Da melancolia neoliberal ao planejamento chinês

Imagem: Lara Jameson
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Por RODRIGO LUCAS PEREIRA*

Diante da paralisia temporal e do rentismo do Ocidente, o modelo chinês de planejamento soberano surge como alternativa para resgatar a capacidade estatal de projetar e construir o futuro

Se a Modernidade foi definida pela aceleração do tempo e pela crença no progresso, a contemporaneidade ocidental vive sob o signo de uma paralisia paradoxal. François Hartog diagnosticou nossa era como o império do “presentismo”: uma temporalidade que fagocitou o passado e o futuro, confinando a experiência social a um perpétuo “agora”. Diferente das gerações anteriores, que miravam o ano 2000 como a promessa da emancipação humana, o Ocidente hoje encara as próximas décadas apenas como deadlines de sobrevivência climática ou financeira. O futuro deixou de ser um horizonte de esperança para se tornar uma ameaça a ser gerida.

Contudo, essa claustrofobia temporal não é uma lei da física, nem um destino biológico. O relógio da história não parou; ele foi quebrado propositalmente em uma geografia específica: o Ocidente neoliberal. Para consertá-lo, precisamos olhar para onde o tempo voltou a correr.

A engrenagem do tempo histórico

Para compreender a profundidade do nosso impasse, é preciso revisitar as categorias analíticas de Reinhart Koselleck. Em Futuro Passado, o historiador alemão nos ensinou que o tempo histórico é uma tensão constituída por duas categorias fundamentais: o “espaço de experiência” (o passado herdado) e o “horizonte de expectativa” (o futuro projetado).

A grande revolução da Modernidade (1750-1850) foi descolar essas duas camadas. A humanidade percebeu que o futuro não precisava ser uma repetição circular do passado. Foi nesse hiato entre “o que somos” e “o que podemos ser” que a política moderna nasceu, transformando o tempo em um vetor apontado para frente. Acreditava-se, com base material, que a ação humana no presente tinha força para construir um amanhã qualitativamente superior.

Essa foi a máquina que moveu o mundo por dois séculos, até que a engrenagem foi travada deliberadamente. Com a queda do Muro de Berlim e a ascensão do consenso de Washington, o neoliberalismo não operou apenas uma mudança econômica, mas um decreto ontológico. Ao declarar o “fim da história”, privatizou-se radicalmente a esperança.

O resultado, três décadas depois, é um cenário de terra arrasada. O sistema que prometia eficiência máxima entregou a armadilha da financeirização, onde o lucro não advém da produção de mercadorias, mas do rentismo parasitário. O Estado, refém de “arcabouços fiscais” e austeridade permanente, deixou de ser o arquiteto do destino para virar um mero gestor de riscos e garantidor da solvência da dívida pública, enquanto assiste passivamente à desindustrialização e à precarização do trabalho.

A China e a nova economia do projetamento

Contudo, se tivermos a coragem intelectual de desviar o olhar das ruínas do neoliberalismo atlântico e observar a Ásia, veremos que o relógio da história apenas mudou de fuso horário. A China é a grande dissidente do nosso tempo porque recusou o memorando de Francis Fukuyama.

Lá, opera-se o que teóricos como Elias Jabbour classificam como “Nova Economia do Projetamento”. Trata-se de um estágio superior de organização social onde a razão e a ciência substituem a lógica cega da maximização de lucros de curto prazo. Não se trata de um “milagre de mercado”, mas de uma engenharia institucional deliberada baseada em um tripé que o Ocidente abandonou.

A base desse sistema é um sistema financeiro soberano. Ao contrário do Ocidente, onde os bancos criam moeda para especulação em ativos financeiros, os grandes bancos estatais chineses operam sob uma lógica de missão, financiando a infraestrutura e a base produtiva com juros baixos e prazos longos; uma verdadeira “repressão financeira” a favor do desenvolvimento. Esse crédito irriga a espinha dorsal produtiva, formada por conglomerados estatais que atuam como a vanguarda tecnológica.

Tudo isso é amarrado pelo controle político do capital. Na China, o dinheiro não governa; o Estado governa o dinheiro. A prova empírica é a gestão de crises: diante do colapso imobiliário, a prioridade estatal foi garantir a entrega das moradias (o valor de uso), e não o salvamento dos acionistas (o valor de troca). É essa soberania sobre os fluxos financeiros que permite ao planejamento chegar antes do caos.

Essa capacidade de planejamento gerou um novo “Momento Sputnik”. A China realizou o salto de “fábrica de quinquilharia” para a liderança global em tecnologias críticas como 5G, inteligência artificial e energias renováveis.

Mais impressionante é a resposta à crise climática. Enquanto o Ocidente se afoga no fatalismo, a China responde com o conceito de “civilização ecológica”, tratando a crise ambiental não como um problema moral de consumo individual, mas como um desafio técnico-político de engenharia continental. Os números de 2024 são eloquentes: a China instalou mais capacidade de energia solar em um ano do que o mundo inteiro nas últimas três décadas.

Isso prova que é possível transformar a matriz energética, desde que o Estado tenha o controle das alavancas da economia, bancos, indústria e tecnologia, e não tenha medo de usá-las.

O Brasil na encruzilhada

E qual o lugar do Brasil nessa geografia temporal? Somos o epicentro onde colidem duas temporalidades antagônicas.

De um lado, a força gravitacional do atraso tenta nos converter em um eterno “fazendão” exportador de commodities, submisso a um Ocidente que oferece apenas austeridade. Para a elite financeira local, o país é uma mera plataforma de extração de valor imediato, presa à armadilha da renda média.

Do outro lado, pulsa a vocação do futuro. Como membro fundador dos BRICS e detentor de minerais críticos para a transição energética global, o Brasil possui as condições materiais objetivas para liderar o novo ciclo histórico. Mas precisamos abandonar a ingenuidade. A relação com a China e o Sul Global deve ser instrumental ao nosso próprio projeto de potência.

A verdadeira “civilização ecológica” nos trópicos não virá da exportação de minério bruto ou da preservação passiva, mas de uma neo-industrialização verde e soberana. Precisamos internalizar as cadeias de valor, utilizando nosso poder de compra estatal e nossas reservas para fabricar aqui, e não importar, as baterias, os fármacos e a infraestrutura do século XXI.

A disputa geopolítica atual, portanto, transcende tarifas comerciais ou hegemonia militar; trata-se de uma guerra pela própria faculdade de imaginar o amanhã. Ao demonstrar que a miséria pode ser erradicada e a transição energética acelerada pela ação estatal consciente, a experiência chinesa devolve à humanidade a categoria da possibilidade material.

Para o Brasil, situado na encruzilhada entre a estagnação rentista e a potência soberana, a lição é clara: o futuro não é um lugar para onde somos arrastados pela inércia do mercado, mas um território a ser conquistado pelo planejamento. Se o Norte Global decidiu parar o relógio e administrar o fim do mundo, o Sul segue caminhando. A nós, cabe decidir se seremos espectadores do apocalipse ou os arquitetos do novo tempo.

*Rodrigo Lucas Pereira é professor de Ciências Humanas na rede estadual de Santa Catarina.

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