres. No movimento social, aprendemos que a guerra e a intervenção estrangeira são as expressões máximas do patriarcado colonial. A invasão não traz liberdade; ela traz o deslocamento forçado, o aumento da exploração sexual, a precarização extrema do trabalho e a destruição das redes de cuidado que sustentam a vida comunitária.
Precisamos ter nítido que somos todas vítimas desse ataque à soberania. A ameaça que hoje paira sobre uma fronteira vizinha é o laboratório de uma invasão que pode se estender por todo o Continente, padronizando a retirada de direitos e o silenciamento das dissidências.
2.
Quando a soberania de um país é desrespeitada, o estado de exceção se torna a norma e, nesse cenário, as vozes femininas que lideram associações de moradores, cozinhas solidárias e sindicatos são as primeiras a serem silenciadas pela bota militar ou pela violência das milícias que florescem no vácuo do poder legítimo.
A implicação direta do desrespeito à soberania dos povos na vida das mulheres é a perda da autodeterminação sobre o próprio cotidiano. Sem um Estado soberano que possa gerir seus recursos e proteger suas fronteiras das investidas do capital transnacional e da ideologia conservadora importada, as políticas públicas de saúde reprodutiva, educação e combate à violência de gênero são as primeiras a serem sacrificadas no altar da “segurança nacional” ou do ajuste fiscal imposto por forças externas.
Este é um chamado à resistência. Não podemos recuar enquanto o fascismo tenta redesenhar o mapa da nossa autonomia. O desrespeito à soberania é um ataque frontal à nossa capacidade de organizar a esperança. Por isso, a luta feminista na América Latina é intrinsecamente anti-imperialista. Entendemos que a defesa da autodeterminação de qualquer povo vizinho é a defesa da integridade de nossas próprias vidas.
Além disso, o clima de instabilidade política e a ameaça de conflito armado alimentam a masculinidade tóxica e agressiva, que se traduz em um aumento vertiginoso dos índices de feminicídio e violência doméstica. Onde impera o fuzil e o autoritarismo imposto de fora, a autonomia das mulheres é vista como ameaça à ordem estabelecida.
O desrespeito à soberania é, portanto, um ataque frontal à nossa capacidade de organizar a esperança. É a tentativa de nos devolver ao ambiente privado, ao silêncio e à submissão. Entendemos que a defesa da autodeterminação da Venezuela e de qualquer povo vizinho é, em última instância, a defesa da integridade de nossas próprias vidas e da possibilidade de construir um futuro onde o destino da nossa terra seja decidido por quem nela caminha e trabalha.
Nossa resistência é feita de solidariedade internacionalista e da clareza de que a paz é fruto da justiça e do respeito às diferenças políticas internas, sem a interferência de botas estrangeiras (muitos menos as internas). A defesa da autoridade máxima eleita, independentemente de alinhamentos ideológicos conjunturais, é a defesa do pacto democrático que impede que a barbárie se instale.
Para nós, mulheres do movimento social, a pátria é o chão onde plantamos nossa resistência, e a soberania é o ar que nos permite respirar e lutar por um mundo onde nem a terra, nem nossos corpos, sejam territórios de conquista.
Seguimos em marcha e convocamos todas as mulheres a permanecerem unidas contra a invasão de nossos territórios e contra o sequestro de nossos direitos, afirmando que a integração latino-americana deve ser o nosso escudo contra a prepotência daqueles que nunca souberam o que é cuidar de um povo.
*Cidinha Santos é jornalista.






















