O enfrentamento à barbárie

Imagem: The Quiet Atlas
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Por TARSO GENRO*

A herança de Gramsci, Bobbio e Croce ilumina o combate ao fascismo, que hoje exige uma democracia ampliada contra a barbárie financeirizada

1.

A cultura moderna de resistência ao fascismo na Itália, que persiste um pouco degradada até os dias atuais, teve o lastro em três grandes figuras intelectuais, com posturas diferentes perante o vertiginoso crescimento político e eleitoral de Benito Mussolini: Antonio Gramsci (1891-19370), marxista; Norberto Bobbio (1909-2004), principalmente kantiano; e Benedetto Croce, predominantemente hegeliano.

Partindo de diferentes pontos de vista filosóficos, criaram – cada um deles – premidos pelos desafios do cotidiano para sobreviver, espaços de reflexão e ação política antifascista, sendo reprimidos e presos, com maior ou menor dureza pelo regime, segundo o grau de “periculosidade”, que eles representavam para a ditadura de Benito Mussolini em diferentes épocas. Antonio Gramsci era o mais perigoso porque a sua utopia, à época, era a mais perigosa e ainda possível.

Na luta contra o fascismo na Itália, Antonio Gramsci foi preso em condições sub-humanas entre novembro de 1926 até pouco antes de morrer, em 27 de abril de 1935. Seu legado, na questão cultural relacionada com a teoria política, é a teoria da hegemonia, para qual a cultura nacional-popular é um elemento ativo na formação da consciência de classe, de que pretenda ser dirigente do Estado nacional.

Norberto Bobbio, filósofo do Direito, via no ordenamento institucional do Estado democrático um potente mecanismo da modernidade, tanto para proteger direitos e outorgar obrigações, como para – numa ordem legítima – difundir valores imperativos universais. Benedetto Croce compreendia, pelo idealismo hegeliano, que a cultura erudita tinha um papel importante na criação de uma identidade nacional com vocação democrática, do ponto de vista das suas elites mais responsáveis pela ideia de nação.

O fim da Primeira República na Itália (1948 a 1994) se dá pelos processos da “Operação Mãos Limpas”, iniciada em Milão pelo juiz Di Pietro, responsável por desvelar um sistema de corrupção sofisticado comandado pelo Partido Democrata Cristão e seus aliados, que governaram o país até 1994. A velha corrupção foi desbastada e assumiu o poder na Itália, pela via democrática, a novíssima e circense corrupção instaurada pelo voto popular, através dos sucessivos governos de Silvio Berlusconi.

Depois de governos “técnicos” e “puros”, politicamente insossos, foi viabilizada a volta do fascismo ao governo, depurado das suas caricaturas mais agressivas, embora Partido Comunista Italiano tivesse saído incólume dos processos das Mãos Limpas. Os antídotos ao fascismo não penetraram solidamente na ordem do capital.

2.

Penso que para a formação de uma cultura política democrática e republicana, voltada para informar as estratégias eleitorais que confrontem o avanço do fascismo, devemos levar em conta que a sua principal característica deve ser a defesa da ideia de nação soberana, especialmente face à anomia que reina nesta etapa das situações geopolíticas globais.

Essa ideia de soberania é contraposta ao intervencionismo imperial-colonial e aos extremismos autoritários de todos os tipos. Deve, também, se propor a construir no imaginário popular algo que retome – em um outro nível – os velhos valores socialistas da igualdade e da liberdade, colocando-os no terreno da luta republicana, através de uma outra e nova visão “ampliada” de democracia social.

Esta ampliação da ideia da democracia concreta deve ser expressa na defesa de uma democracia econômica, aberta ao compartilhamento de um novo modo de vida, mais seguro, mais livre, mais solidário: uma democracia social e ambiental, para assegurar um convívio social e cultural mais elevado do que aquele que está sendo fruído no presente. A fusão da cultura nacional-popular de massas – como orienta a Lei Rouanet – com a cultura estimulada e não subordinada pelo Estado, é um bom exemplo instrumental dessa necessidade de mudança dos padrões de civilidade política e cultural.

O enfrentamento à barbárie deve opor, todavia – em termos culturais e políticos – o sentido prático e funcional da democracia “ampliada”, como adversária radical do que Antonio Gramsci definiu como democracia restrita do estado “ampliado”. Este estado é a fusão do Estado institucional com as instituições financeiras e grandes empresas privadas, que são apoiadas na corrupção do Estado e em fluxos político-informacionais e financeiros legais e ilegais. Esses fluxos transitam e reforçam os poderes de fato do capitalismo financeiro globalizado, tornando os países devedores reféns dos seus credores-especuladores, internos e externos.

Atualmente, as forças ideológicas e materiais que exercem o controle da gestão do Estado, limitam o estado social à veneração do mercado. Nessa lógica os processos eleitorais tendem a ser produto da disputa entre duas grandes narrativas: a defesa “libertária” do mercado e a defesa do clássico estado-providência.

Do ponto de vista da esquerda comprometida com a democracia, pensar um futuro é pensar em algo sobre o qual ninguém terá controle absoluto. Do ponto de vista do fascismo, externo e interno, o país deveria derivar para um pragmatismo irresponsável, que buscasse soluções rápidas e fáceis, baseadas na pura violência privada e estatal.

Se é verdade que, para moldar o futuro, devemos pensar racionalmente, sem as ilusões clássicas de que a igualdade está na esquina, também é verdade que devemos criar uma “paixão” tolerante, mas também radicalmente contraposta aos fascismos e neofascismos. Estamos vivendo um “novo” trágico, não como “mero interregno”, mas como provável permanência. E ele tem à espreita uma nova tentativa de golpe, numa situação aliás “que faz toda a diferença”[i], comparativamente aos processos políticos tradicionais de golpes militares na América Latina.

3.

A angústia sobre as perspectivas de futuro, em cada época, tem traços comuns que se apresentam como enigmas, para escolher entre compreender aquilo que é necessidade natural para o funcionamento da sociedade, e aquilo que é procurado como ideal a ser alcançado, com um arranjo político que sustente a solução procurada.

Este enigma da democracia moderna, todavia, não é um oposto sem saída, como aquilo que ocorria no escravismo da antiguidade. Naquele período a força corporal do trabalho era subjugada no próprio corpo do “cativo”, mas a partir da Ilustração a política moderna – se é que forjou novas formas de “escravidão moderna” – também abriu novas alternativas de mais igualdade e mais liberdade, a partir das novas rebeldias sociais e jurídicas configuradas no século XX.

O que ocorre hoje como crise liberal-representativa teve início na primeira grande revolução industrial onde – em termos das expectativas idealizadas – se avançou do escravismo da democracia grega para a dominação assalariada do homem livre. Aristóteles, aliás, já diferenciava no escravismo antigo os tratamentos mais adequados e desumanos e os tratamentos menos desumanos, oferecidos pelos proprietários dos escravos, mas sempre compreendendo a necessidade de apropriação privada total dos seus corpos, como necessidade para que a sociedade pudesse funcionar, guerrear e produzir.

A diferença daquela época para a época moderna é que a escravidão grega se amparava no poder absoluto sobre o humano, como escravo. Já na democracia industrial moderna o que se legitima é a coerção disciplinar produtiva sobre o trabalhador livre, fundada no controle dos meios de produção, com o objetivo é distribuir, dentro da ordem, os sacrifícios e os privilégios.

Através desse controle da regulação do trabalho livre, este tornou-se ínsito ao desenvolvimento do sistema do capital, o que inclusive remonta à escravidão da antiguidade. Nesta (4000 a.C. a 476 d.C.), Aristóteles (384-322 a.C.) já tratara do atendimento das doenças e da prevenção das enfermidades dos mineiros escravos (…) editando publicações em que “preconizava medidas de higiene do trabalho”.[ii]

4.

Não se diga que ninguém atentou para o que poderia acontecer numa crise democrática de um país capitalista avançado. Mostra Lucio Magri, no seu Alfaiate de Ulm (p 318-319),[iii] que Enrico Berlinguer (1922-1984), dirigente do Partido Comunista Italiano desde 1971 até a sua morte, tentou promover uma profunda mudança estratégica no PCI, em termos não só políticos, mas igualmente culturais.

Pretendia renovar o seu Partido para oferecer uma estabilidade dirigente ao partido majoritário nas eleições, prestigiando assim o tenso sistema democrático italiano do pós-guerra, desde que aceito um plano de reformas econômicas, já farejando a quebra do sistema soviético e o aumento do intervencionismo subversivo da OTAN, aliada aos fascistas italianos.

A grande influência que sempre tiveram, tanto na forma como no conteúdo, as mensagens políticas para influenciarem os eleitores – num ou noutro sentido – tinham como finalidade convencer os eleitores (como massa popular), que eles poderiam transitar de uma situação social pior, para outra melhor, marcada sobre três temas-chaves que formariam a moldura do progresso, pessoal e familiar: a ideia de nação contraposta à ideia de colonização imperial; identidade simbólica, com maior ou menor proximidade das ideias dos candidatos com as distintas classes sociais; e a ideia socialista, republicana, populista (ou simplesmente paternalista), que ora reduziram sua influência, para promoverem a ficção de pertencimento a uma comunidade, espacialmente ou politicamente definida.

Essa é ideia de progresso que foi superada pelas revoluções tecnológicas em curso, pelas quais o interno e o externo se transformaram num agregado de redes, sem origem e sem destino e no qual o presente é sempre passado e a virtualidade é sempre futuro. A identidade fundada pela utopia precede a sociedade capitalista e não foi extinta, o sujeito é que é outro, individual e ao mesmo tempo coletivo, disperso numa humanidade sem espírito, numa vida sempre ficta e repetitiva, mas em busca de um horizonte que não fuja das suas mãos.

A mais provável ou possível utopia contemporânea, na era Trump, é a democracia republicana. Ela resistirá? É possível verificar que caminhos utópicos estão sempre presentes na ampla literatura filosófica e historiográfica que percorre a modernidade, cuja forma e conteúdo dependem do período histórico em que elas se fazem. Lembremo-nos de Voltaire no seu Cândido: “lá, finalmente, Pangloss poderia ter razão, o melhor dos mundos possíveis poderia ser realidade, acontece que o Eldorado está escondido entre as mais inacessíveis cordilheiras dos Andes, talvez no farrapo de um mapa. Trata-se de um não lugar, de uma utopia”.[iv]

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3DfPdhF]

Notas


[i] PINTO, Céli. O futuro chegou e é monstruoso. SUL21. Porto Alegre,04 de fev.de 2026. Disponível em: https://sul21.com.br/opiniao-publica-2/2026/02/o-futuro-chegou-e-e-monstruoso-por-celi-pinto/.

[ii] PRATA, Marcelo Rodrigues. O direito Ambiental do Trabalho numa perspectiva sistêmica: as causas da infectividade da proteção à ambiência laboral e o que podemos fazer para combatê-la. São Paulo: LTr, 2013, pg.119.

[iii] MAGRI, Lucio. O Alfaiate de Ulm, uma possível história do partido Comunista Italiano; tradução Silvia de Bernardinis, São Paulo: Boitempo, 2014.

[iv] CALVINO, Italo. Porque ler os clássicos. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das letras, 2007, p.112.

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